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A Pátria de Chuteiras |JULHO


A copa do mundo começou e o Brasil tentando ser hexacampeão. O país vai parar e seus mais de 170 milhões de habitantes vão esquecer de tudo, até de comer, de beber e de amar, para ficar pendentes diante de um televisor acompanhando o balé dos meninos em campo.

Quem quiser trabalhar não vai conseguir, quem quiser silêncio para pensar, meditar ou simplesmente dormir também não vai. Seremos todos obrigados a compartilhar os gritos de ansiedade da torcida nervosa que rói as unhas e chora e se agita diante do jogo. Ou a ouvir os foguetes a cada gol.

As empresas e repartições públicas já se resignaram: meio expediente ou expediente nenhum quando houver jogo do Brasil.
Não adianta, ninguém vai trabalhar mesmo. E quem tentar, não conseguirá render. É o destino da pátria sendo decidido por 11 pares de pés que se movimentam em campo. E por duas mãos do goleiro que impedem o gol adversário.

Por sua perícia no esporte nacional, por sua quantidade de bons jogadores, é verdade que o Brasil se tem feito respeitar no mundo inteiro. E isso faz bem ao nosso ego em baixa, ao nosso complexo de cachorro vira-lata, como diria Nelson Rodrigues. Faz bem ser contado entre os melhores do mundo num momento em que vamos tão mal, com a esperança fazendo água por todos os lados, com o desânimo e o desalento tomando o lugar da contagiante alegria, com a violência engolindo a tradicional cordialidade. Por outro lado, a Copa do Mundo e uma eventual vitória do Brasil podem ser uma perigosa tentação de euforia falsa e efêmera, assim como de acomodação e um dormir sobre louros que, na verdade, não existem e já nasceram reduzidos a pó. Os da minha geração não se terão esquecido do engodo da ditadura militar no governo Médici, que fez com que a vitória do Brasil, conquistando o tricampeonato no México, desviasse a atenção da opinião pública para as barbaridades que aconteciam nos porões do regime.

Enquanto a população gritava gol e dava vivas à Seleção, nas prisões brasileiras jovens eram torturados até a morte; mulheres grávidas perdiam os bebês devido ao sofrimento físico e moral por que passavam. Apenas a voz da Igreja, na pessoa de seus bispos, se levantava para denunciar o estado de coisas e defender os direitos humanos.

Uma vez conquistado o título foi a vez de a economia montar e consolidar sua mentira. O famoso "milagre brasileiro", que fez a classe média acreditar que era rica, esburacou para sempre as finanças do país e até hoje pagamos as amargas conseqüências e o preço daquele embuste. Ao "milagre" seguiram-se a inflação galopante e a pobreza crescente, sempre regados com discursos que diziam ser necessário que o bolo crescesse primeiro para depois reparti-lo.

Enquanto isso, a Seleção voltava do México e era aclamada pelas ruas. E o fosso entre ricos e pobres aumentava. E toda uma geração era perseguida, torturada e morta. E o povo brasileiro se alegrava com seu aparente triunfo, com sua estrela brilhando, sem saber que era cadente.

É tempo de Copa do Mundo e é justo e necessário torcer e muito por nossa Seleção. Vale tudo: chamar o juiz de ladrão, roer as unhas, arrancar os cabelos, gritar de alegria pelo gol feito e de angústia e frustração pelo gol tomado.

No entanto, é preciso não esquecer que o país do futebol é também o país dos contrastes sociais, de problemas imensos que não serão resolvidos se a Seleção nos trouxer o hexa. Importa compartilhar a alegria do povo com essa festa democrática que é um campeonato mundial de futebol. Mas fazê-lo sem esquecer que o país do futebol tem grandes problemas que não serão solucionados com a perícia dos chutes do Fenômeno ou com o gênio gaúcho do outro Ronaldinho. Apenas com muito trabalho, espírito comunitário e desejo de justiça.

 
 

VEJA NO MÊS DE JULHO/2006:


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