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A Paixã de Cristo

| JUNHO


Diante do realismo extremo das cenas do filme "A Paixão de Cristo", de Mel Gibson, algumas pessoas dizem: "Isso é uma palhaçada. Ninguém suporta sofrer tanto assim, e continuar vivo, e de pé". E se apressam em concluir: "Não foi bem assim que as coisas se passaram, o filme pintou um quadro exagerado".

Interessante ver como o sofrimento de Cristo incomoda. E não se pode dizer que a razão disso esteja na violência, porque as mesmas pessoas que se escandalizam com esse filme, estão geralmente acostumadas a ver e até procuram, com uma curiosidade mórbida, outros tipos de violência muito piores: os noticiários de jornal, as revistas de "informação", os programas policiais, os filmes violentos que se produzem aos montes, sobrecarregados de uma violência muito mais absurda, indecente, paranóica, imoral. E talvez até mais explícita. E ninguém diz: "Isso não pode ser verdade", "não podemos aceitar uma coisa dessas"...

O que choca na paixão de Cristo, portanto, não é a violência. Nem a injustiça, que sempre está ligada à violência, e com a qual, portanto, todos também já estão acostumados. Nem a insensibilidade dos carrascos, pela mesma razão. Ou seja: não é que essas coisas não sejam, de fato, chocantes, porque elas o são. E muito. Só que não servem de pretexto para criticar o filme, quando não se vê motivos para criticar as outras exibições, igualmente chocantes, de violência.

Penso que o que choca as pessoas, na contemplação da Paixão de Cristo, é o AMOR. A gratuidade. O mistério da doação total e incondicional. Nós podemos compreender a violência, mas não compreendemos o AMOR... e, por isso, nos escandalizamos. Não suportamos que Deus nos ame dessa forma, porque nos sabemos pecadores e indignos. O amor de Deus nos escandaliza, porque nos denuncia. O Cristo sofredor nos olha e nos revela quem somos... e não entendemos o amor presente nesse olhar, a nobreza e serenidade que continuam irradiando desse rosto, mesmo desfigurado. Seria mais fácil entender um olhar de desespero, de revolta, clamando por justiça... pois essa é a nossa forma de reagir às nossas dores: pagando o mal com o mal, fazendo justiça pela vingança. O sofrimento de Jesus nos é familiar, o que realmente nos assusta é o perdão...

Muitos questionam: "Será que Deus, sendo todo-poderoso, não podia ter escolhido um meio mais "suave" para redimir a humanidade? Por que fazê-lo de um modo tão cruel?"
Essas pessoas se esquecem de que não foi Deus quem escolheu esse caminho, e sim nós. A extensão dos sofrimentos de Jesus foi determinada pela extensão dos nossos pecados... esses mesmos pecados que nós gostamos de ver na televisão (nos noticiários, novelas, programas de "humor"...) e de praticar todos os dias, e nos quais reivindicamos o direito de investir as nossas economias e energias. Esses mesmos que nós, tantas vezes, chamamos de "vida" e de "liberdade"...

A violência do mundo não nos escandaliza porque reflete o mesmo egoísmo que nós também temos. Não nos denuncia. É muito mais difícil encarar alguém que nos diz: "Eu quero sofrer no seu lugar. Pagarei pelos seus crimes, para que você fique livre." Isso, para nós, é incompreensível...

Se Deus quis redimir o mundo dessa forma, é porque nos amou sem reservas. Não assumiu apenas parte da nossa dívida, mas toda ela. E esse era o tamanho da nossa dívida... o alcance dos pecados dos homens em todos os tempos. Quando olhamos por esse ângulo, entendemos que Mel Gibson não exagerou nem um pouco. Pelo contrário...

Ele escolheu carregar nas imagens, porque a linguagem visual é mais evidente. Mas ela não diz tudo... vemos ali o sofrimento físico, mas não o sofrimento moral, que talvez tenha sido o mais doloroso. A consciência da ingratidão, da injustiça e da cegueira dos homens de todos os tempos. Daqueles que olham para a cruz e dizem: "É uma palhaçada". Porque recusam o AMOR.

