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“Questionar e ter fome e sede de justiça: o caminho para a construção do Reino”

“Bem aventurados os que têm fome e sede de justiça”. Com essas palavras, Jesus Cristo, no sermão da montanha, mostra-nos o que deve permear o pensamento e as atitudes do Cristão, em especial no mundo de hoje: a indignação com a realidade socialmente perversa em que estamos mergulhados. Será que temos nos colocado dessa forma frente à injustiça do mundo? Ou a omissão, a frieza e a indiferença é que tem sido a marca principal de nossas atitudes em nossas vidas?

Certo dia, durante uma palestra que proferi em um grupo de casais sobre a família cristã e o mundo moderno, contei a eles uma interessante história que gostaria de compartilhar aqui em nosso espaço. “Conta uma antiga lenda chinesa que um jovem, ao adormecer, sonha que havia morrido e, antes de entrar no céu, ele se encontra com um Anjo. Chegando lá, ele pergunta qual a diferença entre o Céu e o Inferno. O Anjo então o convida para que ele assista a um filme mostrando os dois lugares. Ao assistir o filme, o jovem fica muito preocupado e assustado, pois tanto o céu quanto o inferno eram muito parecidos: em ambos os lugares as pessoas somente se alimentavam em um grande salão com enormes caldeirões e imensas colheres que continham um cabo bastante comprido e muito quente, o que permitia que as pessoas somente pegassem essas colheres na ponta onde existia uma pequena proteção que impedia que elas queimassem as mãos. Vendo isso, o jovem pergunta: Nossa, não consigo ver a diferença entre o céu e o inferno. Onde está a diferença? O anjo responde: A diferença está nas pessoas. No inferno, existem brigas e desespero pois ninguém consegue levar a colher até a boca. No céu, as pessoas se preocupam em alimentar umas as outras.”

A solidariedade no espírito de partilha mostrada no céu da história acima é fruto do rompimento com o egoísmo e o individualismo. Ela mostra um aparente clima de paz no grupo que está no céu. Uma paz duradoura, pois possui seus alicerces na justiça, na partilha e na igualdade. Mas, a grande questão que fica é: como construir essa paz através da justiça? Como realizar essa mudança tão urgente no mundo em que vivemos?

Um dos elementos fundamentais para a construção da civilização do amor é a partilha. Mas, evidentemente, só haverá partilha verdadeira se houver um rompimento com o egoísmo e com o individualismo. E esse rompimento não acontecerá sem uma grande conscientização fruto de uma reflexão e de um forte questionamento por parte da sociedade. Não é mais possível nos dizermos cristãos e percebermos crianças morrendo pela falta de uma simples vacina na África enquanto que, por outro lado, as indústrias farmacêuticas americanas lucram milhões de dólares com a venda de medicamentos para o mundo, em especial para os países pobres. Não é admissível falarmos em metas para o milênio que visam acabar com a fome e a miséria se, por outro lado, países de primeiro mundo gastam milhares de dólares dinheiro suficiente para erradicar a pobreza e a miséria do mundo dezenas de vezes com guerras e produção de armas. Não é admissível falarmos em crise econômica mundial se há pessoas preocupadas apenas em “ter” esquecendo, dessa maneira, o “ser”-humano. O combustível da mudança para trocar a civilização do consumo e do egoísmo por uma relação de partilha e coletivismo na sociedade é a indignação frente a esse triste cenário. Olhar a realidade socialmente perversa e se indignar é o início de um processo onde o objetivo final será a construção do Reino de Deus. Isso também implica em questionarmos a nós mesmos. Atitudes como, por exemplo, perguntar-se sobre a real necessidade de alguns tipos de consumos “será que preciso mesmo desse carro novo?” são elementos fundamentais, principalmente em casa com os nossos filhos.

A sociedade atual prega um modelo de consumo que, além de não ser sustentável, acaba alienando e destruindo os valores cristãos da partilha. O início da mudança passa pela educação que damos aos nossos filhos. Mostrar a eles, por exemplo, que não é admissível haver fome e miséria no mundo já é um bom começo. Ensinar que a cidadania é uma forma de convivência onde todos e todas ganham a partir do equilíbrio também ajuda.
Lembro-me de uma amiga que disse a filha de quatro anos, quando ela pediu um presente caro de natal ao “papai Noel”, que se ele desse a ela aquele presente caro, não sobraria dinheiro para comprar o presente das outras crianças no mundo. Que o ideal, nesse caso, era pedir um presente mais barato para que o papai Noel pudesse comprar o presente de todas as crianças.

Os discursos convencem, mas são as atitudes que arrastam. É através da nossa conduta que os nossos filhos aprenderão um novo jeito de viver: questionar, refletir, partilhar e construir ao invés de só pensar em si e destruir. Esse é o caminho para iniciarmos, aqui e agora, a construção de um mundo justo, fraterno e solidário.

Um grande abraço, a Paz de Cristo e vamos colocar sempre o “Bem Comum acima de tudo”.

Robson Leite
www.robsonleite.com.br
Email: feepolitica@terra.com.br

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