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Tempo do fazer e Tempo do ser |JANEIRO

".. estando assim a pessoa afastada e não tendo sua inteligência dividida acerca de muitas coisas, mas pondo todo o cuidado em uma só, a saber, em servir a seu Criador e tirar proveito para sua vida espiritual, usa mais livremente de suas potências naturais, para procurar, com diligência, o que tanto deseja." (EE.20)

Se olharmos à nossa volta e para nós mesmos poderemos constatar que existe uma doença endêmica grave no mundo contemporâneo conhecida como falta de tempo.

Independente da idade ou condição social, aqueles que não se apropriam deste recurso fundamental, que é seu tempo, desperdiçam sua vida entre múltiplos e desintegrados afazeres que, além de produzirem poucos resultados qualitativos, levam ao stress, à ansiedade e à insatisfação. Seu tempo é o do fazer; dessa forma evitando contato com os próprios sentimentos, emoções e necessidades; não têm permissão para desfrutar a vida, para expressar afeto e, por isso, afogam-se intensamente em atividades.

Fomos educados para consumir nosso tempo no cumprimento dos nossos deveres e obrigações e, não, para distribuí-lo de forma harmoniosa, entre deveres, obrigações, necessidades. lazer, convivência, crescimento, desenvolvimento e auto-realização.

Por vivermos num mundo que enfatiza o dever, as obrigações, o estar ocupado, o produzir, poucos se perguntam se gostam do que "fazem, por que fazem, o que fazem e o que poderiam fazer diferente" para obter satisfação com o que fazem.

Embora tenhamos à nossa disposição 24 horas diárias, uns usam seu tempo para crescer, desenvolver-se, realizar-se, atingir seus objetivos, enquanto outros parecem tropeçar em seu próprio tempo, sem conseguir chegar a lugar nenhum. Os que estão sempre com pressa, ansiosos e inquietos, que precisam fazer tudo já e agora, que não sabem esperar, que nunca têm tempo para nada, tendem a viver uma vida caótica, cheia de crises, atrasos, esquecimentos...

Nossa forma de encarar o tempo e, conseqüentemente, de utilizá-lo é um reflexo de nossa personalidade, das crenças e valores que adoramos, da nossa auto-imagem, dos padrões de comportamento que praticamos, da concepção de vida que construímos, das expectativas e sonhos a respeito do mundo e das pessoas que nos rodeiam.

Cada ser humano é criador e criatura de seu tempo. O tempo é o único bem cuja distribuição é eqüitativa e socialmente justa; não pode ser estocado, nem acumulado.

A arte de viver está em conseguirmos conciliar o nosso verdadeiro eu, nossa identidade, nossa vocação... com o que fazemos.

Se não preservarmos uma parcela do nosso tempo para o encontro conosco e com os outros, para ampliar nossos horizontes, aprofundar nossos relacionamentos, exercitar nossa autenticidade, criatividade e intuição, rever nossas crenças, valores e opções... corremos o risco de perder nossa identidade, de não realizar nossa vocação.

O tempo do fazer é necessário, mas não o suficiente para uma vida de plenitude.

Para que o fazer tenha sentido, é preciso integrá-lo no todo maior que é o ser, e isso só será possível, quando o fazer for fruto de uma opção pessoal consciente, entusiasta, convicta e coerente com os objetivos que nos propusermos na vida. Assim, concilia-se, a cada momento, o ser e o fazer, criando uma harmonia e um bem-estar interno, uma sensação indescritível de paz, de proximidade e respeito consigo mesmo, de empatia e proximidade com o outro.

Tempo é vida. Ora, se "tempo é vida", apropriar-se do próprio tempo é conciliar o tempo do ser e o tempo de fazer, ou seja, exercer plenamente o poder que cada um dispõe para conduzir sua própria vida, respeitar este mesmo direito do outro, contribuindo, assim, para a reconstrução de um coletivo harmônico, mas gratificante e mais compatível com as necessidades das pessoas. Mas, para que isso aconteça, é preciso que cuidemos de nosso tempo como se fosse o nosso melhor amigo, ou seja , dedicando-lhe tempo.

Para refletir

1) Texto bíblico: Ecle 3. 1-15.

2) Na oração: Diante de Deus, observar o que você faz com o seu tempo. Considere um dia típico: verifique tudo o que você faz durante esse dia e o tempo usado para cada coisa, desde a mais simples até a mais complexa.

 
 
 

VEJA NO MÊS DE JANEIRO/2008:


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