É noite...
Fora da vidraça, as lágrimas chorosas de novembro derramam-se
profusamente, qual lamentos do céu.
Escorrem apressadas e sem rumo pelas ruas desertas, para cumprir a
sina de um dia, decerto, ser o mar.
De repente, uma trégua no desafogo inconsolado das nuvens,
decerto pela inconseqüência do homem em complicar tanto
para ser feliz.
Perco-me a olhar o asfalto molhado, que projeta-me o filme que ainda
não vivi.
Meus pensamentos misturam-se aos reflexos dourados que duplicam luzes
e multiplicam anseios.
Vejo-me semente de janeiro pródigo, que vai brotar viçosa
e crescer em galhos fortes de abraçar o amor.
Desabrocho na alegria de fevereiro maroto, brincalhão, festeiro
e sambo ao ritmo da alegria de viver.
Navego nas águas de março, no desejo de achar um porto
novo para emoções também desconhecidas.
Sinto-me flutuar na azuleza dos céus de abril, como a gaivota
vencedora de medos, que o Capelo treinou.
Transmudo-me em flor, perfume, afeto e reza de maio nos altares de
existir.
Lambuzo-me com os cheiros e gostos de junho; danço na fogueira
e exorcizo fantasmas impertinentes.
Tiro férias de mesmice em julho e faço as malas para
o desconhecido.
Enfrento os azares de agosto e luto pela alquimia dos sonhos.
Liberto-me da amarra em setembro e proclamo o Fico feliz para o meu
bem e o de todos.
Celebro mestrados diferentes em outubro e agradeço à
Virgem Morena ser do Brasil.
Enfeito de saudades com flores em novembro e abro espaço para
ramalhetes novos no meu coração.
Canto ANO FELIZ em dezembro e faço um brinde ao milagre da
vida, que ressuscita em todos os amanhãs.
Continua noite...
A chuva cai novamente, um pouco de novembro... dezembro... janeiro
novo... dias e mais dias para descobrir.
Autora: Vilma Cunha Duarte (A cronista de Araxá) - Recebido
via email: vilmaduarte@araxá.com.br |