É verdade que nenhum homem suportaria aquilo. Jesus, porém, suportou, porque não era um simples homem. Se ele quis retirar de sua condição divina algum privilégio, foi o privilégio de sofrer mais... e não só no corpo. Poucos entendem o alcance da angústia moral expressa no grito: "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?" Jesus não tinha dúvidas sobre o amor do Pai, nem sobre o sentido do seu sacrifício livremente assumido, mas quis abrir mão até mesmo desse consolo... quis experimentar a angústia, a dúvida, a frustração e solidão em que nós nos debatemos, quando gritamos por Deus e pensamos que ele não escuta.

A Igreja sempre nos recomendou meditar sobre a Paixão de Cristo. Todos os santos o fizeram. Geralmente, porém, nós preferimos entorpecer nossas consciências, e fazemos representações cada vez mais "light" em nossas celebrações, acompanhando distraídamente o evangelho da paixão e reclamando que seja tão comprido. Confesso que me sinto mal a cada vez que o folheto me convida a dizer, com toda a assembléia: "Fora com ele! Crucifica-o!" Fico pensando se as outras pessoas terão consciência do que estão dizendo... minha tentação é ficar calada, mas sinto que a Igreja me convida a essa conscientização pessoal e confissão pública da minha culpa, da minha responsabilidade nesse crime. Reconhecer o erro é condição para o arrependimento...

Mel Gibson encontrou uma forma de sacudir esse torpor da humanidade, de "obrigar" o mundo à contemplação do mistério da Paixão. E isso é bom, é oportuno, é necessário. É o que o mundo precisa ver.

Quem grita "Crucifica-o" somos todos nós. As pessoas boas, as pessoas normais, as pessoas do povo. Não os bandidos. Não apenas as autoridades. Nem os judeus, especificamente. Não há anti-semitismo no filme, essa crítica é mais uma forma de expressar a fuga daqueles que não querem olhar para dentro de si mesmos. A mensagem do filme é claramente universal, sem nenhuma conotação étnica. Os judeus (como os romanos) só estão lá na medida em que a fidelidade histórica o exige, mas não há nisso nada de novo, nada que já não se soubesse, e não há a menor sombra de apelação tendenciosa nesse sentido. Todo mundo sabe que o alcance desse acontecimento vai muito além do povo judeu, que foi por todos nós que Cristo morreu. E não só para "se solidarizar" com um sofrimento e morte injustamente suportados por nós (como na leitura que certos teólogos fazem), mas para pagar a nossa culpa, detalhe que geralmente preferimos esquecer. O grande mérito de Mel Gibson é refrescar a nossa memória...

E o que vai fazer a diferença é a nossa resposta diante daquele olhar inesquecível do Cristo sofredor, que nos revela quem somos, como a Pedro na hora em que o galo cantou, ou como a Judas. Podemos, como Pedro, aceitar o amor e o perdão que nos renova, e assim testemunhar a alegria da Ressurreição. Ou podemos, como Judas, permanecer na morte, recusar o amor e o perdão, achar que não há saída, e assim perder a Ressurreição.
Foi dessa morte do desespero, do vazio, que Cristo nos livrou. Ele a assumiu, para dela nos libertar. Para transformá-la em Vida... em Esperança. Mas cabe a nós acolher a Vida, ou rejeitá-la. Ficar na morte, ou superá-la. Pedir perdão e começar a amar, ou continuar jogando pedras inúteis nos outros... como os revolucionários de todos os tempos, que pensam poder obter a justiça e a paz por meio das armas e da violência.

Só o que salva o mundo é o amor. E o amor não mata. O amor dá a vida...

Margarida Hulshof

 
 
VEJA NO MÊS DE JUNHO/2004:

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