Os casais se beijarão e tomarão champagne, cerveja ou seja lá o que for. As crianças correrão, pularão de alegria e abraçarão os pais. As taças tilintarão em meioaos brindes. O cristão rezará um Pai-Nosso, o afro-brasileiro pulará após a sétima onda, pedindo a Iemanjá muita coisa boa, o ateu levantará o pé direito para abaixá-lo apenas quando a décima segunda badalada soar e anunciar a chegada do novo ano.
O tempo recebe as homenagens neste período do ano, através de mitos e lendas frequentes no Baixo Império Romano. CHRONOS é o mais popular, simbolizando o Deus infinito. Sua figura é humana e rígida, às vezes com cabeça de leão, associado aos cultos solares, enquanto representa a sua destruição e eliminação. O simbolismo de kronos inspira a magia dos tempos atuais na saudação ao Ano-Novo, envolvendo traços culturais que vão desde a mesa, com suas comidas típicas, às vestimentas brancas, a casa, o espírito irradiante de paz e alegria.
No cristianismo, contudo, essa comemoração do novo ano que chega trazendo consigo a renovação de tudo que existe não é pontual nem se passa apenas no Ano-Novo. Não é o Deus Kronos, que a fé cristã cultua, mas o Deus Encarnado, que com sua vida, morte e ressurreição renovou todas as coisas e continua a renová-las permanentemente por seu Espírito.
"Quando soar a meia-noite do dia 31, saibamos que não é apenas o tempo que passa que é novo. Mas nós somos novos porque constantemente renovados, constantemente recriados pelas mãos amorosas do Criador"
O Espírito Santo, que é derramado sobre toda carne e sobre toda a história com a morte e ressurreição de Jesus Cristo, faz novas todas as coisas. E, assim fazendo, altera a categoria tempo.
Aquele que toma consciência de ser por ele habitado e transformado já não se auto-compreende vivendo no kronos, mas sim no kairós.
Kairós é uma antiga palavra grega que significa "o momento certo" ou "oportuno". Os gregos antigos tinham duas palavras para o tempo: chronos e kairós. Enquanto o primeiro refere-se ao tempo cronológico, ou sequencial, o último é um momento indeterminado no tempo em que algo especial acontece. É usada também em teologia para descrever a forma qualitativa do tempo, o "tempo de Deus", enquanto chronos é de natureza quantitativa, o "tempo dos homens".
O Espírito altera, portanto, nossa maneira de conceber o tempo.
Para aquele ou aquela em quem o Espírito Santo habita, o tempo não é mais um tempo linear (kronos), mas um kairós (tempo de Deus), que encontra só em Deus sua unidade de medida. Nesse sentido, não se trata mais de um tempo submetido à caducidade.
Por isso, as coisas não mais podem ser medidas como os parâmetros temporais de antes. Paulo adverte severamente os gálatas sobre isso. O cristão não apenas espera um novo céu e uma nova terra, mas já vive, de fato, agora, uma nova ordem de coisas, uma nova criação. E embora este novo esteja ainda sendo dolorosamente parido na verdade, já está acontecendo plenamente para aqueles que vivem em Cristo, aqueles para quem já chegou a plenitude dos tempos. É o Espírito que realiza e atesta todo este novo,estas coisas são tornadas novas, fazendo de nós novas criaturas, crianças novas sãs tornadas crianças novas, ainda que o ser humano exterior envelheça e esteja submetido à erosão do tempo.
Quando soar a meia-noite do dia 31, portanto, saibamos que não é apenas o tempo que passa que é novo. Mas nós somos novos porque constantemente renovados, cosntantemente recriados pelas mãos amorosas do Criador , das quais a cada segundo novamente saimos e somos dados à luz.
Sem medo, portanto, digamos feliz Ano Novo! Nada pode nos atemorizar, pois nossas vidas são constantemente refeitas pelo Espírito, que faz novas todas as coisas e que já está tecendo os fios do bordado deste ano que se anuncia.
Maria Clara Luccheti Bingemer - teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC Rio |