Uma
longa estrada... árida.
De dia, um sol escaldante. À noite, frio intenso. Riscos e
perigos a todo instante. Mas no céu há uma estrela e
seu brilho atrai, convida, estimula, seduz. Diante dela não
há como ficar indiferente.
Sobre ela falam antigas profecias. Um Rei há de nascer. Será
causa de grande alegria para muitos. Mas será também
sinal de contradição. A estrela fala de um Rei que nos
será dado. É preciso ir ao seu encontro...
Por isso nos colocamos a caminho. Eu e meus amigos. Dias e noites
penosa, mas cheia de esperança e expectativa.
Quantas vezes, ao fim de um dia exaustivo, veio a vontade de desistir,
voltar. A lembrança das certezas e confortos deixados para
trás ficava mais viva quando uma nuvem cobria a estrela ou
o sol ofuscava e ocultava o seu brilho. Mas nos passos retomados ela
brilha e rebrilha, apontando um caminho, uma direção.
No nosso coração, o reflexo desse brilho aviva o desejo
de caminhar, buscar. Queremos ir ao encontro do Rei, seguindo a sua
estrela. Ela é o sinal do. que buscamos.
Depois de muitos dias, chegamos a Jerusalém. Surpresa. Decepção.
Não há festa? Nenhuma alegria no semblante do povo.
Nós atravessamos desertos em busca do Rei e aqui, tão
perto, ninguém comemora? O que há com essa gente? Não
percebem que um Rei nos foi dado? Não viram sua estrela?
O povo de nada sabe. Está muito ocupado cuidando da vida, dos
negócios. São outras e tantas as suas preocupações.
Não tem tempo a perder olhando para o céu, buscando
estrelas ou reis...
Na verdade, eles já têm seu rei. Herodes. Ele tem sua
corte, seus sábios. Vamos a eles. Quem sabe, lá teremos
notícias.
Outra surpresa. Somos recebidos com desconfiança. Olhares atravessados,
palavras sussurradas, desconforto ...
Mesmo assim, depois de consultar a textos antigos, uma pista: Belém!
Lá deve nascer o Rei, dizem os profetas. Despedimo-nos e saímos
apressadamente desse ambiente de intrigas. Logo que deixamos Jerusalém
a estrela surge novamente no céu. Brilha tanto quanto nossa
esperança. Caminhamos na trilha da sua luz.
Enfim, Belém! Cidade pequena, quase uma aldeia. É madrugada
ainda. Nada se vê, nada se ouve. "mas no silêncio,
alguma coisa irradia...".
Numa gruta usada como estrebaria há um movimento que chama
nossa atenção. A estrela parece pairar sobre aquele
lugar. Seu brilho azulado intensifica-se. Dentro da gruta algumas
pessoas movem-se lentamente, com gestos cuidadosos e silenciosos.
Deixamos nossas montarias e nos aproximamos. Logo à entrada
percebemos: são pastores que ali estão. Eles afastam-se
respeitosamente à nossa passagem. Há um brilho em seus
olhos. O brilho da estrela. Eles parecem reconhecer o mesmo brilho
em nós. Há sorrisos em todos os rostos.
Entramos. À direita, no estábulo, um burrinho cochila
ao lado de um boi e alguns cordeiros. Ao fundo, sob a luz tênue
de uma lamparina, uma mulher embala uma criança. Ao seu lado,
um homem vela, cuida, guarda. Tem nas mãos um cajado e no rosto
a serena certeza dos que encontraram paz e bem.
A mulher, muito jovem ainda, canta baixinho, ninando seu bebê.
Percebendo nossa chegada, ergue o rosto e sorri. No seu olhar, no
seu sorriso parece brilhar a própria estrela.
Gaspar se adianta. Cumprimenta o homem e ajoelha-se junto à
mãe e o menino. Estende as mãos e pergunta: "Posso
carregá-lo?"
Maria e José (esses eram seus nomes) entreolham-se. José
acena com a cabeça e sorri. Maria entrega o menino a Gaspar,
dizendo: "Seu nome é Jesus...".
Gaspar toma em seus braços o pequeno tesouro. Ergue-se e vem
até nós. Os pastores aproximam-se, curiosos. O menino
dorme serenamente. Baltazar sussurra: "Parece com a mãe...".
Maria, abraçada a José, sorri. Ele, carinhosamente beija
sua testa e a estreita ainda mais no abraço.
Belchior pede licença e corre até as montarias. Volta
trazendo três caixas. A movimentação acorda o
menino. Ele espreguiça-se e dá um longo bocejo, logo
seguido por um chorinho miúdo. Maria adianta-se e toma novamente
o pequeno Jesus em seus braços. Ele logo se aquieta.
Belquior coloca a primeira caixa diante daquela pequena família,
fazendo uma profunda reverência. Baltazar e Gaspar fazem o mesmo.
Abrindo as caixas, dizem: "Nossos humildes presentes para o Rei...
Ouro, incenso e mirra. Que o Deus de Israel que nos guiou até
aqui por meio de sua estrela, abençoe o Rei e ilumine cada
um dos dias de sua vida!".
Os pastores ajoelham-se, maravilhados e confusos. No coração
de cada um de nós a alegria é como um coro de anjos
cantando as glórias do Senhor.
Maria e José, surpresos, olham os presentes, olham o menino.
Que mistério imenso nascia com aquela criança que dormia
serena nos braços de sua mãe.
Maria guardava e meditava todos esses acontecimentos no seu coração.
Eu, em silêncio, percebia que testemunhava algo extraordinário.
Um Rei nos fora dado. E seu reinado, a partir daquela gruta anônima
e silenciosa, estava apenas começando...
Eduardo Machado
(texto retirado do Jornal Opinião) |