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Diante
do realismo extremo das cenas do filme "A Paixão de
Cristo", de Mel Gibson, algumas pessoas dizem: "Isso é
uma palhaçada. Ninguém suporta sofrer tanto assim,
e continuar vivo, e de pé". E se apressam em concluir:
"Não foi bem assim que as coisas se passaram, o filme
pintou um quadro exagerado".
Interessante ver como o sofrimento de Cristo incomoda. E não
se pode dizer que a razão disso esteja na violência,
porque as mesmas pessoas que se escandalizam com esse filme, estão
geralmente acostumadas a ver e até procuram, com uma curiosidade
mórbida, outros tipos de violência muito piores: os
noticiários de jornal, as revistas de "informação",
os programas policiais, os filmes violentos que se produzem aos
montes, sobrecarregados de uma violência muito mais absurda,
indecente, paranóica, imoral. E talvez até mais explícita.
E ninguém diz: "Isso não pode ser verdade",
"não podemos aceitar uma coisa dessas"...
O que choca na paixão de Cristo, portanto, não é
a violência. Nem a injustiça, que sempre está
ligada à violência, e com a qual, portanto, todos também
já estão acostumados. Nem a insensibilidade dos carrascos,
pela mesma razão. Ou seja: não é que essas
coisas não sejam, de fato, chocantes, porque elas o são.
E muito. Só que não servem de pretexto para criticar
o filme, quando não se vê motivos para criticar as
outras exibições, igualmente chocantes, de violência.
Penso que o que choca as pessoas, na contemplação
da Paixão de Cristo, é o AMOR. A gratuidade. O mistério
da doação total e incondicional. Nós podemos
compreender a violência, mas não compreendemos o AMOR...
e, por isso, nos escandalizamos. Não suportamos que Deus
nos ame dessa forma, porque nos sabemos pecadores e indignos. O
amor de Deus nos escandaliza, porque nos denuncia. O Cristo sofredor
nos olha e nos revela quem somos... e não entendemos o amor
presente nesse olhar, a nobreza e serenidade que continuam irradiando
desse rosto, mesmo desfigurado. Seria mais fácil entender
um olhar de desespero, de revolta, clamando por justiça...
pois essa é a nossa forma de reagir às nossas dores:
pagando o mal com o mal, fazendo justiça pela vingança.
O sofrimento de Jesus nos é familiar, o que realmente nos
assusta é o perdão...
Muitos questionam: "Será que Deus, sendo todo-poderoso,
não podia ter escolhido um meio mais "suave" para
redimir a humanidade? Por que fazê-lo de um modo tão
cruel?"
Essas pessoas se esquecem de que não foi Deus quem escolheu
esse caminho, e sim nós. A extensão dos sofrimentos
de Jesus foi determinada pela extensão dos nossos pecados...
esses mesmos pecados que nós gostamos de ver na televisão
(nos noticiários, novelas, programas de "humor"...)
e de praticar todos os dias, e nos quais reivindicamos o direito
de investir as nossas economias e energias. Esses mesmos que nós,
tantas vezes, chamamos de "vida" e de "liberdade"...
A violência do mundo não nos escandaliza porque reflete
o mesmo egoísmo que nós também temos. Não
nos denuncia. É muito mais difícil encarar alguém
que nos diz: "Eu quero sofrer no seu lugar. Pagarei pelos seus
crimes, para que você fique livre." Isso, para nós,
é incompreensível...
Se Deus quis redimir o mundo dessa forma, é porque nos amou
sem reservas. Não assumiu apenas parte da nossa dívida,
mas toda ela. E esse era o tamanho da nossa dívida... o alcance
dos pecados dos homens em todos os tempos. Quando olhamos por esse
ângulo, entendemos que Mel Gibson não exagerou nem
um pouco. Pelo contrário...
Ele escolheu carregar nas imagens, porque a linguagem visual é
mais evidente. Mas ela não diz tudo... vemos ali o sofrimento
físico, mas não o sofrimento moral, que talvez tenha
sido o mais doloroso. A consciência da ingratidão,
da injustiça e da cegueira dos homens de todos os tempos.
