“Deixar escapar a ternura é deixar escapar a vida”
Quando a gente passa de uma certa idade, tem sempre a tentação de ficar no "range rede", como diria Guimarães Rosa.
Deixar-se ficar numa vida mansa, curtindo uma boa música, lendo, cultivando um pequeno jardim, fazendo uma comidinha gostosa... enfim, acomodar-se em torno de si próprio, ou da família. A gente corre o risco de esquecer que a vida não pára e que "Deus sonhou para nós grandes coisas".
Nesta virada de ano, fiquei pensando na vida que tenho levado e nos chamados que Deus continua me fazendo. Sempre me cutucando, na busca de um modo mais evangélico de viver. Na busca de modos cristãos de ser, como companheira, mãe, avó, filha, irmã, agente de pastoral, cidadã...
Atualmente, três desejos ou propósitos me movem e desafiam. São pistas que me fazem caminhar no dia-a-dia:
O primeiro é um desejo de simplicidade. Quero desentulhar a vida, ficar mais leve, desapegar, buscar mais silêncio, mais contato com a natureza, buscar esvaziamento, escuta. Discernir a vontade de Deus para o concreto do aqui e do agora.
O segundo é um desejo de ficar de pé. Desejo de profecia. Quero ter mais coragem, não me acomodar, crescer. Avivar a consciência de que Deus habita em mim, de que sou melhor do que tenho sido. Sou mais do que sou. Há muito a fazer no campo da justiça e da paz.
O terceiro é um desejo de comunhão. Quero aprender cada vez mais a entrar em comunhão com a vida ao meu redor. Ser presença do Deus amigo onde eu estiver, fazer gestos de amorosa gentileza, cultivar a paz, o cuidado e a alegria nas relações; participar da construção de um mundo mais humano e acolhedor.
Essas pistas dão um sentido em minha caminhada, um projeto de vida feliz. Ou seja, um projeto de vida cristã. Apontam um caminho de felicidade alternativo aos valores vigentes. Mais pobreza evangélica e menos frenética cultura do consumo. Mais fraternidade, menos individualismo.
Como penso concretizar esses desejos neste ano?
filhos, netos e com pessoas de fora, vizinhos, prestadores de serviço. Ter consciência do supérfluo na hora de fazer compras, na hora de esvaziar guarda-roupa, na hora de colocar comida na mesa. A busca de simplicidade também atinge a vida comunitária. Às vezes, nossa comunidade está também "entulhada" de coisas materiais, de manias, de barulhos, com pouca escuta, pouco silêncio.
O desejo de ficar de pé me faz buscar estar sempre aprendendo alguma coisa nova, fazer algum curso, dedicar algumas horas por dia ao estudo. Também dá ânimo para participar com os excluídos das pastorais sociais da Igreja. O desejo de profecia anda meio adormecido na nossa comunidade eclesial, que foi destinada a ser "a luz do mundo". Nossa sociedade anda carente de profetismo, de utopias, de maior empenho nas causas da justiça e da paz.
O desejo de comunhão nos atinge de cheio como pessoa e como comunidade. É importante esse movimento interior de buscar primeiro "entrar em comunhão" com a gente mesmo, com os outros, com Deus, com a cidade. E, então, nos lançar nesta meta de "criar comunhão" em todo lugar que estiver. Dialogar, reconciliar, criar elos, aproximar, construir paz. Instrumentos significativos nesse sentido são os conselhos, as assembléias, as reuniões, nas quais, muitas vezes, não temos paciência de participar. Neste ano, em todas oportunidades, quero participar dessa construção coletiva de um futuro desejável para nossas comunidades.
Termino com uma frase tirada do livro "Teologia da Ternura", de Cario Rocchetta.
"Deixar escapar a ternura é deixar escapar a vida".
Rosinha Borges Dias
Do Jornal Opinião |