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Vamos conhecer a Bíblia | JULHO


EVANGELHO DE JOÃO (PARTE 1)

Autor e Data
Em alguns escritos do Novo Testamento menciona-se o nome do autor humano. Nos Evangelhos e nos Atos, porém, nada se diz de maneira explícita. Esta questão poderia parecer irrelevante, pois o que tem verdadeira importância é que um escrito seja considerado pela Igreja como canônico, isto é, como inspirado por Deus. Saber quem escreveu um livro inspirado ganha um interesse maior quando o autor humano foi testemunha direta do que narra. Este é o caso do quarto Evangelho, onde se diz que "o que o viu dá testemunho e o seu testemunho é verdadeiro". (Jo 19,35).
Para conhecer o nome do autor de um livro do Novo Testamento será preciso indagar na tradição primitiva da Igreja, próxima da composição do livro. A autenticidade dos escritos já era do interesse dos primeiros cristãos. Eles viviam numa época especialmente próxima de Jesus; falavam com familiaridade de episódios recentes da vida de Jesus, criam na Sua divindade porque os milagres, as profecias e especialmente a Sua Ressurreição gloriosa manifestavam abertamente que Ele era o Filho de Deus. Por isso defendiam a Verdade Cristã diante daqueles que a punham em dúvida; viviam preparados para dar razão da sua esperança a quem lhes pedisse (1 Pd 3,15), citando-lhe o testemunho dos que tinham visto e ouvido Cristo.
Existem testemunhos explícitos e documentação a partir do século II que comprovam que o texto que conhecemos do IV Evangelho era uniforme desde essa época e que o seu autor é o Apóstolo São João. Tal é afirmado no Cânon de Muratori (180) e por Irineu (130), por Eusébio de Cesaréia (séc. IV) que se refere ao testemunho de Clemente de Alexandria (180).
Os escritos joaninos gozavam de grande autoridade desde os princípios do século II; eram citadas frases literais e segundo o sentido num amplo setor das igrejas da época e por S. Inácio de Antioquia (107-115), por S. Policarpo (110) e S. Justino (150).
A partir do século IV e até o século XIX, os autores são unânimes em atribuir o quarto evangelho ao apóstolo S. João.
A análise interna do livro confirma o que diz a tradição. Há muitos pormenores que só se explicam se o autor é o apóstolo S. João. Assim, por exemplo, chama simplesmente João ao precursor de Cristo, enquanto os evangelhos sinóticos lhe chamavam João Batista. Tinham de lhe chamar assim para evitar a possível confusão com João o apóstolo. Mas no quarto evangelho o perigo desta confusão não se dá, visto que o nome do evangelista João se omite.
Além disso, sabemos pelo próprio evangelho que o seu autor é o discípulo amado de Jesus (Jo 21,24), e que era um dos Doze Apóstolos, pois se acha entre eles quando lhes aparece o Senhor Ressuscitado nas margens do lago Tiberíades. Através dos sinóticos sabemos que Jesus tinha certa predileção por três dos seus apóstolos aos quais escolhe para que contemplem a sua glória no Tabor (Mt 17,1-2) e a sua humilhação em Getsêmani (Mc 14,33). Estes três discípulos eram Pedro, Tiago e João. Logo, um deles é o discípulo amado, o que escreveu o evangelho. S. Pedro não pode ser já que o vemos junto ao discípulo amado em várias ocasiões (Jo, 20,2ss; 21,20). Tiago também não, pois foi martirizado pelo ano 40 (At 12,2) e o quarto Evangelho foi escrito em fins do século primeiro. Logo, só nos resta S. João Evangelista.
A partir do século XIX uma grande parte da crítica protestante liberal rejeitava com mais ou menos decisão a paternidade joanina do quarto evangelho. Argumentava a crítica racionalista que o autor do quarto evangelho não era o apóstolo João, mas sim um segundo João, chamado por vezes o Teólogo ou o Ancião (Presbítero). A hipótese da negação do apóstolo João como autor baseia-se num único texto, de duvidosa interpretação; trata-se de uma passagem de Papías, conservada por Eusébio em História Eclesiástica, em que cita duas vezes o nome de João. Eusébio distingue duas pessoas com o nome de João, o apóstolo e outro posterior.
Esta discussão foi hoje abandonada pela maioria dos investigadores. É esta controvérsia sobre a interpretação desse texto único, como discussão da autenticidade do IV Evangelho que constitui a base da chamada Questão Joanina.
A grande quantidade de dados da antiguidade cristã e os argumentos de crítica interna advogam pela paternidade do apóstolo São João relativamente ao IV Evangelho. Por tudo isso a Igreja manteve sempre a doutrina tradicional, que defende a atribuição do IV Evangelho ao apóstolo São João.
Na atualidade deve-se, pois, concluir que, criticamente falando, o texto do IV Evangelho, quer seja um produto literário direto de João, quer seja, em última instância, o resultado de uma escola ou tradição, tem o apóstolo João como mestre e fonte fundamental do conteúdo do Evangelho que tem o seu nome. Volta-se assim, com maior precisão e amplidão de perspectiva, à tradição dos antigos escritores cristãos do séc. II, que diz que o IV Evangelho se deve ligarão apóstolo São João, seja como autor literário substancial do escrito, seja como mestre da escola ou tradição que se formou junto a ele e que recompilou o Evangelho, que por isso leva justificadamente o seu nome.
Quanto à data, o livro foi escrito em Éfeso entre os anos 90 e 100.

