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Carta aos Gálatas (1)

Introdução

A carta aos Gálatas completa o grupo das quatro Grandes Epístolas formado por Romanos e 1 e 2 Coríntios. Elas foram escritas durante a terceira viagem missionária, da primavera de 53 à primavera de 58. Gálatas foi escrita em 54 ou 55 durante a longa estadia do Apóstolo em Éfeso. Atualmente ninguém discute a autenticidade paulina delas. É inquestionável a unidade de doutrina, estilo e mentalidade, e transparece em todas a forte personalidade de Paulo. Entre as cartas paulinas, esta é uma das mais breves: tem mais ou menos a extensão da Epístola aos Efésios.

A Epístola aos Gálatas assume particular interesse por sua notabilíssima contribuição à biografia de Paulo e à história das origens cristãs; por ser um quadro palpitante da complexa figura do Apóstolo.

Nenhuma outra carta fornece informações mais preciosas sobre a pessoa de Paulo. Os primeiros capítulos constituem uma resumida autobiografia: educação no judaísmo (1,13s), conversão (1,15s), as relações com os outros Apóstolos (1,17-2,14), as primeiras experiências apostólicas (1,17-24), as lutas travadas desde o início pelo triunfo da liberdade cristã (2,1-21; cf 1,7-10; 4,15ss; 6,12.17). Outras cartas relembram, sem dúvida, estas lutas (Rm 15,30ss; Fl 1,15ss; sobretudo 2 Cor e 2 Tm), mas nenhuma nos informa com tamanha precisão sobre o seu alcance. Esta, além do mais, completa de maneira feliz os Atos, dos quais determina melhor muitos pormenores colocados numa perspectiva diferente.

Por isso a carta nos esclarece a respeito da história da Igreja primitiva. Não que Paulo forneça aqui muita abundância de episódios (os dois mais importantes se encontram no cap. 2 e ocorrem em Jerusalém e em Antioquia da Síria); mas, ao nos informar sobre o conflito provocado na Galácia por seus adversários, ele coloca em evidência o momento mais importante dessa história, apenas mencionado implicitamente em Atos. Em Gálatas vemos a Igreja que vai conquistando a própria personalidade, desapegando-se progressivamente do judaísmo, com o qual, de início, se confundia. Isto aconteceu, não sem dificuldades, choques e hesitações internos, superados, no entanto, sob a direção do Espírito.

Mas Gálatas, além de um testemunho de primeira mão sobre os acontecimentos em que se viu envolto o Apóstolo, mostra-se também palpitante de vida. Tal como em 2 Cor aí o seu coração se mostra abertamente: surpresa, indignação, tristeza, angústia, censura e severidade para com os adversários. Indulgência e ternura, pelas ovelhinhas tresmalhadas.

Nenhuma outra epístola é tão carta, nenhuma é tão pessoal e revela tanto a alma do Apóstolo. Gálatas é talvez a mais esplendida manifestação do gênio de Paulo. Destas páginas emerge todo o vigor da psicologia e do gênio de Paulo.
Perspectivas amplas e luminosas, cortante dialética, ironia mordaz: tudo o que de mais forte possui a lógica, de mais veemente a indignação, de mais ardente e terno o afeto, encontra-se reunido, fundido, derramado num só jorro numa obra de força irresistível.

Quanto à autenticidade, Gálatas apresenta-se, no epistolário paulino, como uma das cartas menos contestadas e provavelmente mais que qualquer outra traz a marca do gênio de Paulo.

Destinatários

Inicialmente surge a pergunta: quem são os Gálatas? Os Gálatas eram um povo celta que havia imigrado no século III/ IV a. C. da Gália para a região central e norte da antiga Ásia Menor ( atual Turquia). Fixaram-se no território que circunda Ancira ( hoje Ankara). O último rei gálata, Amintas (25 a .C.) legou o seu reino aos romanos. No tempo de Paulo a província abrangia uma área muito mais vasta: toda uma região. O território foi missionado por Paulo na segunda e terceira viagem (At 16,6; 18,23).

Já na sua primeira viagem missionária Paulo tinha entrado em contato com eles, ao evangelizar o Sul da província. Mas foi, sobretudo na segunda viagem, entre os anos 49 e 52, que Paulo pregou diretamente entre eles, talvez porque uma doença o obrigou a deter-se ali algum tempo. O acolhimento foi sumamente cordial e afetuoso: os Gálatas receberam-no e atenderam-no como um anjo de Deus, como se fosse o próprio Senhor Jesus (4,14); felicitavam-se uns aos outros pela dita de terem consigo o Apóstolo e manifestavam o seu carinho com todos os meios. A recordação daqueles pormenores fazia dizer a Paulo que "se fosse possível, vós teríeis arrancado os próprios olhos para me dar" (4,15). Os gálatas eram uma população simples, prevalentemente de pastores, corajosos, nobres e, ao mesmo tempo, afetuosos e cordiais.

Continua no próximo número

Jane do Térsio

 
 
VEJA NO MÊS DE JANEIRO/2006:

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