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1ª Carta aos Coríntios
Introdução
Mais do que qualquer outro escrito Paulino, a primeira carta aos
Coríntios precisa ser situada historicamenrte. Nela, Paulo
expõe uma teologia aplicada aos problemas e às situações
da comunidade cristã. É um das cartas mais amplas
de Paulo em termos de doutrina e disciplina na Igreja.
A cidade de Corinto
A cidade de Corinto era uma das cidades comerciais mais importantes
do mundo antigo. Fundada no século IX a.C. atingiu seu apogeu
no século VI e V a.C. com escolas de retórica e filosofia.
No ano 146 a.C. foi completamente arrasada pelo General romano Lucio
Mumio. Por mais de um século a cidade permaneceu como um
desolado cemitério.
Sua localização geográfica na estreita faixa
de terra situada entre o Mar Adriático e o Mar Egeu, seus
dois portos abertos a dois mares abriam-se ao nascente e ao poente,
convertiam-se em encruzilhada da parte comercial e cultural entre
a Ásia e a Europa.
No ano 44 Julio César ordenou a sua reconstrução
sobre as ruínas, estabelecendo aí uma colônia
romana formada por itálicos e escravos. No ano 27 a.C. Otavio
Augusto fez dela a capital da Acaia. Sua população
foi aumentando sempre mais, além de gregos e itálicos,
com uma turba variada de homens de negócios, traficantes,
marinheiros que procediam de todas as partes do Império,
sobretudo do Egito e da Ásia Menor. Eram muito numerosos
os escravos e haviam também judeus atraídos pelo florescente
comercio.
Por ser um grande porto ela possuía as características
que são próprias deste tipo de cidade: população
muito heterogênea na qual todos as raças e religiões
conviviam lado a lado com numerosas atividades comerciais e industriais:
a vida era fácil para uns, mas havia pobreza de outros. À
prosperidade econômica se unia a vida licenciosa.
Encontravam-se ali também santuários de Isis, Serapis
(provenientes do Egito) e de Cibele (da Frígia) ao lado de
templos consagrados a Júpiter e divindades tradicionais.
Existia também uma sinagoga. Seu principal templo era dedicado
a Afrodite no alto do Acrocorinto, um morro escarpado que dominava
a cidade, onde se exercia como um rito religioso, a prostituição
sagrada e a adoração diante da deusa da luxúria.
Corinto era a cidade do prazer e se tornou tristemente célebre
pela sua degradação moral como centro de vício
e prazer.
É nesta cidade que Paulo resolve estabelecer uma Comunidade
Cristã que pela diversidade de origem dos habitantes significaria
levar a mensagem cristã a se difundir rapidamente em outras
direções.
Lucas, nos Atos dos Apóstolos, nos fornece a principal fonte
de informação e testemunho indireto sobre as atividades
do apóstolo que escreve as duas Cartas aos Coríntios
no ano 57. Em Atos 18,1-18 é narrada com riqueza de minúcias
a segunda viagem de Paulo. Ele vinha de Atenas, onde apesar de seu
brilhante discurso no Aerópago, foram poucos os que se converteram.
Esta dura experiência, juntamente com a corrupção
moral que reinava em Corinto, podem explicar a sua chegada "com
temor e tremor" (1 Cor 2,3).
Em Corinto dirige-se primeiro a seus irmãos de raça
e prega na sinagoga aos sábados. Começa a se ligar
a judeus que tinham o mesmo ofício que ele, fabricante de
tendas, passando a morar e trabalhar com eles, é quando conhece
Áquila e Priscila, um casal judeu convertido ao cristianismo
e expulso de Roma pelo edito de Cláudio (At 18,2).
Mais tarde, perante a oposição que encontrava entre
os judeus decidiu dirigir a sua pregação fundamentalmente
aos gentios.
Passa a morar na casa de Tito Justo. Com a chegada de Silas e Timóteo
pode dedicar-se mais à Palavra. Durante mais de um ano e
meio (50-52) esteve Paulo a ensinar em Corinto. Neste período
em Corinto Paulo escreve as duas cartas aos Tessalonicenses.
Na sua terceira viagem Paulo permanece três anos em Éfeso.
Quando estava lá recebe más notícias de Corinto.
Escreve-lhes então uma primeira carta (Pré-canônica,
hoje perdida) com o objetivo de corrigir alguns abusos (1 Cor 5,9).
