Carta a Filemon (2)
Conteúdo
A carta é composta por 25 versículos.
1-3 - Endereço e Saudações
4-7 Ação de graças pela fé e amor fraterno de Filemon e oração.
8-9 Preâmbulo.
10-21 Intercessão em favor de Onésimo.
22-25 Últimas recomendações e saudações finais.
Mensagem
A carta a Filemon é um escrito carinhoso e pessoal de Paulo, mostrando sua extraordinária sensibilidade. Talvez não haja outra carta que projete uma luz tão clara sobre caráter do grande apóstolo como este pequeno bilhete. Segundo alguns estudiosos é sua melhor carta do ponto de vista do estilo, verdadeira obra prima de tato e de coração.
Paulo embora respeitando as estruturas sociais do helenismo, critica-as à luz da fé e sugere medidas para sanar suas deficiências e desvios humanistas. Nota-se com que delicadeza o apóstolo exprime seus próprios sentimentos e sugere a atitude que um cristão deve ter em tais circunstâncias.
A carta é interessante também por nos confirmar a sua solução do problema da escravidão (Rm 6,15) mesmo se eles conservam suas relações sociais de antigamente, o senhor e o escravo cristãos devem viver doravante como dois irmãos ao serviço do mesmo Senhor (v. 16; Cl 3,22-4,1).
A Carta a Filemon aparece como obra prima da arte epistolar, portadora de princípios que revolucionariam a história do homem. Esta é a primeira declaração dos direitos humanos no Cristianismo; baseava-se na verdade de que todos somos irmãos, porque todos participamos da mesma natureza humana; ademais a regeneração batismal faz que todos sejam um só em Cristo, sem distinção de judeu, grego ou bárbaro, escravo ou livre (cf. Rm 6,5; Ef 4,24; Gl 3,27; Cl 3,11; 1 Cor 12,13)
A escravidão como tal era parte integrante da estrutura social da época e pregar a libertação dos escravos equivaleria e desencadear uma revolução. No modelo social da época, a abolição da escravatura era impossível. Paulo não tenciona, porém comprometer-se em campanha política, mas pregar o evangelho capaz de transformar por dentro a vida humana: o escravo cristão devia ser olhado e tratado como irmão e não como bem móvel.
O Apóstolo não quis apregoar uma violenta revolta dos escravos contra os patrões nem a eliminação brusca do regime de escravidão, pois esta teria sido fatal para a vida do Império Romano; os escravos eram mais numerosos do que os homens livres e garantiam a indústria e a agricultura da época. Se de um momento para outro, a escravatura tivesse sido abolida, milhões de pessoas morreriam de fome, pois a civilização da época não tinha a capacidade de criar para si novos sistemas e recursos de subsistência.
O que importava a Paulo era transformar as relações entre escravos e patrões, proclamando em cada escravo um irmão que compartilhava a dignidade do seu patrão. Era preciso realizar a emancipação dos escravos nas mentes dos homens antigos para depois concretizá-la na praxe e nas leis civis. Por isto, Paulo, além de respeitar o Direito Romano vigente na sua época, quis lembrar a Filemon outros direitos, como os da caridade decorrentes do ser cristão.
Se Paulo não ataca a escravidão como fato social é porque em sua opinião pouco importa mudar o status social se não se realiza essa mudança em outro plano, no do amor, que tende necessariamente para a igualdade. Ele tem um outro conceito de liberdade: esta não se perde por se estar submetido a um homem. A verdadeira liberdade nos dá Cristo, realizando em nós um homem novo pelo amor. Este é o homem livre, "mas pelo amor ponde-vos a serviço uns dos outros" (Gl 5,13).
Paulo não julga inconveniente para a sua dignidade ocupar-se da sorte e do futuro de um escravo fugitivo. O homem oprimido pela necessidade encontrou nele um brilhante protetor. Paulo encontra tempo para se dedicar a um homem "socialmente insignificante"; para ele, não tem importância alguma as barreiras sociais, porque não são a circuncisão e o acaso que determinam o valor de um homem, mas só e unicamente a comunhão de fé com Cristo e com a sua comunidade de salvação. Diante da dignidade da vocação cristã, a raça e a língua são valores efêmeros e a distinção entre escravo e livre já não tem mais fundamento.
