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Contemplando... o jovem rico |JULHO

Jesus deixou Betânia e atravessou a região da Peréia com os seus amigos. Iam em direção ao mar da Galiléia, lugar onde vários deles haviam nascido e de onde tinham muitas saudades. Muitas outras pessoas os seguiam e, cada vez que paravam, para descansar ou buscar alimento em alguma aldeia, a multidão os cercava e todos queriam ouvir, falar ou tocar em Jesus. Muitos, que já conheciam sua fama, traziam doentes para que ele os curasse.

Numa dessas paradas, em meio a confusão que deixa-va os apóstolos agitados e nervosos, um jovem bem vestido aproximou-se de Jesus e disse: "Bom Mestre, que devo fazer para ser feliz e conquistar a vida eterna?".

Jesus voltou-se curioso para quem lhe fazia tal pergunta. Olhou para o jovem com interesse. Todos ao redor se calaram, aguardando, com expectativa, a resposta que, na verdade, interessava a todos.

Jesus colocou no chão uma criança que segurava nos braços e aproximou-se do rapaz. Sorrindo, disse: "Por que você me chama de bom? Apenas Deus é bom. Ele já lhe deixou os seus mandamentos. Cumpra-os e será feliz nesta vida e na que virá".

O jovem insistiu: "Mas quais mandamentos, Mestre?".
"Você os conhece. Estão na Lei de Moisés. Não mates, não cometas adultério, não furtes, não digas falso testemunho contra teu irmão, não enganes, honra teu pai e tua mãe..."

"Eu sei, Senhor - disse o jovem - tudo isso tenho cumprido desde a minha juventude."

Jesus, que já havia se afastado alguns passos, voltou-se para o jovem. Aproximou-se dele, colocou as duas mãos sobre seus ombros, fixando seus olhos. O rosto iluminado por um sorriso, o olhar transbordando de amor, ele disse: "Pois então, meu filho, só uma coisa te falta, vai, vende tudo o que tens e distribui entre os pobres, pois assim terás um tesouro no céu. Depois vem e segue-me!".

Pedro, que se erguera, cochichou com João: "Mais um louco para o nosso bando. Agora vamos ser treze..."

Mas o jovem, olhando espantado para Jesus, deu dois passos atrás, como se aquelas palavras o houvessem ferido. Por um instante, todos os bens que possuía: casas, terras, rebanhos, criados, roupas finas, tudo passou pela sua mente. Apesar de jovem, era um homem muito rico. Triste, ele baixou os olhos, deu as costas e foi-se embora, misturando-se à multidão.

Vendo o jovem afastar-se, Jesus sentiu uma profunda amargura em seu coração. Pensou em chamá-lo, dizer que sua proposta fora exagerada e radical, mas o rapaz já desaparecera no meio do povo.

Jesus sentou-se à soleira de uma porta e todos o cercaram, ainda em silêncio. Eu me aproximei, ficando bem perto de Jesus.
Olhando para nós, homens simples e rudes em sua maioria, falou como se pensasse em voz alta: "Preciso ter cuidado com as palavras. Realmente são poucas as pessoas dispostas a abrir mão de suas certezas e seguranças por causa do Reino. Como deixar tudo por uma vida errante e incerta, quando há tanto que deixar?".

E Jesus olhou a multidão que o cercava, ávida por milagres, e nos seus olhos a tristeza se aprofundou.

Nesse instante, um tumulto chamou a atenção de todos. Uma caravana entrava pela porta da aldeia. Era uma porta estreita, aberta na muralha, uma pequena torre com uma cúpula que se afinava e que era chamada de "agulha". Um grande camelo, carregado de mercadorias era puxado pelo condutor que tentava fazê-lo passar pela estreita abertura. O camelo empacava, recuava, enquanto o homem usava, sem piedade, o seu chicote.
Por fim, num arranco furioso, o camelo jogou ao chão toda a carga que levava às costas e fugiu em disparada, deixando o mercador a praguejar raivosamente, amaldiçoando o animal.

Vendo a cena, Jesus disse:" Seria mais fácil passar aquele camelo pela abertura da "agulha" do que um rico entrar no Reino dos Céus".

Todos os que ouviam aquelas palavras se entreo-lhavam admirados. Eu criei coragem e perguntei: "Mas, então, Mestre, quem poderá conquistar a vida eterna?".

Jesus, olhando para mim, depois para todos, numa voz quase inaudível, como se fosse um suspiro, disse: "Entre os homens é impossível, mas para Deus nada é impossível..."

Eduardo Machado (Do Jornal Opinião)
 
 

VEJA NO MÊS DE JULHO/2006:


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