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Cartas de Paulo (4)


Introdução à Teologia Paulina
Ninguém questiona a posição de Paulo como o maior pensador da história do cristianismo. Nenhum dos grandes movimentos do pensamento cristão se desenvolveu sem uma base em Paulo. Ele é ao mesmo tempo um entusiasta seguidor da pessoa de Cristo e um teólogo que fez a primeira síntese coerente da doutrina de Jesus.

Paulo não era um teólogo tranqüilo e reflexivo, que se desse ao trabalho de compor tratados teológicos de laboratório. Toda a vida de Paulo foi invadida por um ímpeto e uma tensão missionária. As suas epístolas são escritos ocasionais que ele, não raramente, dita com profunda agitação espiritual, para responder às perguntas que lhe são dirigidas por suas comunidades cristãs.

Assim Paulo não deixou uma teologia harmoniosa e sistemática, não sendo, portanto um Tratado de Teologia. Dele possuímos somente escritos ocasionais, que têm um cunho inconfun-dível devido a situações típicas e geralmente procuram responder a necessidades urgentes e a pedidos por parte das comunidades por ele fundadas. Nas epístolas de Paulo não se encontra uma construção doutrinal orgânica e completa.

Não se deve, pois, buscar aí uma exposição sistemática e completa do pensamento de Apóstolo; sempre deve-se supor, por detrás delas, a palavra viva, de que são o comentário em pontos particulares. Embora dirigidas em ocasiões e auditórios diferentes, descobre-se nelas uma mesma doutrina fundamental, centrada em torno de Cristo morto e ressuscitado.

Paulo desempenhou um papel providencial na evolução da doutrina cristã e da Igreja: foi o primeiro a colocar em plena luz a preexistência e a divindade de Jesus, o Filho de Deus, e a universalidade da redenção em Cristo. Embora não tenha sido o primeiro a pregar o Evangelho aos gentios (cf. At 11,19s), tornou-se ele o grande apóstolo dos gentios, fundando dentro de poucos anos comunidades cristãs em todo o mundo greco-romano.

Todo escrito do Novo Testamento em um objetivo teológico. Nem todos, porém, utilizam uma linguagem teológica rigorosa, nem oferecem uma reflexão crítica e justificada do credo. Esse, porém, é o caso de Paulo, a voz teologicamente mais apurada entre todas as do Novo Testamento. Ele soube elaborar categorias de pensamento de grande expressividade e de profunda penetração da realidade cristã, como graça, justificação, reconciliação, libertação, paz, salvação, vida e morte, glória, pecado, resgate, sabedoria, cruz, Igreja, comunhão, evangelho, serviço, apóstolo, carismas, "mistério", revelação, e, no campo antropológico "carne", "corpo". Não é que tenha criado do nada: são conceitos em sua maioria já presentes na tradição bíblica, judaica e cristã primitiva, mas ele os carregou de uma riqueza de significados até então desconhecida.

Tome-se, por exemplo, o título de Senhor, aplicado a Jesus ressuscitado: ele já aparece na primeira comunidade cristã de língua aramaica (cf. 1 Cor 16,22), mas sob a pena de Paulo o conceito se enriquece de tal modo que se tornou uma categoria fundamental na interpretação teológica de Jesus. O mesmo se diga dos títulos de Cristo e Filho de Deus. E também a sua pneumatologia ou definição teológica do Espírito Santo, que ele gosta de chamar "Espírito de Cristo". Sem falar do aprofundamento do sentido dos sacramentos do batismo e da eucaristia (cf. Rm 6 e 1 Cor 10,14-22;11,17-34).
A teologia paulina se desenvolveu conforme uma linha contínua, mas se desenvolveu realmente sob o impulso do Espírito que dirigia seu apostolado.

Os Atos dos Apóstolos fornecem poucas e pouco precisas informações sobre a teologia do Apóstolo Paulo, mas oferecem amplas e preciosas informações sobre o conceito de história da salvação, sobre a técnica de redação e as intenções pastorais de seu redator e, além disso, sobre a situação típica da época e sobre a posição das comunidades cristãs dos gentios no fim da idade apostólica. Para Lucas e para seus leitores, Paulo representa uma incontestável autoridade teológica.

As fontes da Teologia paulina são: sua fé judaico-farisaica, a doutrina de Jesus e a fé da comunidade cristã primitiva e as revelações pessoais de Cristo ou de Deus.

