Nos últimos anos houve no Brasil e no mundo inteiro uma efervescência
especial em função da redescoberta dos dons do Espírito
Santo. Textos lindíssimos como o Capítulo 12 da Primeira
Carta aos Coríntios, empoeirados, tamanho o desuso, e assuntos
teológicos relacionados ao Espírito Santo e a milagres
até então considerados obsoletos e esclerosados, verdadeiros
apêndices da teologia, portanto desnecessários a muitos
olhos, ganharam vida e poder de provocar a fé de milhões
de pessoas de Cristo em todo mundo. Assim, teve início um dos
mais importantes momentos na história da fé cristã.
Isso começou quando as pessoas começaram a indagar,
a buscar: "Por quê? Por que se estas coisas estão
registradas nas Sagradas Escrituras, não se dá ênfase
a elas? Por que não são utilizadas na prática
evangelizadora da Igreja? Por que não são ensinadas?
Por que não são ministradas ao povo de Deus?" E
quando tudo isso começou a acontecer, surgiu o que hoje conhecemos
no mundo inteiro Não como um movimento pentecostal, mas como
a Igreja em movimento impelida pelo Espírito Santo: a Renovação
Carismática Católica.
No Brasil, como disse anteriormente, um grande trabalho foi começado
e tem sido continuado, onde já existem milhões de irmãos
em renovação, sendo sem dúvida uma grande força
católica no país. Dou graças a Deus, pelo Santo
Padre o Papa João Paulo II, pelos Bispos, Sacerdotes e pelos
irmãos leigos engajados, que tem trabalhado exaustivamente
para a transformação do mundo, que tem se desdobrado
para que a conversão à Jesus aconteça, que com
o ardor missionário tem apresentado aos sem religião
a verdade absoluta da salvação, enfim, se não
fossem esses amados irmãos, me perdoe os demais, a história
da evangelização neste país estaria escrita de
maneira muito pobre e ainda inexpressiva. Graças a Deus e jamais
cansarei de dar, aí estão eles. Concordemos com tudo
o que dizem, vivem e pregam, ou não, mas de uma coisa porém,
tenho certeza: no céu haverá milhões de pessoas
que conheceram Jesus através do trabalho desses queridos irmãos.
Amados, fora da Igreja Católica existem inúmeros movimentos
pentecostais, independentes, e outros aos quais às vezes chamamos
de evangélicos com certa relutância. Além disso
há igrejas chamadas pentecostais, as quais os próprios
pentecostais rejeitam ser identificados, porque em alguns casos são
tão bizarras e confusas que, inclusive, é perigoso assumir
tal identificação; ou pelo fato de serem mais uma miscelânea
que uma Igreja, ou autêntico antro de charlatões, ávidos
por meterem as mãos nos bolsos dos incautos. Ainda assim, vale
ressaltar, apesar de todos os aspectos perniciosos de tais grupos,
Deus em sua incomparável sabedoria continua salvando vidas,
principalmente daqueles que tem seu coração contrito
e devotado ao Senhor.
Contudo ninguém pode negar que a revolução que
aconteceu e tem acontecido no mundo, na teologia e na doutrina do
Espírito Santo, tenha sido apenas o resultado da redescoberta
do Espírito Santo trabalhada pelos chamados carismáticos.
Creio que foi sobretudo uma efervescência, uma ação
do próprio Deus, tentando suscitar essa indagação,
essa preocupação e essa novidade, tão necessárias
à vida da Igreja, e cuja ação e impactos extrapolaram
em muito as fronteiras da Igreja Católica.
Queridos amigos e irmãos, preciso deixar bem claro o seguinte:
Os dons espirituais existem e são para todos os cristãos,
sem exceção, e por quê? Primeiro, porque fomos
todos batizados, como podemos ver em I Cr 12, 13: "Em um só
Espírito fomos batizados todos nós, para formar um só
corpo, judeus ou gregos, escravos ou livres; e todos fomos impregnados
do mesmo Espírito". O que nos faz diferentes uns dos outros
no Corpo de Cristo são os dons que desenvolvemos (I Cr 12,
14-30). Somos todos batizados no mesmo Espírito Santo, e o
que nos distingue não é a cor da pele, dos olhos ou
do cabelo, nem a nossa posição social, status, etc,
mas os dons desenvolvidos para o serviço do Corpo. Além
disso, a salvação e os dons são acontecimentos
inseparáveis. Na Epistola de Tito 3, 4-7, vimos que Aquele
que nos salvou por sua graça é o mesmo que derramou
abundantemente o Espírito sobre nós. Observemos que
no Novo Testamento, a salvação e os dons do Espírito
Santo são ambos obra da graça de Deus. Vejamos em Ef
2, 8.9: "Porque é gratuitamente que fostes salvos mediante
a fé. Isto não provém de vossos méritos,
mas é puro dom de Deus. Não provém das obras,
para que ninguém se glorie". Em Ef 4, 7 o Apostolo Paulo
afirma que os dons espirituais que recebemos nos foram também
dados segundo a graça de Deus. Amados, a graça que salva
é também aquela que os doa. Tudo é favor imerecido;
vem de Deus. Não se trata de Deus nos salvar por sua graça,
mas só abençoar por nossas obras. Tudo vem da graça.
