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| As
coisas no tempo, o tempo das coisas... | |JANEIRO |
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Fim de ano. O tempo, que já passou tão
depressa, nestes últimos dias do ano, voa.
Em contraste com a pressa
do tempo, outras coisas movem-se lentamente...
O trânsito. As palhetas
dos limpadores de pára-brisa, na sua monótona luta contra os pingos
da chuva. As filas nos caixas, nos supermercados. As raras e preciosas vagas nos
estacionamentos...
Lembro-me de um pequeno poema que meu pai gostava de
dizer emocionado:
E o Vento perguntou ao Tempo: Tempo, que tempo
tens?
E o Tempo respondeu ao Vento: O Tempo tem tanto tempo, que o tempo
nem tempo tem...
Na contradição entre pressa e lentidão,
folheio o texto bíblico e reencontro palavras que atravessam séculos
e séculos para chegar ao meu coração...
"Todas
as coisa têm seu tempo sob o céu ..."
E eu, que vivo
tempos inquietos, sou chamado a fazer a travessia para além das palavras
e redescobrir sentimentos sepultados na apressada rotina do cotidiano.
Olho
a mim mesmo, à minha volta, vejo sinais do tempo que se passou...
Percebo
que é preciso compreender o tempo de cada coisa, para dar respostas ao
que a vida pede e espera de nós.
Meu corpo, cansado, diz:
-
Há um tempo para a luta, o trabalho o esforço. Tempo de enfrentar
desafios e superar limites. E há o tempo de ser humilde e reconhecer-se
limitado. Tempo de buscar a sabedoria do repouso, de pacificar os impulsos, ordenar
os desejos sem perder de vista os sonhos mais impossíveis...
Meus
olhos sedentos de suavidade e paz, dizem;
- Há o tempo da novidade
e da surpresa, do surpreendente e do inusitado, quando o Espetáculo da
vida é todo brilho, festa e luz... E há o tempo do cotidiano e da
rotina, do encantamento dos pequenos gestos, das alegrias suaves e duradouras...
Meus
ouvidos e meus braços, carentes de acolhida, dizem:
- Há
o tempo de estar só consigo mesmo. Tempo da necessária bem-vinda
e frutuosa solidão. Tempo dos silêncios que falam. Tempo de recolhimento
reflexivo ao mais profundo de nós mesmos... E há o tempo do encontro,
da partilha emocionada de gestos e palavras, do abraço afetuoso, da expressão
do desejo, da paixão, da amizade essencial...
Minhas mãos,
em concha, como quem dá e recebe, dizem:
- Há o tempo de
grandes avanços e conquistas. Tempo de realizações de projetos
e sonhos. Tempo em que tudo que tocamos torna-se ouro e alegria... E há
o tempo dos grandes e pequenos fracassos. Tempo de recuos estratégicos
e outros, inevitáveis. Tempo de perdas, danos e ganhos. Tempo de voltar
à estaca zero e começar tudo de novo.
Meu rosto, entre o
suor e o repouso, diz:
- Há o tempo em que a vida nos fecha portas
na cara... E há o tempo em que, por Teimosia e coragem ousamos escancarar
janelas com vistas para montanhas e mares, horizontes e vales...
Tudo à
minha volta, pulsando de vida, diz:
- Há um tempo em que percebemos
que a esperança é apenas um jeito de sentir Saudades do que ainda
há de vir, do que ainda vamos construir...
E em todo e qualquer
tempo, sempre podemos descobrir que, apesar de pequenos e frágeis... somos
únicos, raros e preciosos... E o mais importante: Não estamos sós!
O
Deus revelado a Abraão, Isaac e Jacó, o Deus que se faz presente
e presença, todos os dias, todo o tempo, em Jesus de Nazaré, está
sempre conosco. Ele nos abençoa, nos toma sob sua proteção
e nos recolhe na palma de sua mão. Estende sobre nós o seu olhar
de amor e cobre de graças o nosso tempo de viver e conviver.
E,
finalmente pacificado, o tempo das coisas sussurra aos meus ouvidos: Você
é chamado, todo o tempo, a viver o tempo do amar e ser amado...
No
coração humano, esse tempo chama-se Liberdade.
No coração
de Deus, esse tempo chama-se Sempre!
Para rezar: Eclesiastes 3, 1-8
Eduardo
Machado do Jornal Opinião | | |
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