É bem possível que alguns leitores nem mais conheçam esta palavra. Epifania. É o nome oficial da solenidade que popularmente chama-se festa dos Reis Magos, se é que ainda lembram-se desta... Segundo o calendário da Igreja, celebra-se no dia 6 de janeiro, mas como o dia foi secularizado, no Brasil celebra-se no domingo seguinte. É uma festa muito importante, e não apenas por causa da folia dos Reis. Nas Igrejas do Oriente, é a data oficial da festa de Natal, nascimento de Cristo. Na Igreja Ocidental, latina, o Natal acabou sendo celebrado na noite de 24 para 25 de dezembro, porque essa é a noite mais comprida do ano no hemisfério norte, e assim o Natal celebra-se quando os dias começam a alongar-se de novo: a Luz de Cristo que vence as trevas. (a Igreja romana fez isso para cristianizar a festa pagã do “sol novo”, que já existia entre os povos latinos e germânicos nesse dia).
Qual é o sentido cristão dessa festa e o que acrescenta à festa de Natal?
Pelas leituras da liturgia pode-se dizer que o sentido é a manifestação de Cristo aos que vêm de longe (Is 60,1-6; Ef 3,2-6; Mt 2,1-12). Deus avisou os magos do Oriente gente de longe a respeito do nascimento do Salvador. Mas, a quem avisaria hoje?
Os magos viviam em países longínquos, que o povo de Israel lembrava com certa amargura: a Babilônia, terra do exílio; a Arábia, terra inóspita, para os israelitas... Agora, representantes dessas terras tão alheias vão adorar o Messias na cidade de Davi, Belém assim anunciam a primeira leitura e o evangelho! A segunda leitura aponta a aproximação ou até a unificação de Israel com os “gentios” (os pagãos do mundo grego, da Europa), no novo povo de Deus, que é a Igreja, corpo e presença atuantes de Cristo no mundo de hoje. Todos participam da mesma herança: a salvação em Cristo Jesus.
Conforme as leituras de hoje, o menino nascido em Belém atraiu os que viviam longe de Israel, quer geográfica, quer cultural ou ideologicamente. Mas quem lê o Novo Testamento inteiro percebe que a atração exercida por Jesus envolve também os social e religiosamente afastados, os pobres, os leprosos, os pecadores e pecadoras... Todos aqueles que de alguma maneira estão longe da sua religião estabelecida e acomodada recebem em Jesus um convite de Deus para se aproximarem dele.
Quem seriam esses afastados hoje? Os grandes da Babilônia (Iraque) e da Arábia hoje? Por que não? Mas talvez a estrela brilhe de modo especial para os que em nosso próprio ambiente católico, ficaram afastados do templo. O povinho que ficava no fundo da Igreja, ou não podia ir à Igreja porque não tinha roupa decente... Graças a Deus estão surgindo capelas, nos barracos das favelas, que são semelhantes ao lugar onde Jesus nasceu e onde a roupa não causa problema.
Há também os que se afastaram porque seu casamento despencou (muitas vezes pode-se até questionar a validade de seu casamento). Jesus aproximou-se da samaritana, da pecadora, da adúltera... será que para estas pessoas não brilha alguma estrela de Belém? E os que viraram as costas aos problemas do povo? Haverá um convite para esses, também?
Será que numa Igreja renovada, o Menino Jesus poderá de novo brilhar para todos esses afastados, como sinal de salvação e libertação? Depende um pouco da atitude dos “fiéis”. Se ser fiel significa permanecer como o nosso grupinho, com os nossos costumes de sempre, bem protegidos contra quem possa ter outra experiência de vida, outra visão do mundo, então creio que a luz de Cristo não vai ser vista muito longe. Mas se ser fiel é entendido como a imitação, da vida missionária de Jesus, que ia ao encontro daqueles que estavam longe, então vale lembrar os reis do Oriente e celebrar a Epifania, a gloriosa manifestação do Filho de Deus.
Pe. Johan Konings professor de Exegese Bíblica.
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