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Carta aos Filipenses (1)

Data e Autoria
A autenticidade da carta não é contestada, ao passo que a sua unidade é posta em dúvida por alguns, que pensam ver nela o resultado da fusão de duas ou mais cartas ou bilhetes de autoria paulina, originalmente independentes, que foram unidos para formar o nosso texto atual. Mas nenhuma hipótese parece de natureza a convencer totalmente. A questão está em aberto.

Também há discordância entre os estudiosos no tocante ao lugar de composição: tradicionalmente considerava-se que esta carta foi escrita durante o primeiro cativeiro romano de Paulo, (anos 61-63). Não obstante, a cada dia, são mais os que pensam que a epístola foi escrita em Éfeso, durante a prisão sofrida pelo Apóstolo nessa cidade, por ocasião da 3ª viagem (anos 54-57) na mesma época que escreveu as duas aos Coríntios (56-57). O estado de investigações não permite por agora estabelecer com segurança se a epístola foi escrita em Roma ou em Éfeso poucos anos antes.

Finalidade e Ocasião da Escrita
Os filipenses souberam da prisão de Paulo e mandaram Epafrodito pra prestar auxílio financeiro ao Apóstolo. O enviado, porém adoeceu, motivo de preocupação para os filipenses. Epafrodito, por sua vez, preocupou-se com isso (2,25-30) e quis voltar o mais depressa possível, para tranqüilizar a comunidade, Paulo aproveita para mandar junto com ele esta carta, que é sem dúvida a mais cordial e familiar de todas as suas epístolas e nela esta evidente a afeição que Paulo sentia por sua primeira comunidade européia.

Nesta carta agradece aos filipenses os socorros materiais e o afeto que dedicavam ao apóstolo; aproveitando o ensejo comunica algumas notícias suas, principalmente, do seu apostolado (1,22-25), encoraja-os e dá alguns conselhos, tendo por base o que ouvira deles; exorta-os à unidade e à concórdia fraterna ( 1,27-2,18; 4,1-4). Enquanto escrevia, chegaram outras notícias, o que o obrigou a acres-centar algumas palavras de advertência (3,1-6).

A cidade de Filipos
Hoje em ruínas a cidade de Filipos foi próspera na Antiguidade. Quando Filipe II pai do Imperador Macedônio Alexandre Magno, anexou a região à Macedônia (hoje parte da Grécia), ele reedificou a cidade, fortificou-a e deu-lhe o seu próprio nome, até então se chamava Cremides. Anos mais tarde o Imperador Augusto transformou-a em importante posto avançado de Roma (At 16,12), junto da fronteira com a Trácia sobre a Via Egnacia: a principal estrada romana da Itália a Bizâncio.

Sua população era constituída principalmente, mais ou menos a metade, de veteranos romanos, ou seja, de origem latina; a cidade era administrada à maneira romana (At 16,2). A outra metade era formada pela população greco-romana e um certo numero de imigrantes, entre os quais também judeus. Este elemento judaico era evidentemente muito reduzido, não havendo uma sinagoga na cidade, eles se reuniam fora da cidade às margens do rio.

Paulo visitou Filipos pela primeira vez no ano 50, durante a sua segunda viagem missionária. Esteve acompanhado por Silas, Timoteo e Lucas. Lá encontram Lídia, uma negociante de púrpura, que foi convertida e batizada por Paulo juntamente com a sua família. Ela lhes ofereceu hospedagem (At 16,14s.40).

Surgiram dificuldades. Eles tornaram-se alvo de uma campanha de difamação e de hostilidade, foram maltratados e acabaram sendo encarcerados, mas foram milagrosamente libertos (At 16,25-39). Tiveram que sair da cidade, lá deixando apenas uma pequena comunidade composta essencialmente de antigos pagãos (At 16,20-40; Fl 2,15s; 3,3s; 4,8s; 1 Ts 2,2). O Apóstolo tornou a visitar a cidade na sua 3ª viagem missionária (em 57) e uma terceira vez voltando de Corinto, por ocasião da celebração da Páscoa do ano 58 (At 20,1-6).

Um tom afetuoso caracteriza essa carta. Dentre todas as suas comunidades a de Filipos era a que ele mais apreciava: era a primícia da sua missão em território europeu; e, sobretudo, retribuiu ao seu amor com uma sincera e concreta dedicação.

Com os fiéis de Filipos, Paulo fez uma exceção a sua norma de não aceitar recursos materiais das comunidades (Fl 4,15). Paulo não costumava aceitar ofertas, pois queria pregar o Evangelho sem ser de algum modo oneroso aos fiéis ou vivendo unicamente do trabalho de suas mãos. Se Paulo aceitou as doações dos filipenses foi sem dúvida por causa da atitude particularmente fraterna deles e enorme confiança. A comunidade mandou-lhe várias vezes ajuda financeira (Fl 4,15-16; 2 Cor 11,9). Depois deu tamanha prova de generosidade, na coleta, que foi apresentada como exemplo para a Igreja de Corinto (2 Cor 8,1-5).

A carta aos Filipenses mostra bem com clareza o profundo afeto que lhe professava: "Tenho-vos no coração" (1,7); "irmãos meus queridos e saudosos, minha alegria e minha coroa" (4,1).

Estrutura e Divisão
1,1-11- Saudação e ação de graças.

1,12-26 - Situação pessoal de Paulo: prisão e pregação.

1,27-2,18 - Ensinamento do Apóstolo. Exortação à comunidade, à fidelidade no seguimento de Cristo. Conduta cristã.

2,5-11- Hino Cristológico

2,19-3,7 - Projetos e notícias. Comunicações pessoais.

3,2-4,9 - A vida cristã. Instruções pastorais para a fidelidade e unidade na fé. O verdadeiro caminho da salvação cristã. Últimas recomendações

4,10-23 - Ação de graças e despedida. Agradecimento pelos auxílios enviados.

Continua no próximo número

Jane do Térsio

 

 
 
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