Vou morrer
Não sou exatamente um cara místico, acho até
que sou meio durão nesses negócios de fé e religião.
Acredito no que vejo, no que eu sou, numa energia cósmica,
sei lá... essas coisas que a gente ouve por aí. Minha
mulher é que tem a mania de ir a missa todo domingo, até
levou as crianças para a catequese, enfim, se Deus for lá
em casa, com certeza vai procurar por ela, eu não sou uma pessoa
muito conhecida d´Ele. Conquistei minha posição
social com muito esforço, muita luta e disposição.
Tive que pisar e ser pisado, mas cheguei lá, não precisei
de nenhum deus, santo ou outra coisa que o valha. Apenas eu sou mais
eu.
Meus três filhos reclamam minha presença, mas afinal
o que eles querem? Dou tudo o que eles precisam; escola, tênis,
shopping e precisam mais de que?
Minha mulher é outra que me cobra de tudo um pouco, mas já
sou pai, esposo, bom filho, genro nem se fala, faço a maior
média com minha sogra. E quando eu pensava estar tudo numa
boa, me acontece o seguinte:
Numa noite em que não conseguia dormir, fiquei rolando na cama.
Em dado momento vi uma claridade vinda do alto do quarto. Reclamei
com minha mulher para desligar a luz, como ela nem se moveu, fui eu
mesmo desligar. Ao sentar-me na cama, ouvi uma voz meio estranha que
dizia: "-Jonas, eu tenho um recado para te dar. Você só
tem um mês de vida."
-Que? Acho que aquele remédio que eu tomei pra dormir me deixou
doidão.
"-você não está acreditando? Então,
para confirmar minha presença aqui, quando você acordar
vai dar uma canelada na mesinha e se mesmo assim não acreditar,
você vai tomar um choque na torneira do banheiro e se ainda
assim continuar durão, seu carro vai amanhecer com os quatro
pneus furados."
Obviamente que não acreditei em nada, foi apenas um sonho.
Levantei e fui tomar banho, dei uma canelada numa mesinha de madeira
que alguém deixou no corredor. Entre pulos de dor pensei: claro
que é uma coincidência. Ainda esfregando a canela entrei
no chuveiro. Tomei um choque que até meus poucos cabelos se
arrepiaram. Não era possível aquilo estar acontecendo,
mas por via das dúvidas olhei pela janela para ver meu carro.
Os quatro pneus estavam furados.
Tá bom! Tá bom! Se é para acreditar, eu acredito,
mas porque eu tão jovem iria morrer?
Fiquei muito chateado com esta decisão unilateral de "não
sei quem", afinal não é todo dia que a gente fica
sabendo que vai morrer. Eu precisava tomar uma decisão sobre
o pouco que me restava de vida, se é que toda essa loucura
é verdadeira.
Meu primeiro impulso foi detonar geral, arrebentar a boca do balão,
mas alguma coisa me dizia que eu deveria repensar minha vida e refazê-la
a partir deste ponto. Daquele dia em diante minha vida mudou, tirei
férias e fui passear com minha família. Ia todos os
dias levar meus filhos ao colégio. Reatei amizades esquecidas.
Visitei minha mãe que não via a muito tempo, só
nos falávamos por telefone. Meu pai nem se fala, acho até
que tinha esquecido que ele existia. Namorei muito minha esposa, coisa
rara, pelo menos com ela. Esqueci um pouco do meu trabalho e passei
a olhar mais para mim, afinal meus dias estavam terminando.
Aceitei o convite para ir a missa com meus filhos e até fiquei
animado para me confessar junto com o padre. Vou morrer mesmo, então
não custa descarregar meus pecados. E nisso minha vida foi
clareando. Sentia prazer em estar com minha família. Nas missas,
abraçado aos meus filhos recebi a benção dos
aniversariantes e me emocionei com toda aquela cantoria. Eu tinha
uma vida maravilhosa e não sabia aproveitar. Deus me concedeu
coisas em abundância e eu nunca Lhe agradeci. Porque um Deus
tão bondoso dava bênçãos a uma pessoa tão
ruim como eu?
Realmente eu merecia morrer, não fazia jus a tudo o que tinha,
e antes de se completar um mês, fui a um santuário e
entreguei minha alma a Deus. Coloquei-me em suas mãos e Lhe-disse
que se fizesse a sua vontade e que cuidasse de minha família
na minha ausência.
Naquela mesma noite a luz me apareceu novamente e dela saiu a mesma
voz. Eu já estava preparado; beijei meus filhos, acariciei
minha mulher e fiquei esperando meu derradeiro minuto.
"-Você já morreu." Disse a voz.
-como assim se ainda estou aqui em carne e osso?
"-Você morreu e renasceu para uma nova vida. Aquela pessoa
egoísta, individualista, mau caráter, infiel e tantas
outras coisas ruins não existe mais. O que vejo agora é
um homem novo, renascido no amor do Pai. O que temos agora é
um cidadão decente, pai dedicado e marido amado. Era preciso
que você morresse desta vida para ter uma nova vida em Cristo.
O Pai nos convoca a ressurreição todos os dias. Feliz
aquele que não precisa passar por um susto como este para entender
este amor Divino. Você se salvou com seu esforço e com
sua dedicação em mudar, viva feliz agora."
Minha mulher sonolenta, perguntou com quem eu estava conversando aquela
hora, afaguei seu rosto e ela voltou a dormir. Fui para o banho pensando:
já que não morri, vou chamar a rapaziada para comemorar
numa boate, vou me acabar.
Entrei no banho, liguei o chuveiro e tomei um choque pior que o outro.
Tá bom! Tá bom! Eu já entendi! Retiro o que eu
disse! Vou ficar em casa quietinho!!
P.S. Voltei na Caixa Econômica esta semana, haviam sessenta
números na minha frente. Depois de esperar por quase três
horas me informaram que meu pagamento ainda não estava liberado.
Ninguém merece de novo.
P.S. do P.S. A tal mulher não estava lá, fiquei até
com saudades.
PAULO SOBRINHO E SOLANGE (loretando@ig.com.br) |