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Nos grupos de " Folia de Reis", nos primeiros dias de
janeiro, milhares de devotos seguem de casa em casa, pelas ruas
da periferia, pelos sítios e fazendas. Essas pessoas, na
maioria muito pobres, refazem a caminhada dos reis magos que vieram
do Oriente em busca do Menino Jesus. O que esses grupos fazem, de
norte a sul do País, não é apenas uma manifestação
folclórica. Esses devotos representam milhões de pessoas,
de quase todas as religiões, que praticam a peregrinação
como sinal e instrumento da busca de Deus.
Neste final de milênio, eles nos evocam ainda a multidão
de seres humanos obrigados a migrar para escapar de guerras e perseguições.
E o que é mais triste, para escapar simplesmente da fome
e da miséria.
De acordo com a história, os magos ofereceram ouro, incenso
e mirra. Para os antigos, esses presentes significavam que Jesus
era rei, Deus e homem. Podemos dizer que simbolizam também
a própria peregrinação. O metal dourado nos
lembra as minas mais profundas da terra e recorda as cavernas interiores
de cada pessoa. A resina do incenso nos liga à natureza e
à comunhão com Deus no universo. A mirra, perfume
oferecido aos mortos, nos fala do serviço a quem sofre.
São três dimensões da peregrinação
humana que os magos nos convidam a reviver:
1- Uma peregrinação para dentro de si. Não
se trata de fechar-se em si, mas de encontrar o mais profundo e
melhor do seu ser interior. Assim, a pessoa se prepara para acolher
o Dom de Deus que vem a nós através de gemidos
profundos demais para serem expressos em palavras (Rm 8,26).
Santa Teresa descreve essa viagem ao "Castelo Interior"
que tem sete moradas. Na última, mora o Senhor.
2 - Uma peregrinação para fora de si, ao encontro
de Deus. A história do povo bíblico começou
quando Deus disse a Abraão: " sai da tua terra e vai".
Jesus diz a cada discípulo(a): " Segue-me!" Toda
peregrinação nos convida a romper com a rotina de
uma vida presa a nós mesmos e partir para o diferente. A
humanidade vive de mil formas diferentes essa viagem para Deus.
3 - Uma peregrinação para a compaixão. Quando
encontramos Deus, Ele nos re-envia ao humano e nos dá forças
para empreender o caminho da solidariedade e da justiça.
O Evangelho diz que Jesus será reconhecido por aqueles que
o servirem na pessoa dos pobres e carentes.
Jesus se identifica com a pessoa dos pobres e sofredores. Ele nos
convida a uma peregrinação da solidariedade, não
apenas afetiva, nas lúcida e eficaz, organizada e comunitária.
O mundo atual se organiza a partir de critérios que provocam
a fome e a miséria de multidão de pobres.
Relatórios do Banco Mundial mostram que na década
de oitenta, os países pobres transferiram para as nações
ricas 450 bilhões de dólares. Ainda não se
fez a conta do que os pobres passaram aos ricos na década
que ainda vivemos. Calcula-se que a soma triplicou.
A viagem dos magos continua. Como na época de Jesus, os poderosos
têm medo do novo. Preferem peregrinações menos
transformadoras. Até hoje, os grupos de folia imitam os magos
evitando estradas oficiais. É no meio dos pobres e através
de caminhos humildes que seguimos a estrela até Belém.
No caminho, há obstáculos. Mas, podem e devem ser
vencidos: "O viajante que, guiado por uma estrela, sobe uma
montanha não pode se deixar absorver pelas dificuldades da
caminhada. Se não, perde de vista a estrela que o guia".
Marcelo Barros
Monge Beneditino e escritor
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