Daqueles que olham para a cruz e dizem: "É uma palhaçada".
Porque recusam o AMOR.
É verdade que nenhum homem suportaria aquilo. Jesus, porém,
suportou, porque não era um simples homem. Se ele quis retirar
de sua condição divina algum privilégio, foi
o privilégio de sofrer mais... e não só no
corpo. Poucos entendem o alcance da angústia moral expressa
no grito: "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?"
Jesus não tinha dúvidas sobre o amor do Pai, nem sobre
o sentido do seu sacrifício livremente assumido, mas quis
abrir mão até mesmo desse consolo... quis experimentar
a angústia, a dúvida, a frustração e
solidão em que nós nos debatemos, quando gritamos
por Deus e pensamos que ele não escuta.
A Igreja sempre nos recomendou meditar sobre a Paixão de
Cristo. Todos os santos o fizeram. Geralmente, porém, nós
preferimos entorpecer nossas consciências, e fazemos representações
cada vez mais "light" em nossas celebrações,
acompanhando distraídamente o evangelho da paixão
e reclamando que seja tão comprido. Confesso que me sinto
mal a cada vez que o folheto me convida a dizer, com toda a assembléia:
"Fora com ele! Crucifica-o!" Fico pensando se as outras
pessoas terão consciência do que estão dizendo...
minha tentação é ficar calada, mas sinto que
a Igreja me convida a essa conscientização pessoal
e confissão pública da minha culpa, da minha responsabilidade
nesse crime. Reconhecer o erro é condição para
o arrependimento...
Mel Gibson encontrou uma forma de sacudir esse torpor da humanidade,
de "obrigar" o mundo à contemplação
do mistério da Paixão. E isso é bom, é
oportuno, é necessário. É o que o mundo precisa
ver.
Quem grita "Crucifica-o" somos todos nós. As pessoas
boas, as pessoas normais, as pessoas do povo. Não os bandidos.
Não apenas as autoridades. Nem os judeus, especificamente.
Não há anti-semitismo no filme, essa crítica
é mais uma forma de expressar a fuga daqueles que não
querem olhar para dentro de si mesmos. A mensagem do filme é
claramente universal, sem nenhuma conotação étnica.
Os judeus (como os romanos) só estão lá na
medida em que a fidelidade histórica o exige, mas não
há nisso nada de novo, nada que já não se soubesse,
e não há a menor sombra de apelação
tendenciosa nesse sentido. Todo mundo sabe que o alcance desse acontecimento
vai muito além do povo judeu, que foi por todos nós
que Cristo morreu. E não só para "se solidarizar"
com um sofrimento e morte injustamente suportados por nós
(como na leitura que certos teólogos fazem), mas para pagar
a nossa culpa, detalhe que geralmente preferimos esquecer. O grande
mérito de Mel Gibson é refrescar a nossa memória...
E o que vai fazer a diferença é a nossa resposta diante
daquele olhar inesquecível do Cristo sofredor, que nos revela
quem somos, como a Pedro na hora em que o galo cantou, ou como a
Judas. Podemos, como Pedro, aceitar o amor e o perdão que
nos renova, e assim testemunhar a alegria da Ressurreição.
Ou podemos, como Judas, permanecer na morte, recusar o amor e o
perdão, achar que não há saída, e assim
perder a Ressurreição.
Foi dessa morte do desespero, do vazio, que Cristo nos livrou. Ele
a assumiu, para dela nos libertar. Para transformá-la em
Vida... em Esperança. Mas cabe a nós acolher a Vida,
ou rejeitá-la. Ficar na morte, ou superá-la. Pedir
perdão e começar a amar, ou continuar jogando pedras
inúteis nos outros... como os revolucionários de todos
os tempos, que pensam poder obter a justiça e a paz por meio
das armas e da violência.
Só o que salva o mundo é o amor. E o amor não
mata. O amor dá a vida...
Margarida Hulshof
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