Mais um olhar sobre a mesma questão
Os jovens falam muito em "ficar" com alguém. O que
vem a ser isso? Por definição, "ficar" implica
numa troca de carinhos por um período curto, sem compromisso
de namoro.
O adolescente, ao "ficar", exercita sua descoberta do prazer,
da atração física, da sexualidade. E esse "ficar"
está isento de vínculos ou de responsabilidades. Aliás,
muitos jovens consideram o compromisso como um aprisionamento (referindo-se
à dependência psicológica entre os parceiros e
a falta de liberdade para vivenciar outras experiências). Pode-se
pensar que houve uma perda da auto-estima, ou de valores morais. Mas
o que ocorreu foi uma transformação de valores. Assim,
o jovem atual usufruindo de uma liberdade muito maior pode procurar
seu par para namoro durante os momentos em que ele "fica"
com alguém. Há adolescentes que atribuem ao beijo uma
qualidade extra: comunicar sintonia entre os pares. A partir daí,
pode surgir um namoro. Em outras palavras, a atração
pode ser vivida sem a sensação de um amor romântico
(aquele que pede fidelidade, reciprocidade e compromisso, no qual
o relacionamento humano transcende o simples desejo sexual). O "ficar"
caracteriza uma época em que os pais não mais controlam
seus filhos e a facilidade de contato propicia novos conhecimentos.
Namorar abrange um sentido de permanência, de mais consistência
na relação, de maior envolvimento. Típico do
namoro, o compromisso inclui respeito e amizade, além de atração
física. No namoro, à medida que os contatos visuais,
telefônicos e físicos se intensificam, a afetividade
vai surgindo e transformando a qualidade da intimidade. Há
uma interação no campo intelectual, permeado de compromisso
um com o outro. Aparece um desejo de continuidade, o que remete ao
futuro e ao passado dos pares. Nessa troca afetiva, surge um sentimentalismo
típico de um par romântico, para o qual o tempo de namoro
é algo bastante valorizado. E entre dois jovens que "ficam",
nem sempre existe afeto aliado à atração física.
Resumindo:
- "ficar" corresponde a período breve, num relacionamento;
- "ficar" não implica compromisso;
- "Ficar" não implica sentimentos duradouros;
- "Ficar" não implica romantismo.
De qualquer maneira, cabe a nós, adultos, zelar pela boa formação
dos nossos adolescentes, de tal forma que eles possam vivenciar suas
experiências com discernimento e responsabilidade, sem perder
a leveza de sua juventude.
Heloísa de Resende Pires Miranda - Psicoterapeuta de crianças
e adolescentes
Do Jornal Opinião |