O PECADO (I)
É possível chegar a uma definição de pecado
somente através da Revelação.
Pela filosofia e pela psicologia sabemos que o homem desenvolve o
seu conhecimento somente pela interação com o mundo.
Quanto a si mesmo, conseqüentemente, se encontra na impossibilidade
de conhecer a sua verdadeira natureza, a sua origem, o caminho do
seu desenvolvimento e o seu destino, porque o homem que ele pode experimentar
é somente aquele da história, não aquele que
existiu no Plano originário de Deus. Se, todavia, pela prova
histórica, chega à existência de Deus e assume
a Revelação como fonte de conhecimento, então
ele poderá chegar a saber que Deus criou o homem para si e
que o homem vive à altura da sua vocação se respeita
as leis inscritas por Deus na sua natureza e que a Revelação
explicita pelos livros sagrados. A Revelação, a partir
do Gênesis, explicita as leis que o homem deve observar, para
manter a sua perfeita relação de criatura com o seu
Criador. O faz pelo simbolismo da árvore da ciência do
bem e do mal, afirmando, por esse, que, em primeiro lugar, o homem
sempre terá que reconhecer a sua dependência do Criador.
Quando, pelo quadro da serpente tentadora (Gn 3) descreve o gesto
pelo qual o homem tenta, na sua ambição desmedida, ser
igual a Deus, o Autor sagrado está nos dando a definição
fundamental do que é pecado: um ato de rebeldia do homem, o
qual, esquecido de todos os benefícios recebidos, cuja lembrança
nutriria a sua gratidão e o manteria numa condição
de obediência, opta por caminhos de realização
pessoal, para concretizar a aspiração mais profunda
do seu ser, qual é aquela de reinar, prescindindo, contudo,
do caminho que Deus inscreveu nele.
Pelo exemplo que Cristo Jesus, novo Adão, nos deu com a sua
Morte de Cruz, torna-se ainda mais claro o que é o pecado,
uma vez que quem escolhe o caminho da imolação como
verdadeiro caminho de realização é a própria
Sabedoria encarnada.
O pecado resulta ser uma opção que o homem faz porque
o seu entendimento é extremamente limitado. A responsabilidade
do seu gesto deve ser mantida. Contudo, ao ver com que misericórdia
Deus trata a sua criatura, devemos admitir que o faz porque vê
que tamanha insensatez, que leva o homem a romper com ele, tem como
princípio a extrema limitação do seu entendimento.
É somente com Jesus Cristo que o homem descobre a verdadeira
condição de realização da criatura. O
caminho é a Sabedoria da Cruz.
Segue-se, portanto, em primeiro lugar, a ruptura da relação
harmônica, da criatura com o seu Criador. O homem cai nos vãos
arrazoados do seu coração e se torna insensato (Rm 1,21).
Em segundo lugar se manifesta o desajuste na vida sexual, como anotam
seja o Gênesis (3,16), como São Paulo (Rm 1,24). Em terceiro
lugar, o homem fica exposto aos fracassos das tentações
dos vícios mais diversificados. A leitura de Gn 4;6, paralelamente
com Rm 1, 21-32, permite uma lista abrangente dos pecados dos homens,
que é , ao mesmo tempo o caminho histórico do seu processo
degenerativo. Jesus, disso tudo, faz uma síntese quando diz:
"Com efeito, é de dentro, do coração dos
homens que saem as intenções malignas: prostituições,
roubos, assassínios, adultérios, ambições
desmedidas, maldades, malícia, devassidão, inveja, difamação,
arrogância, insensatez" (Mc 7,21s).
A redenção que Jesus Cristo realizou pela Encarnação
e sua Morte de Cruz revela, também, o aspecto social do pecado.
Isto aparece claramente quando São Paulo ilustra a eficácia
da Redenção pelo princípio de solidariedade.
Cristo Jesus é o Adão novo e, "onde avultou o pecado,
a graça superabundou " (Rm 5,20). Embora seja somente
Cristo Jesus o Cabeça do qual e pelo qual a graça do
Espírito é transmitida aos homens, deve-se admitir que
as gerações passadas influíram negativamente
sobre as gerações subseqüentes, através
de uma hereditariedade nefasta, provocada pelas continuadas e agravadas
desobediências dos homens ao seu Criador.
Perguntas para uma reflexão:
1a) Por que temos que recorrer à Reve-lação para
descobrir o que é pecado?
2a) Por que Deus usa de misericórdia com o pecador?
3a) De que forma São Paulo descreve a história do pecado
em Rm 1,20-32?
Pe. Fernando Capra - CRSP |