- Sua fé judaido-farisaica que ele guardou intacta em muitos pontos: a fé em um só Deus, criador e governador do céu e da terra, que na Sagrada Escritura fala a seu povo e no fim do mundo aparecerá como juiz e rei de todos os homens para punir ou premiar cada um segundo os seus méritos; a ressurreição dos mortos; a fé em anjos e demônios; sua antropologia; as idéias principais de sua moral (decálogo). Além da ortodoxia judaica Paulo parece ter conhecido as doutrinas de diversas seitas judaicas, entre elas talvez a de Qumrãn.

_ A doutrina de Jesus e a fé da comunidade cristã primitiva. Paulo conheceu as palavras e obras de Jesus sem dúvida através da tradição. É a fé da comunidade cristã que ele segue na sua doutrina sobre o Senhor e o Filho de Deus, que para a salvação de todos os homens se fez homem, morreu e ressuscitou.

- As revelações pessoais de Cristo ou de Deus. A própria Escritura nos mostra isso: At 9,5 "
Eu sou Jesus, a quem tu estás perseguindo "; Gl 1,15s "...houve por bem revelar em mim o seu Filho, para que eu o evangelizasse entre os gentios" ; 1 Cor 9,1 " Não vi Jesus, nosso Senhor?"; 15,8 "em último lugar, apareceu também a mim como a um abortivo"; 2 Cor 12,1-4 "...mencionarei as visões e revelações do Senhor" ;Ef 3,3-4 " por uma revelação me foi dado a conhecer o mistério"; 1 Cor 2,7-13 " A nós, porém, Deus o revelou pelo Espírito".

Na teologia paulina, muita coisa ficou no estado fragmentário, porque as epístolas do apóstolo Paulo eram ocasionais e porque ele mesmo era muito mais um inspirador do que propriamente um teólogo sistemático. Ele é o teólogo pastoral, o cura de almas e o pastor que fala e escreve partindo da situação e para a situação. Paulo se esforçava por verificar com exatidão, em cada caso, a situação concreta e a posição dos problemas das suas comunidades cristãs. Ele adaptava perfeitamente as suas epístolas ao nível de uma comunidade bem determinada.

Eis algumas características da teologia paulina:

-A teologia do convertido, que se coloca em nítido contraste com as concepções comuns dos seguidores da antiga religião. Um traço típico da mentalidade e piedade de um convertido é a de ser firmemente exigente diante da nova vida de fé e julgar criticamente aqueles que desde há muito tempo pertencem às novas comunidades de fé e que se contentam com a mediocridade no empenho da fé.

-A teologia da luta, Paulo não seria Paulo sem o incessante combate pela fé. Ele reagia com veemência, também quando a sua missão e autoridade de apóstolo eram atacadas ou somente postas em dúvida.

-A teologia missionária, Paulo experimentou em sua própria via Cristo como o fascínio supremo, beatificante e estimulante, e isso o impele a abrir também aos outros o caminho para Cristo. A teologia missionária de Paulo sabe dosar com muita exatidão os acentos psicológicos e teológicos ao público que tem pela frente: ele fala ao habitante de Éfeso de maneira diferente daquela que emprega com o cidadão de Atenas.

Sempre atento às exigências e aos problemas dos seus ouvintes, formula respostas claras e precisas. Justamente como missionário da primeira hora, que se lançava para novas regiões pouco freqüentadas, Paulo não chegou a desenvolver um catecismo completo. Ele oferece um catecismo de pontos nodais, no qual certamente as questões decisivas e candentes são tratadas e recebem uma resposta, mas no qual muitas outras questões permanecem abertas e sem resposta, justamente porque elas não constituíam problema para tais comunidades.

-A teologia da experiência, a teologia paulina é teologia da existência. Ele foi um grande homem de oração e meditação e um carismático enriquecido por Deus com múltiplos dons de graça. No seu encontro com Cristo encontra toda a sabedoria e o ponto central de toda a sua teologia é, sem dúvida alguma, a Cristologia.

A pregação paulina pode ser circunscrita às seguintes afirmações fundamentais:
- Ninguém pode buscar por si mesmo a salvação.
- A única salvação só se obtém mediante a cruz de Jesus Cristo em obediência ao Pai.
- O crucificado ressuscitou; vive e age no Espírito em sua comunidade.
- Só há um caminho de salvação para todos os homens, hebreus e pagãos.
- Ao oferecimento de salvação o homem só pode dar a resposta da fé.
- O único caminho de salvação é aberto mediante o único redentor, que é o único mediador entre Deus e o homem, um só batismo, uma só eucaristia, uma única comunidade de fé, um único juízo.

Continua

Jane do Térsio

 
 
VEJA NO MÊS DE JANEIRO/2005:

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Após a morte acontece o julgamento particular. Quem faz o julgamento?
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