"Movimentos Sociais: Seria tão bom se não existissem..."
Recentemente, durante uma palestra sobre "O amor ágape
de Jesus Cristo", um participante perguntou sobre a minha opinião
acerca dos Movimentos Sociais e os impactos que eles causam em nossa
sociedade. Respondi a pergunta do jovem contando uma experiência
pessoal que vivenciei há aproximadamente três anos atrás,
quando me dirigia para o trabalho enfrentando um incomum engarrafamento
no centro da cidade, em função de uma passeata de estudantes
da rede estadual de ensino. Essa experiência foi tão
marcante em minha vida, que faço questão de também
compartilhá-la com os amigos leitores da nossa coluna "Fé
e Política".
Estava eu, juntamente com a minha esposa, indo para o trabalho, em
uma segunda-feira pela manhã, quando na altura do rio Maracanã,
eu percebo um trânsito extremamente confuso.
Apesar de quase sempre beirar o caos, o trânsito em nossa cidade,
naquele dia sugeria algo incomum. Algum acidente ou imprevisto fazia
com que a viagem cotidiana de uma hora se projetasse para cerca de
duas ou até mais horas na frente do volante. Logo o repórter
da rádio que ouvíamos no carro diagnosticava: Uma passeata
de estudantes na Avenida Rio Branco era o grande vilão do nosso
atraso. Inicialmente, eu procurei evitar qualquer julgamento, até
porque eu ainda não sabia o motivo da tal passeata. Dali a
poucos minutos, a mesma rádio que antes diagnosticava o motivo
do engarrafamento, trazia agora a razão da passeata: Os estudantes
da rede pública protestavam contra o fim da gratuidade no acesso
aos ônibus.
Realmente, era um motivo muito sério. Mas algo dentro de mim,
certamente movido pelo aborrecimento de um atraso em um engarrafamento
somado a natural indisposição, característica
de uma segunda-feira pela manhã, questionava se não
existia nenhuma outra forma dos estudantes fazerem o seu protesto.
A velha e terrível tentação do egoísmo
falava cada vez mais alto em meu coração: " O que
eu tenho a ver com isso?", indagava eu a minha esposa que, pacientemente
pedia para eu tentar ver o problema sob a ótica dos estudantes.
Para a minha surpresa, a rádio iniciava naquele instante, uma
entrevista com um dos responsáveis daquela manifestação
e, logo depois da explicação do aluno sobre os motivos
da passeata, o âncora do programa faz a pergunta que martelava
a minha consciência: "Você acha que, por mais digna
e justa que seja a reivindicação de vocês, realmente
era necessário atrapalhar o cotidiano do trabalhador que segue
agora para o trabalho e que não tem nada a ver com isso?"
A pergunta soou como música para os meus ouvidos, entretanto,
a resposta do aluno me deu uma lição que eu nunca mais
esqueci. Ele disse o seguinte: " Em primeiro lugar, eu gostaria
de aproveitar o espaço do seu programa para pedir desculpas
a quem está indo para o trabalho e está preso no engarrafamento.
Entretanto, se não tivéssemos feito isso, certamente
não teríamos o espaço que tivemos nesta rádio
para falar sobre esse grave problema do fim da gratuidade dos ônibus.
Neste exato momento, enquanto lhe dou esta entrevista, alunos carentes
estão deixando de ir a aula ficando, inclusive, a mercê
do tráfico de drogas na favela, porque os seus pais não
têm dinheiro para as passagens de ônibus dos filhos".
Na mesma hora, eu virei para a minha esposa (que há cerca de
dez minutos, mesmo também estando atrasada como eu, defendia
os alunos e me pedia para ser razoável) e pedi desculpas. Logo
em seguida, agradeci a Deus pela oportunidade de ter um aprendizado
sobre o quanto egoístas nós somos.
Essa história me marcou tanto, que sempre que posso, utilizo-a
em minhas aulas e palestras para justificar a importância dos
Movimentos Sociais. Sem estes, algumas das poucas conquistas conseguidas
pelos trabalhadores, estudantes carentes e necessitados de uma forma
geral, não existiriam. Os Movimentos Sociais, assim como as
Campanhas da Fraternidade, só existem porque não existe
Justiça Social em nosso País. Se ela existisse de fato,
provavelmente não precisaríamos ter o MST, os Prés
Vestibulares Comunitários, o Movimento Negro e etc.
Para terminar, eu peço desculpas ao leitor pelo erro, que foi
proposital, do título acima. O correto deveria ser: "Movimentos
Sociais: Seria tão bom se não precisassem existir".
Um forte abraço a todos e a Paz de Cristo!
Robson Campos Leite
Email : feepolitica@terra.com.br
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