ATOS DOS APÓSTOLOS (PARTE I)
Introdução
O início dos Atos dá continuidade exata ao fim do Evangelho.
A descrição da Ascensão tem por fim encerrar
definitivamente a atividade histórica de Jesus de Nazaré.
O livro dos Atos dos Apóstolos apresenta o desenvolvimento
de algumas comunidades cristãs: Jerusalém, Antioquia,
Cesaréia, Ásia Menor. Este livro mostra o desenvolvimento
e a difusão do Evangelho a partir de Pentecostes em Jerusalém
(1,15-8,3) até a Samaria e a costa da Palestina (8,4-11,18),
a Antioquia (11,19-15,35) pelo território da atual Turquia,
Macedônia e Grécia (15,36-19,20) até alcançar
Roma (19,21-28,31).
Seu tema central está na mensagem de Jesus. Pretenderam calá-lo
com a morte; mas ao contrário, seus discípulos, animados
pelo Espírito e apesar das perseguições (4,2.33;
5,42; 17,5.13.18), encarceramentos e com dinamismo missionário,
o difundem muito além das fronteiras da Palestina, fazendo
novos discípulos.
Atos não pretende ser uma história completa, mas assinála
os acontecimentos mais importantes com relação à
expansão do Evangelho e especialmente da grande decisão
de anunciá-lo aos pagãos. Ele mostra como a Igreja continua
a verdadeira tradição de Israel e deixa claro que a
difusão do Evangelho entre os pagãos se faz por expressa
vontade de Deus (cf. 1,8), entretanto acaba fazendo uma história
da Igreja nascente (cerca de 30 a 67 d.C. aproximadamente). Embora,
mais uma vez, afirmo, que o autor não está preocupado
com os pormenores históricos e sim com a ação
de Deus na história.
O cristianismo aparece nos Atos como uma fé única e
segura de Deus e de si mesma, que abomina a obscuridade e a vida de
seita e não teme o debate público de seus princípios
e de suas convicções.
Uma extraordinária alegria espiritual penetra o conjunto das
narrações. É a alegria que vem do Espírito
Santo, da certeza sobre a origem sobrenatural da Igreja e da contemplação
dos fatos extraordinários com que Deus acompanha os pregadores
do seu Evangelho e da proteção divina.
A divisão dos Atos em duas grandes partes: uma centrada em
Pedro e a segunda em Paulo pertence à própria estrutura
do livro realçando o seu objetivo esclarecer a passagem do
cristianismo do mundo judaico para o gentio, pois o livro foi escrito
na época em que se consumava a ruptura entre o judaísmo
e o cristianismo.
Título
Segundo alguns, o terceiro Evangelho e o livro dos Atos deviam formar,
no princípio, uma só obra, à qual daríamos,
hoje, o nome de "História das Origens Cristãs".
Eles foram separados quando os cristãos desejaram possuir os
quatro Evangelhos em um mesmo códice. Isto se deu muito cedo,
antes do ano 150. O cânon de Muratori, de 175, já o inclui
e atribui a autoria a Lucas. Desde de antes do século IV ele
era lido na liturgia eucarística do tempo pascal. O título
usual português de Atos dos Apóstolos corresponde ao
latino "Actus" ou "Acta Apostolorum" e ao grego
"Praxis Apostolòn". Parece, contudo, que o título
não procede do próprio autor e teria sido dado posteriormente,
segundo o costume da literatura helenística, que conhecia "Atos
de Anibal", "Atos de Alexandre", etc., onde eram narrados
os fatos de maior relevo da vida do personagem.
O livro poderia ser chamado Atos do Espírito Santo, uma vez
que o verdadeiro protagonista dos Atos é o Espírito
Santo, que dá força à Igreja de Jesus e a guia
à conquista do mundo. É sob sua direção
que a recém-nascida Igreja ultrapassa as fronteiras nacionais
de Israel para se tornar um movimento internacional de alcance mundial.
Não se trata, com efeito, de um relato sobre a atividade dos
apóstolos, mas de uma espécie de monografia histórica
que descreve as primeiras etapas do desenvolvimento do cristianismo
em conexão com os trabalhos missionários dos dois apóstolos
mais destacados: Pedro e Paulo. O nome de Pedro aparece 53 vezes,
já o de Paulo 125. Realmente, o livro não fala de todos
os apóstolos, mas apenas de alguns: Pedro, João, Tiago,
Paulo e, também, Estevão, Filipe, Barnabé e Tiago.
Sem dúvida, pode-se lamentar que ele nada tenha dito da atividade
dos demais apóstolos, nem da fundação de algumas
Igrejas como a de Alexandria, nem a de Roma, onde certamente a fé
se implantou antes da chegada do apóstolo (cf. Epístola
aos Romanos, escrita durante a terceira viagem). Nada diz tampouco
do apostolado de Pedro fora da Palestina; é verdade, por outro
lado, que a pessoa de Paulo tem em sua obra um lugar preponderante,
chegando a ocupar sozinha toda a segunda metade. Mas seus silêncios
e suas omissões são a melhor garantia do que nos oferece;
narra apenas o que conhece por si mesmo ou por fontes, cujo valor
verificou.
Ademais, o que nos quis dar, mais que uma história materialmente
completa, é uma exposição da força de
expansão espiritual do cristianismo; e o ensinamento teológico,
que soube deduzir dos fatos de que dispunha, possui um valor universal
e insubstituível, que constitui todo o valor de sua obra.
Continua no próximo mês
Jane do Tércio |