O que pode estar acontecendo é que os dons que já recebemos
podem estar inibidos em nossa vida, ou ainda não tenham sido
exercitados, por falta de prática espiritual. Nem sempre eles
são evidentes nos cristãos. É por isso que muitos
se perguntam: Se tenho dons e sou batizado, por que ando tão
sorumbático, tão melancólico, e tenho sido tão
inútil no Corpo de Cristo? Irmãos, o Apóstolo
Paulo nos afirma que os dons devem ser buscados, como podemos ver
em I Cr 12, 31: "Aspirai aos dons superiores"; e ainda em
I Cr 14, 1b: "Aspirai igualmente aos dons espirituais".
No entanto essa busca deve ser sempre com o propósito de ser
útil ao Corpo de Cristo. Observemos que em nenhum momento o
apóstolo Paulo individualiza a questão. Ele não
diz "aspire!" mas "aspirai!" São imperativos
plurais, onde deixa entender que quem busca, quem aspira deve fazê-lo
numa perspectiva de Corpo. Não se trata apenas de termos mais
dons e nos envaidecermos com isso. O que Paulo diz é que devemos
alimentar o desejo de recebermos esses dons para servirmos à
Igreja, aos irmãos; edificarmos o Corpo. É pois nessa
perspectiva de serviço ao Corpo, de equipe, de visão
da Igreja, que devemos aspirar os dons espirituais. Um segundo aspecto
é que devemos aspirá-los sem desespero. Em I Cr 12,
11 diz que o Espírito distribui todos esses dons como lhe apraz.
É até possível que peçamos com boas intenções,
que realmente desejemos servir ao Corpo de Cristo, mas o Espírito
que é soberano, conhece o que podemos desenvolver, sabe o que
é bom para nós, pode dar-nos ou não. Então,
se eles não se evidenciarem quando pedirmos por notar que há
uma certa carência na Igreja não nos desesperemos, não
fiquemos nos lamentando, não fiquemos achando que Deus não
quer nada conosco. Não pensemos desta maneira! Saibamos que
nem todos possuem todos os dons. Em I Cr 12, 27-30 podemos ver o que
Paulo nos diz: "Ora, vós sois o Corpo de Cristo e cada
um, de sua parte, é um dos seus membros. Na Igreja, Deus constituiu
primeiramente os apóstolos, em segundo lugar os profetas, em
terceiro lugar os doutores, depois os que tem o dom de milagres, o
dom de curar, de socorrer, de governar, de falar diversas línguas.
São todos apóstolos? São todos profetas? São
todos doutores? Fazem todos milagres? Tem todos a graça de
curar? Falam todos em diversas línguas? Interpretam todos?".
A resposta é NÃO. Por este texto sucumbe a perspectiva
de que o cristão, para ser espiritual, tem que falar em línguas.
Deus quer que estejamos conscientes de que os dons devem ser desenvolvidos,
eles não podem ser realidades estáticas. Não
tem sentido nenhum recebermos um dom e passar a vida inteira sem ir
além do estágio inicial. Deus quer que multipliquemos
os dons e cresçamos em sua prática e uso. Os dons podem
cessar ou se inibir, dependendo de como os desenvolvamos ou atrofiamos,
contudo eles estão em nós potencialmente, desde o dia
em que fomos batizados.
Deus conta comigo e com cada um de vocês para que não
nos sintamos extremamente limitados, como se as Escrituras estivessem
fechadas para nós, mas que sejamos enriquecidos com essas ferramentas
preciosas que o Senhor Nosso Deus nos deu, para nos sentirmos mais
livres para ensinar a Palavra, para refletirmos com mais relevância
e profundidade, para que possamos crescer em graça e em conhecimento
e termos definitivamente os dons agregados à nossa vida e ao
nosso ministério.
Fiquem na Santa Paz do Senhor convictos de que todos nós, à
medida que o tempo passa, devemos caminhar, para nos transformarmos
em irmãos que ensinem, e não em eternos assistidores
de estudos bíblicos e homilias e mensagens abençoadas,
ou meros participantes de louvores calorosos.
Ricardo da Liturgia das 10h |