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EVANGELHO DE JOÃO (PARTE 1)
Autor e Data
Em alguns escritos do Novo Testamento menciona-se o nome do autor
humano. Nos Evangelhos e nos Atos, porém, nada se diz de
maneira explícita. Esta questão poderia parecer irrelevante,
pois o que tem verdadeira importância é que um escrito
seja considerado pela Igreja como canônico, isto é,
como inspirado por Deus. Saber quem escreveu um livro inspirado
ganha um interesse maior quando o autor humano foi testemunha direta
do que narra. Este é o caso do quarto Evangelho, onde se
diz que "o que o viu dá testemunho e o seu testemunho
é verdadeiro". (Jo 19,35).
Para conhecer o nome do autor de um livro do Novo Testamento será
preciso indagar na tradição primitiva da Igreja, próxima
da composição do livro. A autenticidade dos escritos
já era do interesse dos primeiros cristãos. Eles viviam
numa época especialmente próxima de Jesus; falavam
com familiaridade de episódios recentes da vida de Jesus,
criam na Sua divindade porque os milagres, as profecias e especialmente
a Sua Ressurreição gloriosa manifestavam abertamente
que Ele era o Filho de Deus. Por isso defendiam a Verdade Cristã
diante daqueles que a punham em dúvida; viviam preparados
para dar razão da sua esperança a quem lhes pedisse
(1 Pd 3,15), citando-lhe o testemunho dos que tinham visto e ouvido
Cristo.
Existem testemunhos explícitos e documentação
a partir do século II que comprovam que o texto que conhecemos
do IV Evangelho era uniforme desde essa época e que o seu
autor é o Apóstolo São João. Tal é
afirmado no Cânon de Muratori (180) e por Irineu (130), por
Eusébio de Cesaréia (séc. IV) que se refere
ao testemunho de Clemente de Alexandria (180).
Os escritos joaninos gozavam de grande autoridade desde os princípios
do século II; eram citadas frases literais e segundo o sentido
num amplo setor das igrejas da época e por S. Inácio
de Antioquia (107-115), por S. Policarpo (110) e S. Justino (150).
A partir do século IV e até o século XIX, os
autores são unânimes em atribuir o quarto evangelho
ao apóstolo S. João.
A análise interna do livro confirma o que diz a tradição.
Há muitos pormenores que só se explicam se o autor
é o apóstolo S. João. Assim, por exemplo, chama
simplesmente João ao precursor de Cristo, enquanto os evangelhos
sinóticos lhe chamavam João Batista. Tinham de lhe
chamar assim para evitar a possível confusão com João
o apóstolo. Mas no quarto evangelho o perigo desta confusão
não se dá, visto que o nome do evangelista João
se omite.
Além disso, sabemos pelo próprio evangelho que o seu
autor é o discípulo amado de Jesus (Jo 21,24), e que
era um dos Doze Apóstolos, pois se acha entre eles quando
lhes aparece o Senhor Ressuscitado nas margens do lago Tiberíades.
Através dos sinóticos sabemos que Jesus tinha certa
predileção por três dos seus apóstolos
aos quais escolhe para que contemplem a sua glória no Tabor
(Mt 17,1-2) e a sua humilhação em Getsêmani
(Mc 14,33). Estes três discípulos eram Pedro, Tiago
e João. Logo, um deles é o discípulo amado,
o que escreveu o evangelho. S. Pedro não pode ser já
que o vemos junto ao discípulo amado em várias ocasiões
(Jo, 20,2ss; 21,20). Tiago também não, pois foi martirizado
pelo ano 40 (At 12,2) e o quarto Evangelho foi escrito em fins do
século primeiro. Logo, só nos resta S. João
Evangelista.
A partir do século XIX uma grande parte da crítica
protestante liberal rejeitava com mais ou menos decisão a
paternidade joanina do quarto evangelho. Argumentava a crítica
racionalista que o autor do quarto evangelho não era o apóstolo
João, mas sim um segundo João, chamado por vezes o
Teólogo ou o Ancião (Presbítero). A hipótese
da negação do apóstolo João como autor
baseia-se num único texto, de duvidosa interpretação;
trata-se de uma passagem de Papías, conservada por Eusébio
em História Eclesiástica, em que cita duas vezes o
nome de João. Eusébio distingue duas pessoas com o
nome de João, o apóstolo e outro posterior.