O fundamento doutrinal, implícito na ação de Paulo, é o mesmo de outros escritos nos quais tocou o problema da escravidão. O Apóstolo não intenciona subverter a ordem social do seu tempo, mas lhe tira o fundamento da odiosa discriminação entre livres e escravos, afirmando a igualdade de todos na ordem sobrenatural: em Cristo já não há lugar para distinções. Com o seu senso prático, Paulo compreende como a execução do princípio de igualdade só pode ser fruto de uma lenta transformação da ordem social vigente; por isso, posta a questão na base sobrenatural, preocupa-se em cristianizar as relações entre patrões e escravos. (Cl 3,22-4,1; Ef 6,5-9). O caso de Onésimo oferece uma feliz oportunidade para por em pratica eloqüente as normas doutrinais. Apesar do seu caráter ocasional, a carta a Filemon exerceu uma influencia de primeira importância na renovação social realizada por força do fermento cristão. Ela conserva ainda hoje o seu valor espiritual pela elevação em tratar de assunto em si modesto, pela delicadeza dos modos, não destituída de certa superioridade afável que conquista sem ofender.
É sobretudo o coração de Paulo que se revela aqui, como nas páginas mais ardentes de Gálatas, de 1 e 2 Corintios e, mais ainda, de Filipenses; melhor, revela-se apenas o coração: aqui, de fato, não aparece o caráter polêmico, abundante naquelas cartas. Paulo dirige-se a Filemon como amigo a amigo; e sabe que com os amigos o seu desejo e o seu pedido valem por uma ordem. O atrativo da carta está mesmo na arte de impor-se sem fazê-lo notar, de conseguir fazer obedecer conquistando pelo coração.
Este escrito, na sua extraordinária brevidade, é uma obra mestra da arte epistolar, cheio de delicada sensibilidade e fina caridade, tão característica de Paulo. O tom que emprega o Apóstolo não é de mandato, ainda que pudesse tê-lo feito dada a sua autoridade, mas de súplica humilde a Filemon, apresentando-se diante dele a sua condição de "velho" e "prisioneiro" pelo Evangelho (Fm 9).
Ainda que seja uma carta principalmente familiar, contém também uma doutrina, não menos importante, apesar de breve. Esta epístola foi chamada a "carta magna da liberdade cristã". Note-se que a Carta aos Gálatas também recebe este título, mas nesta a liberdade é em relação à Lei de Moisés, não frente a toda lei: o cristão está obrigado a praticar as obras da lei superior da caridade e da graça (cf Gl 5,6.13s.16).
Paulo não pede diretamente a Filemon a libertação de Onésimo, mas que o acolha como "irmão muito querido" (Fm 16), isto é, como se fosse o próprio Paulo em pessoa (Fm 17). Procedendo assim, o Apóstolo pensa que Filemon fará mais do que lhe pede. (Fm 21)
O Apóstolo não aborda diretamente o tema da escravatura, que pertencia à estrutura social da época, mas apresenta os princípios cristãos que são o germe que produziria mais tarde a sua abolição, quando a doutrina cristã impregnasse com o seu espírito as leis civis dos povos. Esses princípios fundam-se na liberdade que Cristo nos ganhou na Cruz, pela qual somos na verdade filhos de Deus e irmãos daqueles que participam da nossa mesma fé. A liberdade trazida por Cristo, deve ter necessariamente repercussões no plano social.
Em conclusão podemos dizer que esta carta trata de valiosíssimo documento histórico. A tomada de posição do Apóstolo a favor do escravo Onésimo, junto com 1 Cor 7,17-24, constituiu para o cristianismo um ponto obrigatório de referência na tentativa de se resolver o intrincado problema da escravidão.
Textos Seletos
4-5 Reconhecimento de Paulo do amor e fé de Filemon.
10 Onésimo, filho de Paulo gerado na prisão.
18 Paulo propõe pagar pelo prejuízo de Onésimo
21 Confiança de Paulo sabendo que Filemon fará ainda mais do que ele lhe pede.
Peçamos a Deus que possamos ver nas outras pessoas nossos irmãos em Cristo, como Paulo nos aconselha.
Jane do Térsio
|