A pessoa de João
Seu nome significa "Javé fez graça". Era natural da Betsaida, cidade da Galileia. Os seus pais eram Zebedeu e Salomé e seu irmão Tiago Maior; constituíam uma família remediada de pescadores.
Era um hebreu conhecedor dos costumes judaicos e interessado pelas suas festas (10,22 festa da Dedicação). Conhecia muito bem a geografia da Palestina e menciona muitos pormenores topográficos (1,28; 3,23; 4,5-6;11,18).
Foi discípulo de João Batista e quando Jesus o chamou não tinha nem vinte anos. Desde este momento ele O seguiu para nunca mais o abandonar. Jesus o chama, juntamente com o seu irmãoTiago Boanerges- Filhos do Trovão (Mc 3,17). Na lista dos Doze sempre é mencionado em seguida de Pedro e junto com o irmão Tiago.
Por gozarem de uma confiança e amizade especiais e por estarem unidos intimamente ao Senhor são chamados a acompanhá-lo quando o resto dos Doze é deixado para trás: na Transfiguração (Mc 9,2ss; Lc 9,28; Mt 17,1); na cura da sogra de Pedro (Mc 1,29); na ressurreição da filha de Jairo (Mc 5,37; Lc 8,51); na pergunta sobre a Parusia (Mc 13,3s); na Sua agonia no Getsâmani (Mc 14,32ss; Mt 26,37).
Havia uma estreita amizade entre Pedro e João que, aliás, já se conheciam antes de serem chamados por Jesus, eles eram pescadores em Betsaida.
Esta amizade é confirmada no Livro dos Atos dos Apóstolos e também em textos evangélicos, como por exemplo, Lc 22,8 em que os dois foram enviados para a preparação da Ceia Pascal. Na noite da Paixão foi provavelmente João quem introduziu Pedro em casa do Sumo Sacerdote(Jo 18,16). São os dois juntos que correm para o sepulcro na manhã do Domingo de Páscoa (Jo 20,2-9).
Outras referências a João encontram-se nos seguintes textos:
Tiago, João e a mãe deles pedem para que eles se sentem junto a Jesus em dois tronos, ocasião em que recebem uma doce censura de Jesus e o anúncio de que terão de beber o seu cálice (Mt 20,20-28; Mc 10,35-45).
João se queixou a propósito de um exorcista não autorizado (Mc 9,38; Lc 9,49). Juntamente com Tiago pediu que os samaritanos que não se haviam mostrado hospitaleiros fossem consumidos pelo "fogo do céu" (Lc 9,54).
Em Jo 21,7 lemos que foi João o primeiro a reconhecer Jesus ressuscitado quando Ele apareceu a um grupo de discípulos na margem do lago.
João cita-se discretamente a si mesmo no seu Evangelho como o discípulo que Jesus amava: 13,23 - na Ceia; 19,26 - ao pé da Cruz; 20,2s - corrida ao sepulcro vazio; 21,7.20 - pesca após a ressurreição. Realmente Jesus teve por ele especial afeto e o demonstrou quando lhe entrega, na Cruz, o maior amor que teve na terra: sua Mãe Santíssima. Ele é também identificado com o discípulo cujo nome não é citado em 1,40 e 18,15 ss.