Esta discussão foi hoje abandonada pela maioria dos investigadores.
É esta controvérsia sobre a interpretação
desse texto único, como discussão da autenticidade
do IV Evangelho que constitui a base da chamada Questão Joanina.
A grande quantidade de dados da antiguidade cristã e os argumentos
de crítica interna advogam pela paternidade do apóstolo
São João relativamente ao IV Evangelho. Por tudo isso
a Igreja manteve sempre a doutrina tradicional, que defende a atribuição
do IV Evangelho ao apóstolo São João.
Na atualidade deve-se, pois, concluir que, criticamente falando,
o texto do IV Evangelho, quer seja um produto literário direto
de João, quer seja, em última instância, o resultado
de uma escola ou tradição, tem o apóstolo João
como mestre e fonte fundamental do conteúdo do Evangelho
que tem o seu nome. Volta-se assim, com maior precisão e
amplidão de perspectiva, à tradição
dos antigos escritores cristãos do séc. II, que diz
que o IV Evangelho se deve ligarão apóstolo São
João, seja como autor literário substancial do escrito,
seja como mestre da escola ou tradição que se formou
junto a ele e que recompilou o Evangelho, que por isso leva justificadamente
o seu nome.
Quanto à data, o livro foi escrito em Éfeso entre
os anos 90 e 100.
A pessoa de João
Seu nome significa "Javé fez graça". Era
natural da Betsaida, cidade da Galileia. Os seus pais eram Zebedeu
e Salomé e seu irmão Tiago Maior; constituíam
uma família remediada de pescadores.
Era um hebreu conhecedor dos costumes judaicos e interessado pelas
suas festas (10,22 festa da Dedicação). Conhecia muito
bem a geografia da Palestina e menciona muitos pormenores topográficos
(1,28; 3,23; 4,5-6;11,18).
Foi discípulo de João Batista e quando Jesus o chamou
não tinha nem vinte anos. Desde este momento ele O seguiu
para nunca mais o abandonar. Jesus o chama, juntamente com o seu
irmãoTiago Boanerges- Filhos do Trovão (Mc 3,17).
Na lista dos Doze sempre é mencionado em seguida de Pedro
e junto com o irmão Tiago.
Por gozarem de uma confiança e amizade especiais e por estarem
unidos intimamente ao Senhor são chamados a acompanhá-lo
quando o resto dos Doze é deixado para trás: na Transfiguração
(Mc 9,2ss; Lc 9,28; Mt 17,1); na cura da sogra de Pedro (Mc 1,29);
na ressurreição da filha de Jairo (Mc 5,37; Lc 8,51);
na pergunta sobre a Parusia (Mc 13,3s); na Sua agonia no Getsâmani
(Mc 14,32ss; Mt 26,37).
Havia uma estreita amizade entre Pedro e João que, aliás,
já se conheciam antes de serem chamados por Jesus, eles eram
pescadores em Betsaida.
Esta amizade é confirmada no Livro dos Atos dos Apóstolos
e também em textos evangélicos, como por exemplo,
Lc 22,8 em que os dois foram enviados para a preparação
da Ceia Pascal. Na noite da Paixão foi provavelmente João
quem introduziu Pedro em casa do Sumo Sacerdote(Jo 18,16). São
os dois juntos que correm para o sepulcro na manhã do Domingo
de Páscoa (Jo 20,2-9).
Outras referências a João encontram-se nos seguintes
textos:
Tiago, João e a mãe deles pedem para que eles se sentem
junto a Jesus em dois tronos, ocasião em que recebem uma
doce censura de Jesus e o anúncio de que terão de
beber o seu cálice (Mt 20,20-28; Mc 10,35-45).
João se queixou a propósito de um exorcista não
autorizado (Mc 9,38; Lc 9,49). Juntamente com Tiago pediu que os
samaritanos que não se haviam mostrado hospitaleiros fossem
consumidos pelo "fogo do céu" (Lc 9,54).
