- Carta aos Romanos (15)
Livres deste corpo de morte (Rm 7)
Para Paulo, o homem sobre o qual a graça da justificação entende agir em virtude da fé em Jesus Cristo, é aquele que não pratica o que quer, enquanto faz o que detesta (v. 5). Embora a Lei seja santa e santo, justo e bom seja o preceito (v. 12), a letra da Lei não tem em si a força de resgatar o homem do pecado. Sob o regime da Lei o judeu era mantido cativo pela força do pecado, multiplicando as culpas porque, sendo carnal, não conseguia cumprir a Lei espiritual. De fato, o homem, a partir da sua rebeldia ao Criador, vê agigantar-se em si o mal que o escraviza, a ponto de constatar que é o pecado, que habita nele, o autor do mal que pratica. Agora, pelo corpo de Cristo, que morreu uma vez por todas, libertando-nos do pecado, cessou o regime da Lei, isto é a condição precária em que o homem se encontrava. Pertencemos àquele que ressuscitou dentre os mortos, a fim de produzirmos frutos para Deus. É como se tivéssemos morrido ao tempo em que a Lei era o nosso pedagogo para Cristo, ficando nós livres de pertencer ao Senhor, em virtude do seu Espírito, por ele merecido e a nós comunicado.
A condição de consciência distingue o homem de todos os outros seres animados. É uma centelha inserida numa massa de instintividade (Sb 9,15s). O desenvolvimento instintivo, conduzido segundo as regras da natureza, constituir-se-ia num ato de domínio sobre a criação e de louvor ao Criador, dele reconhecendo a soberania. Contudo, o homem fracassa porque não cultiva a contemplação que o levaria à correta relação com o Criador. Os instintos então se tornam irresistíveis. O homem faz o mal que não quer e não faz o bem que quer. A Lei não é suficiente para reter o homem dos vícios. Deus então intervém e ao homem que fracassa nas suas leis de crescimento, em Jesus, o verdadeiro Adão, mostra o Caminho. Por Aquele que é a Vida, vem em socorro do homem com o dom do Espírito, divinizando-o, de forma que o homem tem todas as condições e as mais altas motivações para se realizar: a situação de degeneração em que cai quando se omite na implementação das leis do seu crescimento; Cristo Caminho, Verdade e Vida, que aponta para a forma real de crescimento; Cristo Princípio do Espírito que o salva, o regenera e intercede.
O fiel é chamado a um vasto trabalho de santificação mediante o cultivo da graça que recebe de Deus que, na sua bondade misericordiosa, o chama à conversão (2,4). A Redenção não substitui o plano original de chamar o homem à participação da vida divina mediante o serviço pela obediência. Só o torna possível diante da extrema fragilidade da criatura, enquanto o Espírito é dado. Mas é só como primícias que ele é dado, de forma que o homem deve cultivar a fé em vista de uma caridade plena. É o programa da santificação ao qual todo e cada fiel é chamado (2Pd 1,5-10 ). A justificação pela fé converte e regenera. Depois disto, o fiel deve cultivar o que por um dom gratuito lhe é concedido: a configuração a Cristo, resistindo às tentações pela prática da virtude. O anima a consciência da grandiosidade do dom, da força que está nele, o Espírito, e a sabedoria do Plano de Deus que o Evangelho prometido, atuado e anunciado lhe revelam. O anima também a consciência que agora ele tem da condição de miséria moral em que ele voltaria a cair se deixasse de atuar as boas obras iniciadas pela conversão e regeneração no Batismo, mediante a procura da glória, da honra e da incorruptibilidade (2,7). O anima, enfim, o entendimento que ele tem da sua responsabilidade, diante da recusa dos judeus ao anúncio do Evangelho. Se algo grave acontece ao pagão que o recusa e algo pior acontece ao judeu, algo terrível vai acontecer ao fiel, caso profane, pela sua displicência, o dom da graça recebida pela justificação em Cristo. “Gratuitamente justificado pela misericordiosa Bondade, em virtude da redenção realizada por Cristo Jesus,...vítima de expiação no seu sangue” (3,24s), deve se deixar transfigurar por Cristo Senhor de glória em glória (2Cor 3,17s).
A condição definitiva contempla o homem espiritual em plena comunhão com o seu Criador. A corporeidade participará numa condição transfigurada como, analogicamente, acontece à semente que, plantada, quando morre, se transforma numa plantinha. O homem deve portanto se importar com os valores do espírito, continuamente lutando contra a absolutização dos valores da lei de vaidade. O instrumento da valorização do espírito é o Memorial da morte do Senhor, com tudo o que a Escritura ensina acerca do homem que acaba tendo a sua expressão máxima em Jesus, o Verdadeiro, que se fez Caminho para que tenhamos a Vida.
Perguntas para uma reflexão:
1ª) De que o homem é capaz, terminado o regime da Lei, em virtude da graça que Cristo mereceu com a sua Morte?
2ª) Quais são as motivações que o levam a viver a vida da graça?
3ª) De que forma São Pedro descreve as etapas da santificação em 1Pd 1,5-10?
Pe. Fernando Capra/CRSP |