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Gênesis 14 | JANEIRO


Podemos dividir Gn 14 em três partes. Na primeira parte (1-11 ) e na parte central (12-16), são apresentados fatos e elementos que fundamentam a última parte. Reis poderosos rechaçam a revolta de povos por eles antes conquistados e que, depois de doze anos, se rebelaram. Entre esses povos estão os reinos de Sodoma e Gomorra. Todos os bens desses reinos se tornam propriedade dos conquistadores. Esse detalhe é ressaltado porque explica o direito de posse sobre todos os despojos dos reis que Abrão derrota e que o próprio rei de Sodoma reconhece (v.21). Ao renunciar a esse direito (v. 24), Abrão se revela um homem desprendido e, sobretudo, prudente, porque, através desse gesto pelo qual entrega de volta homens, mulheres e alimentos ao rei de Sodoma, ele estende as suas alianças, até então limitadas aos amorreus (v. 13),e garante a segurança e proteção para Ló numa cidade estrangeira. A parte central sublinha o altruísmo de Abrão para com o seu consangüíneo, com o qual age com extrema liberalidade, embora Ló não tivesse mostrado muita complacência com o seu tio no momento da sua separação dele, sendo que escolheu para si aquilo que achava melhor (13,10s). Aqui, mais uma vez notamos, seguindo o texto hebraico, como o termo 'irmão' é utilizado indiscriminadamente, seja para significar o irmão como o sobrinho (v. 12.14). Segundo o v. 12, Ló é sobrinho de Abrão porque é "filho do irmão de Abrão" (ben-akí Abram). No v. 14, o sobrinho de Abrão é chamado simplesmente de "irmão dele" (akív). Isto prova, mais uma vez que Mc. 6 não enumera os irmãos de Jesus como sendo necessariamente filhos da mesma mãe, ainda mais que, como já relatamos no artigo anterior, a mãe de Tiago e Joset (Mc 6,3) é outra Maria (Mc 15, 40.47), distinta da Mãe de Jesus. A parte central explica, também, o elemento surpresa que possibilitou, humanamente, a vitória de Abrão sobre os quatro poderosos reis que tinham arrasado os cinco reis revoltosos: não é para subestimar a habilidade de Abrão que se revela líder e estrategista militar; ele ataca "de noite, em ordem dispersa" (v. 15). Mas é a parte final que nos revela o pensamento do Autor sagrado no seu último intuito. Da mesma forma segundo a qual ele viu, nos acontecimentos anteriores da vida de Abrão, a intervenção de Deus, assim, agora ele entende que tudo o que aconteceu foi por intervenção providencial de Deus. Ele está tão certo acerca dessa interpretação que a põe na boca do próprio Melquisedec, rei de Salém: "Bendito seja o Deus Altíssimo que entregou teus inimigos entre tuas mãos"(v. 20).
A figura de Abrão acaba, assim, de ser apresentada num contexto histórico suficientemente pormenorizado para que seja entendida como a de alguém que tem tudo a ver com a humanidade com a qual interage. Abrão diz respeito ao Egito, no qual fez a experiência da arbitrariedade dos poderosos que todavia foram derrotados pelo seu Deus e diz respeito a todos os povos que o circundam, com os quais estabelece um contato por esta aventura militar em que Deus o assistiu. A história de Abrão, que se desenvolve dentro da história da humanidade, vem a significar que a extraordinariedade da intervenção divina, que quer levar a frente o seu plano de salvação, não obstante toda a sua peculiaridade, não quer se distinguir de forma mirabolante diante dos olhos dos homens. Ela quer, pelo contrário, se realizar dentro do contesto normal da vida dos homens, sem, todavia, deixar de registrar a marca da sua extraordinariedade na história. É por este cunho de extraordinariedade que os homens devem entender a presença de Deus na história que se revela 'extraordinária' na história do povo de Israel, que tem por fundador um nomade (v. 13), sem filhos, sem força militar adequada, mas que consegue sobreviver e se firmar entre povos estrangeiros, sair ileso das mãos do prepotente rei do Egito e que quando empreende uma ação militar contra reis que já venceram outros reis, vence porque Deus está com ele. O Autor sagrado permeia essa narrativa, de cunho épico, com as convicções religiosas do seu povo que reconhece que toda a sua grandeza não depende dos seus recursos humanos, mas da complacência de Deus que o escolheu, em Abrão, para ser o seu povo.

Pe. Fernando Capra

 
 
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