Depois da Ascensão do Senhor, João continua unido a Pedro. É o que podemos observar nas narrativas do Livro dos Atos: na lista dos Apóstolos (At 1,13) João segue imediatamente depois de Pedro. Aparecem juntos na cura do paralítico (At 3,1-11) e no interrogatório diante do Sinédrio onde são chamados homens iletrados e sem posição social e reconhecidos como companheiros de Jesus (At 4,13.19).
O Colégio dos Apóstolos envia os dois à Samaria para comunicar o Espírito Santo pela oração e a imposição das mãos (sacramento da confirmação) aos batizados pelo Diácono Filipe (At 8,14s). A menção de João é tanto mais curiosa porque nestes relatos ele não tem uma função própria (At 3,4). Pedro é o único que fala, é ele quem faz os milagres. No entanto, apesar de não ter papel próprio Lucas, o autor dos Atos e a tradição por ele utilizada julgou não poder omitir a figura de João, o que pode ser um indício do lugar importante de João na comunidade primitiva.
Anos mais tarde, pelo ano 50, no Primeiro Concílio da Igreja em Jerusalém, figura S.João junto com S.Tiago Menor e S.Pedro, como "colunas da Igreja" (Gl 2,9).
A partir deste momento as notícias que temos da vida de S. João vêm-nos da tradição eclesiástica. Notícias fidedignas testemunham-nos que saiu da Palestina para Éfeso, onde cuidou das igrejas da Ásia Menor. Talvez tenha chegado lá depois da morte de S. Paulo em 67, já que, por um lado, aquelas igrejas reclamavam a sua atenção, e por outro a guerra da Judéia contra Roma - que acabaria com a destruição de Jerusalém no ano 70 moveu a maioria dos cristãos a fugir da Cidade Santa e da Palestina. Não sabemos com certeza se S. João levou consigo então a Santíssima Virgem, ou se esta já tinha sido assunta ao céu; mas o que sem dúvida se pode dizer com certeza é que o apóstolo cuidou dela com filial solicitude até o último momento.
Esteve também desterrado na ilha de Patmos onde escreveu o Apocalipse. Depois, em 96 retornou a Éfeso, onde teve de enfrentar não só os inimigos externos que perseguem a Igreja, mas também alguns cristãos que caí
ram na heresia. Com cuidado paternal, esforçou-se para curar aquele grande dano e, sob inspiração do Espírito Santo, escreveu aos fiéis prevenindo-os do perigo. Esta foi a ocasião que motivou as suas três cartas.
Foi em Éfeso, entre o regresso do desterro de Patmos e a sua morte no início de Império de Trajano (anos 98 a 117), que S. João solicito pelo cuidado da Igreja escreveu as três cartas e o Evangelho.
Sabemos pela tradição que até seus últimos anos confirmava a sua vigilância para que se mantivessem a pureza da fé e a fidelidade ao mandamento do amor fraterno. Aos seus discípulos constantemente lhes repetia: "Filhinhos, amai-vos uns aos outros", este é o mandamento do Senhor. Foi João quem disse que "Deus é amor" (1Jo 4, 8.16).

Jane do Tércio (continua)

 
 
VEJA NO MÊS DE JULHO/2003:

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