"Dai-lhes vós mesmos de comer" (Mc 6, 37)
Na coluna do mês passado, abordamos aqui os principais documentos
que a CNBB preparou visando uma maior participação do
leigo no processo eleitoral. Tentei dividir o espaço entre
os principais documentos e fiz uma breve citação sobre
o documento 69 que trata do problema da Fome. Alguns leitores reclamaram
e com toda razão da pouca importância dada a este documento.
Não. Não quero ficar aqui justificando ou dando desculpas
para esse possível descuido. Mas, preciso assumir que foi proposital.
Eu queria dedicar a esta obra-prima produzida pela CNBB um destaque
especial. Sim, leitor amigo, foi esse o termo encontrado que melhor
retrata o documento em questão: Uma verdadeira "obra-prima".
O documento 69 - Exigências evangélicas e éticas
de superação da miséria e da fome é o
que podemos chamar de um verdadeiro manual para qualquer Cristão
que trabalhe com o objetivo de combater a "Fome". Ele faz
uma abordagem clara e direta sobre as suas causas sem contudo, deixar
de mencionar as pistas e ações que visam fazer com que
os indigentes que sofrem essa violência, venham a se libertar
desse câncer social.
Fruto da 40a Assembléia Geral da CNBB em Itaicí - SP,
esse documento mostra claramente que "existe alimento suficiente
para todos e que a fome se deve a má repartição
dos bens e da renda".
Quando eu coloquei que este documento serve como um manual para o
trabalho de recuperação dos excluídos pela Fome,
isso foi em função da forma pedagógica com que
ele levanta os problemas, analisa suas causas e conseqüências
e, finalmente, mostra caminhos e diretrizes para resolvê-lo.
Além do problema da má distribuição de
renda, o documento também cita o "culto ao consumismo
desenfreado" promovido pelos meios de comunicação
social e a manipulação do inconsciente coletivo, pregando
o acúmulo de riquezas a todo custo atropelando valores éticos
e morais como sendo alguns dos principais agravantes do problema.
É inaceitável, do ponto de vista ético e cristão,
o contraste entre a situação de miséria e degradação
do povo sofrido, refugiado nos cortiços, favelas e periferias
das cidades e o luxo e sofisticação de condomínios
fechados, construções suntuosas e desperdício
de riquezas, sem consideração pela miséria envolvente.
O mais triste disso tudo, é que essa desigualdade acontece
pela falta de testemunho e vivência evangélica, criando
friezas, "cegueiras" e alienação diante do
sofrimento humano. Neste aspecto, o documento não poupa palavras
ao cobrar uma mudança de mentalidade como questão básica
para reversão do quadro excludente causado pela fome.
Outro ponto merecedor de profunda reflexão é a forma
com que o documento diferencia a ação assistencialista,
emergencial e populista; das ações de resgate da dignidade
humana no combate a fome. O exercício da solidariedade não
pode jamais ser confundido com práticas populistas de assistencialismo
que gera dependência eterna, humilhando inclusive quem a recebe.
É preciso sim, fazer a prática do resgate e da libertação
do excluído.
Não se pode falar do problema da Fome no Brasil sem mencionar
a constituição de 1988. Ela coloca em seu preâmbulo,
a necessidade de redução das desigualdades sociais.
Chamada de "Constituição Cidadã", ela
também é muito bem lembrada neste documento da CNBB,
onde são mencionadas as citações de direitos
sociais ou coletivos que visam à instalação de
uma sociedade mais justa e igualitária socialmente.
Meu caro leitor amigo, não sei dizer se a equipe do Presidente
eleito, que está elaborando o projeto de erradicação
da fome no Brasil, teve acesso a esse documento da CNBB. Mas, posso
garantir que se for utilizado como subsídio para elaboração
deste projeto, teremos a certeza de que muito em breve, o problema
da fome não estará assolando os milhões de indigentes
que ainda sofrem deste grave problema social, moral e ético
do nosso País.
Um forte abraço a todos e a Paz de Cristo!
Robson Campos Leite (feepolitica@terra.com.br) |