O PECADO DE ADÃO (III)
A ligação efetiva entre os homens, que as gerações
atuam, leva, também, a pensar na salvação como
um fato que diz, sim, respeito a cada indivíduo como a uma
humanidade contemplada como um corpo, do qual Cristo se torna o Cabeça.
Nisto, Cristo, decididamente supera a figura. Impossível pensar
como um simples homem, sujeito à morte, possa ser o cabeça
efetivo de uma humanidade. Não é assim de Cristo que,
de condição divina, se torna o Primogênito entre
muitos irmãos, unidos a Ele pela comunicação
do Espírito, que faz deles membros de um só corpo, destinados
a ser co-herdeiros com a humanidade de Cristo ressuscitada, da Glória
divina. A eficácia da ação redentora de Cristo,
em relação a cada homem, liga cada um a Cristo e faz,
de cada um, membros de um só corpo. Cada qual, portanto, segundo
a sua específica vocação, é chamado a
viver a vida do Espírito em prol do Corpo, completando na sua
"carne o que falta à Paixão de Cristo" (Cl
1,24). É o seu sacrifício racional (Rm 12,1), agora
possível, até porque Cristo perpetua a nossa condição
de novas criaturas pelo sacramento da penitência, em caso de
pecado.
Tudo nos é dado no Espírito. Por ele podemos reinar,
temos a imortalidade, a filiação divina, a Glória
eterna. Nessa vida de fé intercede por nós, enquanto
encaminha a criação à manifestação
dos filhos de Deus.
A filosofia contribui nessa análise, enquanto ilustra por que
o homem peca. Ficando no estágio da imaginação,
o homem cria ídolos para si. Isto rompe a comunicação
com Deus e leva a uma degeneração. Gn 4 ilustra o processo
degenerativo. Eva e Caim mostram a facilidade com que o homem cede
à tentação. As aparências exercem um atrativo
que confundem o homem. Essa é a condição de todo
e cada homem que constata, até antes de se aperceber, que o
pecado já se tornou pecaminoso nele (Rm 7,13). Disso Jesus
nos redime tornando-se ao mesmo tempo Caminho, Verdade e Vida. É
evidente que a teologia contempla o homem em si diante do seu desafio,
constata o fracasso de todo e cada homem que, a exemplo do Adão
da narrativa de Gn 3, fracassa, pela revelação, é
informada de uma redenção gratuita de Deus que teve
a sua atuação em Israel. A condição divina
do Redentor permite entender que aquilo que se processou historicamente,
agia desde a criação do homem em virtude de uma Promessa,
mas, sobretudo, em virtude de um Plano. A cada homem é oferecida
a salvação que se efetua levando Deus a termo a própria
criação, a partir do homem que recebe a graça
da filiação divina mediante a comunicação
do Espírito que é o Espírito de Cristo.
Pelo Batismo da Igreja, Cristo opera a plenitude da criação
comunicando ao homem a configuração a si e a vida divina.
A Igreja recebeu, na fé, aquilo que transmite seja à
criança como ao adulto. À criança, pela fé
que ela, Igreja, tem, ao adulto pela fé que despertou pela
pregação da Palavra. O Batismo visa muito mais do que
a remissão das culpas. Visa, sobretudo a nossa configuração
a Cristo glorificado. É pela força dessa configuração
que no adulto desaparece até qualquer sombra de pecado. Na
criança, o Batismo leva a termo o Plano originário de
Deus que "de antemão nos conheceu e nos predestinou a
sermos conformes à imagem do seu Filho" (Rm 8,28). O fato
que isto aconteça dentro de um contexto de redenção,
não significa que, agora a nossa configuração
a Cristo dependa da remissão de uma culpa original, significa
simplesmente que Deus, explorando a condição de culpa,
atua a nossa divinização num contexto de misericórdia.
Na criança isso atua de tal forma que ela está em condições
de reinar, não pelo esforço pessoal de servir a Deus,
e sim, com Cristo.
Perguntas para uma reflexão:
1ª) O que implica a nossa ligação a Cristo Cabeça?
2ª) Como poderíamos ilustrar o mistério do pecado?
3ª) Quais são as graças que o Batismo produz em
nós?
Pe. Fernando Capra - CRSP |