Em Jo 21,7 lemos que foi João o primeiro a reconhecer Jesus
ressuscitado quando Ele apareceu a um grupo de discípulos
na margem do lago.
João cita-se discretamente a si mesmo no seu Evangelho como
o discípulo que Jesus amava: 13,23 - na Ceia; 19,26 - ao
pé da Cruz; 20,2s - corrida ao sepulcro vazio; 21,7.20 -
pesca após a ressurreição. Realmente Jesus
teve por ele especial afeto e o demonstrou quando lhe entrega, na
Cruz, o maior amor que teve na terra: sua Mãe Santíssima.
Ele é também identificado com o discípulo cujo
nome não é citado em 1,40 e 18,15 ss.
Depois da Ascensão do Senhor, João continua unido
a Pedro. É o que podemos observar nas narrativas do Livro
dos Atos: na lista dos Apóstolos (At 1,13) João segue
imediatamente depois de Pedro. Aparecem juntos na cura do paralítico
(At 3,1-11) e no interrogatório diante do Sinédrio
onde são chamados homens iletrados e sem posição
social e reconhecidos como companheiros de Jesus (At 4,13.19).
O Colégio dos Apóstolos envia os dois à Samaria
para comunicar o Espírito Santo pela oração
e a imposição das mãos (sacramento da confirmação)
aos batizados pelo Diácono Filipe (At 8,14s). A menção
de João é tanto mais curiosa porque nestes relatos
ele não tem uma função própria (At 3,4).
Pedro é o único que fala, é ele quem faz os
milagres. No entanto, apesar de não ter papel próprio
Lucas, o autor dos Atos e a tradição por ele utilizada
julgou não poder omitir a figura de João, o que pode
ser um indício do lugar importante de João na comunidade
primitiva.
Anos mais tarde, pelo ano 50, no Primeiro Concílio da Igreja
em Jerusalém, figura S.João junto com S.Tiago Menor
e S.Pedro, como "colunas da Igreja" (Gl 2,9).
A partir deste momento as notícias que temos da vida de S.
João vêm-nos da tradição eclesiástica.
Notícias fidedignas testemunham-nos que saiu da Palestina
para Éfeso, onde cuidou das igrejas da Ásia Menor.
Talvez tenha chegado lá depois da morte de S. Paulo em 67,
já que, por um lado, aquelas igrejas reclamavam a sua atenção,
e por outro a guerra da Judéia contra Roma - que acabaria
com a destruição de Jerusalém no ano 70 moveu
a maioria dos cristãos a fugir da Cidade Santa e da Palestina.
Não sabemos com certeza se S. João levou consigo então
a Santíssima Virgem, ou se esta já tinha sido assunta
ao céu; mas o que sem dúvida se pode dizer com certeza
é que o apóstolo cuidou dela com filial solicitude
até o último momento.
Esteve também desterrado na ilha de Patmos onde escreveu
o Apocalipse. Depois, em 96 retornou a Éfeso, onde teve de
enfrentar não só os inimigos externos que perseguem
a Igreja, mas também alguns cristãos que caí
ram na heresia. Com cuidado paternal, esforçou-se para curar
aquele grande dano e, sob inspiração do Espírito
Santo, escreveu aos fiéis prevenindo-os do perigo. Esta foi
a ocasião que motivou as suas três cartas.
Foi em Éfeso, entre o regresso do desterro de Patmos e a
sua morte no início de Império de Trajano (anos 98
a 117), que S. João solicito pelo cuidado da Igreja escreveu
as três cartas e o Evangelho.
Sabemos pela tradição que até seus últimos
anos confirmava a sua vigilância para que se mantivessem a
pureza da fé e a fidelidade ao mandamento do amor fraterno.
Aos seus discípulos constantemente lhes repetia: "Filhinhos,
amai-vos uns aos outros", este é o mandamento do Senhor.
Foi João quem disse que "Deus é amor" (1Jo
4, 8.16).
Jane do Tércio (continua)
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