Cristologia (15) - A figura de Jesus em Lucas
Lucas é o nosso mistagôgo. É de origem pagã. Todavia, instruído por Paulo, se torna capaz de penetrar no mundo da teologia hebraica, a ponto de sentir a necessidade de escrever, ele também, um evangelho. Haure a diversas fontes, particularmente ao texto de Mateus, conhecido, entre os cristãos desde antes o ano 40 d.C. Dele amplia a reflexão teológica, expressada em narrativas midrachico-aggádicas (Mt 2), com os seus sete quadros da Infância de Jesus (Lc 1-2). Como o foi para Mateus, assim o é para Lucas: ele escreve para consolidar a fé dos que já conhecem a Jesus Cristo: Aquele que se revelou Senhor Deus pela sua ressurreição dos mortos e que o Pai glorificou fazendo-o sentar à sua direita. Ele é a Luz do alto que veio dar a vida aos que jazem nas sombras da morte. Realizou tudo isso na condição de membro do povo de Israel do qual foi figura no Batismo ao Rio Jordão, porque é o Filho, o amado, e, no deserto, o verdadeiro Israel que permanece fiel ao seu Deus. No meio do seu povo anunciou o Reino de Deus, na condição de Profeta, ungido pelo Espírito. Pela sua palavra curou as enfermidades do espírito das multidões que a ele acorreram. Os milagres foram o sinal do seu poder divino. Ao curar o paralítico até declarou abertamente a sua condição divina porque proclamou a remissão dos pecados. A confirmou ao se proclamar o Senhor do sábado e a revelou aos seus Apóstolos ao apaziguar a tempestade. Enquanto apresenta a condição messiânica e divina de Jesus, Lucas não deixa de trançar, com elas, a condição de fundador da Igreja que terá a função de continuar a sua ação de evangelizador. Aliás, ao instituir outros setenta e dois discípulos arautos do seu Evangelho diante da messe imensa que proporcionará com a sua imolação, mostrou que muitos serão chamados para ser anunciadores do Reino. Para Lucas, Jesus é, também, o novo Moisés que dita a Nova Lei, que se caracteriza pela misericórdia.
Como o Pai é misericordioso, assim deve sê-lo o discípulo. Em relação ao Reino, terá que estar à altura da sua missão de anunciador e pronto para o testemunho.
A partir do momento em que Pedro o reconheceu como Messias, e Jesus o é porque ungido pelo Espírito ao Batismo ao Rio Jordão, ele explicou de que forma realizaria o Reino do Pai. Seria pela sua Morte, na condição de Servo de Iahveh, para que triunfe na condição de Filho do Homem, Glória de Iahweh. Por isso, os discípulos devem modificar a concepção que eles têm acerca do reino messiânico. Dele participarão se, com ele, carregarem a cruz da obediência e da humilhação. Aquele que é o maior tem que se tornar o menor e ser o servo de todos. Uma visão difícil que nem a Transfiguração conseguiu lhes fazer compreender. A compreenderão a partir do momento em que eles o contemplarão, segundo as Escrituras, na condição de Senhor, ressuscitado dos mortos, iluminados pelo próprio Espírito que Jesus lhes mereceu com a sua imolação. Ao ler a Lei, os Profetas e os Salmos, à Luz do Espírito, entenderão como, em Jesus, se realizaram as Escrituras que profetizavam que o Messias devia ressuscitar dos mortos.
Lucas, então, lembra que os discípulos têm uma grave responsabilidade com o seu Senhor. Ele os julgará e os condenará se não tiverem vivido o Caminho que lhes apresentou com a sua vida.
Perguntas para uma reflexão
1ª) Quais são os sete quadros da reflexão sapiencial de Lc 1-2?
2ª) De que forma Lucas apresenta a condição messiânico-divina de Jesus?
3ª) Qual é o caminho para seguir Jesus?
Pe. Fernando Capra/CRSP |