Surgiram outras notícias alarmantes e pouco confortadoras
sobre a condição da Igreja local (1,11; 5,1) e elas
vêm acompanhadas de consultas sobre pontos de doutrina e costumes
(7,1). Paulo responde com o que hoje chamamos 1 Carta aos Coríntios.
Da própria carta podemos deduzir que Paulo tinha sido informado
pelos "de Cloé" (1,11) de uma série de abusos
que se tinham introduzido na Igreja de Corinto: havia vários
partidos no seio da comunidade (cf 1,11ss); notava-se um grande
laxismo com respeito à castidade (cf 5,12 ss) chegando-se
inclusive a um caso de incesto (cf 5,1 ss); havia pleitos de cristãos
diante de tribunais pagãos (cf 6,1 ss); algumas mulheres
comportavam-se sem o decoro devido nas reuniões litúrgicas
(cf 11,2 ss; 14,34 ss); tinham-se introduzido desordens na celebração
da Eucaristia (cf 11,17 ss). Por outro lado, a pró
pria comunidade tinha enviado uma delegação, formada
por Estéfanas, Fortunato e Acaico (cf 16,17) com um escrito
no qual consultavam o Apóstolo com uma série de dúvidas
(cf 7,1.25; 8,1; 12,1); sobre matrimônio e virgindade (cf
7,1 ss); sobre a liceidade de comer carnes imoladas aos ídolos
( cf 8,1 ss) ; sobre o uso e valor dos carismas( cf 12,1 ss); sobre
a ressurreição dos mortos (cf 15,1 ss).
Conteúdo e Estrutura
Tanto a 1a quanto a 2a Carta aos Coríntios não são
um tratado, mas respostas aos problemas práticos colocados
pela mesma comunidade cristã
O motivo da carta e o que explica a sua estrutura são as
necessidades e circunstâncias concretas da Igreja de Corinto,
daí o seu caráter marcadamente pastoral e a grande
variedade de temas.
As dificuldades que haviam surgido em Corinto provinham principalmente
do fato de que a Igreja estava pela primeira vez em contato com
o helenismo: portanto uma questão de adaptação.
Ela nos mostra os problemas suscitados pela inserção
da fé cristã numa cultura pagã e os meios empregados
por Paulo para resolver esses problemas.
Estrutura
1,1-9 Introdução - Paulo começa com a saudação
habitual e um hino de ação de graças.
1,10 6,20 - 1 parte - Aborda os problemas da Igreja de Corinto.
1,10-4,21 - As divisões entre os fiéis. Os partidos
na comunidade causados pelo partidarismo a favor de Cefas, Paulo,
Apolo e Cristo. A unidade da Igreja, cuja cabeça é
uma só, Cristo, exclui toda possibilidade de divisão.
5,1-6,20 - Abusos gritantes a reprimir:
5,1-13 - Um caso de incesto.
6,1-11 -Não sejam levados a tribunais pagãos os litígios
entre cristãos.
6,12-20 - As faltas contra a pureza. Desvios da vida sexual. A fornicação
é profanação do corpo de Cristo e do templo
do Espírito Santo.
7,1- 15,58 - 2 parte - O Apóstolo responde aos pedidos e
perguntas da comunidade cristã de Corinto.
7- 10 - A vida do cristão no mundo
7,1-40 - Matrimônio indissolúvel e celibato. As diversas
situações pessoais: casamento, divórcio, estado
de vida, virgindade, casamento de viúvas.
8,1-10,33 - O uso das carnes sacrificadas aos ídolos. Em
princípio é lícito já que não
existem outros deuses, mas se isto causa escândalo aos irmãos
mais fracos é preciso abster-se das carnes.
11-14 - A vida da comunidade.
11,1-34 - Ordem nas reuniões litúrgicas. As reuniões
da comunidade: o comportamento das mulheres, o véu é
sinal de reverência. A ceia deve ser dignamente celebrada.
12,1-14,40 - Graças e Carismas. Dons do Espírito e
amor. O hino do amor cristão, dom que supera todos os dons.
É necessário que haja diversos carismas, como num
corpo é preciso que haja diversas funções.
15,1-58 - Ressurreição de Cristo e ressurreição
dos mortos.
16,1-24 - Epílogo. Providências práticas: menciona
a coleta em favor dos fiéis de Jerusalém, os próximos
projetos de viagem, terminando com as exortações e
saudações finais.
Continua no próximo número
Jane do Térsio
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