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A honra e a desonra de ser idoso na Bíblia | JANEIRO

A Bíblia, sendo a expressão da vida de um povo, não podia deixar de mencionar os sinais de sabedoria presentes na vida do idoso: experiência acumulada, conhecimentos, prudência, temor do, Senhor, compreensão. Diz, extasiado, o autor de Ec1o 25, 3-6: "Se não acumulaste na juventude, como queres encontrar tua velhice? Como é belo para os cabelos brancos saber julgar e para os anciãos conhecer o conselho! Como é bela a sabedoria dos anciãos e nas pessoas honradas, a reflexão e o conselho! A coroa dos anciãos é uma rica experiência; a sua glória, o temor do Senhor".

Os idosos carregam consigo a experiência de vida, a sabedoria acumulada, a memória de fatos maravilhosos que Deus operou na vida de seu povo. "Nossos pais nos contaram, ó Deus, a obra que realizaste em seus dias, nos dias de outrora, com a tua mão", reza o Sl 44. Ser idoso é ser maduro, curtido na vida. Em Israel, os idosos eram os mantenedores da fé do povo. Eles eram considerados os transmissores da Aliança. A eles se devia respeitar.

"Aquele que for justo durante a sua vida crescerá sempre como a palmeira e o cedro do Líbano. Mesmo na velhice dará fruto, será cheio de seiva e verdejante", reza o salmista (Sl 92,13-16)
Os idosos justos poderão até mesmo conceber e dar à luz, assim como foi o caso de Zacarias e Isabel (Lc 1, 5-25.39-79).
Os evangelhos relatam a presença de idosos no templo, louvando e em contínua oração. Os mais notáveis são Simeão e Ana. Eles viram Jesus e se maravilhavam com a presença do Messias. Ana, a idosa de 84 anos, falava a todos que esperavam o Messias sobre Jesus (Lc 2, 36-38). Simeão louva a Deus pelo menino e declara que pode agora morrer em paz, pois seus olhos haviam contemplado a salvação (Lc 2, 22-32).

O idoso sábio era honrado e admirado por todos, em Israel. Deus mesmo lhe concedia vigor e vitalidade para anunciar que o Senhor é reto e justo (Si 92, 15-16).

O velho Abraão, por sua vida digna, morreu feliz e em paz (Gn 25, 8). Morrer para o idoso, que durante todo a vida foi justo, segundo a Bíblia, não é um martírio, mas uma recompensa. Vale a pena ser idoso, segundo a Bíblia, quando durante a vida a sabedoria foi cultivada.

Se a velhice é louvada na Bíblia como sinal de sabedoria, ela também não deixou de constatar que "velhice honrada não consiste em ter vida longa, nem é merecida pelos números de anos. Os cabelos brancos do homem valem pela sua sabedoria, e a velhice pela sua vida sem manchas." (Sab 4,7-9). Quem não soube acumular sabedoria chegará ao final da vida desonrado. Ninguém vai perder tempo para ouvir suas lorotas. Salomão é um exemplo desse tipo de idoso que se torna um louco, não sábio. Nesse caso, a perda foi lastimável, pois Salomão foi cumulado de sabedoria por Deus na sua juventude e a deixou escapar. Quando o jovem Salomão reinou, a paz reinou em Israel. Ele construiu uma casa para Deus. Sabia decifrar enigmas. Seu nome ficou conhecido entre os povos. Trouxe riqueza para o seu povo. Mas tão logo a velhice chegou, Salomão perdeu a sabedoria. Ou nunca a teve? O livro de Eclesiástico denuncia-o com duras palavras: "Entregaste teu corpo a mulheres, deste-lhes poder sobre teu corpo. Manchaste a tua glória, profanaste a tua raça, a ponto de fazer vir a cólera contra teus filhos e a aflição até a loucura: erigiu-se um duplo poder, surgiu de Efraim um reino rebelde" (Eclo 47, 19-21).

Outro exemplo de idosos que não acumularam sabedoria durante a vida é o dos dois anciãos do episódio da bela e devota Susana, esposa de Joaquim, um rico que possuía um belo jardim. Susana costumava passear com o marido nesse local e um dia resolveu também tomar banho. Havia dentre o povo dois anciãos que exerciam o papel de juiz. Ambos desejaram o corpo de Susana e tramaram para poder deitar-se com ela. E aconteceu que quando Susana estava sozinha em seu banho no jardim, eles saíram do esconderijo e procuraram convencê-la de se entregar a eles. Susana reagiu com gritos e os seus familiares logo se ajuntaram. Os anciãos disseram que um jovem estava com ela e que por isso as criadas não estavam por perto. No dia seguinte, Susana foi acusada por eles diante de Joaquim e do povo. E enquanto ela era levada para fora da casa para ser apedrejada até a morte, eis que Deus mandou o espírito de um jovem adolescente, chamado Daniel, para defendê-la. Daniel acusou o povo de julgá-la sem conhecer a verdade. Convocou o povo para voltar ao lugar do julgamento e pediu que os anciãos fossem colocados bem distantes um do outro para serem julgados por ele. À pergunta, em separado, sobre o tipo de árvore que Susana estava com o jovem, eles se contradisseram. E foram condenados à morte. Susana foi libertada. As palavras de acusação proferidas por Daniel (Deus) contra os anciãos foram duras: "Ó tu, que envelhecestes no mal! Agora aparecem teus pecados, que cometestes no passado: fazendo julgamentos injustos, condenavas os inocentes e o justo!"(Dn 13).
E como em qualquer sociedade, a presença de homens e mulheres injustos, mesmo sendo idosos, é quase que inevitável, vale o conselho pastoral da Carta de Tito: "Que os anciãos sejam sóbrios, respeitáveis, sensatos, fortes na fé, no amor e na paciência. As mulheres idosas também devem comportar-se como convém a pessoas sensatas: não sejam caluniadoras, nem escravas de bebida exces-siva; pelo contrário, sejam de dar bons conselhos, de mo-do que às recém-casadas aprendam com elas (Tt 2, 2-4).

O ser humano que não cultiva a sabedoria torna-se um idoso desrespeitado e sem a alegria de viver para si e para os outros.

Frei Jacir de Freitas Faria, OFM - escritor, sacerdote e professor de Exegese Bíblica (retirado do Jornal Opinião)
 
 
VEJA NO MÊS DE JANEIRO/2004:

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cf2008

Após a morte acontece o julgamento particular. Quem faz o julgamento?
Deus.
Você mesmo(a).
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