Nesta época do ano, os campos se enfeitam de flores roxas e
róseas das quaresmeiras. É o tempo da Quaresma. Antigamente,
era costume cobrir também de roxo as imagens nas igrejas. Na
nossa cultura, o roxo lembra tristeza e dor. Isto porque na Quaresma
celebramos a Paixão de Cristo: na Via-Sacra contemplamos Jesus
a caminho do Calvário. Recolhimento e penitência devem
marcar a Quaresma. Porém é preciso compreender o verdadeiro
significado da Paixão. O que se vive por paixão está
impregnado da esperança, não se detém na dor.
A Paixão de Cristo tem o objetivo da Salvação
que supera a dor do sacrifício. Foi o próprio Jesus
quem disse às mulheres de Jerusalém que choravam ao
vê-lo passar sob o peso da cruz: "Não chorem por
mim, chorem antes por vós e pelos vossos filhos".
A Quaresma, que começa na quarta-feira de Cinzas e termina
na Semana Santa, antecede a festa da Páscoa, a maior festa
para os cristãos. Daí porque o tempo da Quaresma é
um tempo importante, é o momento de preparação
para a Páscoa. Mas, por que se preparar com recolhimento e
penitência? Por que penitência para preparar a festa?
Fui ao dicionário em busca de uma pista. E lá encontrei,
entre outros termos, arrependimento para expressar penitência.
Quem sabe é por aí?
O arrependimento me faz mudar de atitude, de rumo, tomar outro caminho.
Agora posso entender melhor porque na Quaresma a Igreja nos convida
a participar da Campanha da Fraternidade. A campanha sempre escolhe
um quadro da vida social que nos choca e provoca a nossa indignação.
Um pecado social que nos traz arrependimento e vontade de mudar. Não
para que nos fechemos em vão sofrimento, mas para despertar
a nossa consciência adormecida pelo corre-corre diário.
O recolhimento nos permite a reflexão cuidadosa a fim de que
encontremos uma maneira de contribuir para mudar a situação
que nos traz indignação e resgatar a esperança.
Neste
ano, o quadro da Campanha da Fraternidade é a realidade dos
povos indígenas. Essa triste realidade que não podemos
ignorar. Este é o nosso desafio nessa Quaresma: não
é uma Campanha apenas para os índios, mas para todos
nós, povo brasileiro.
A Paixão de Cristo nos aponta para a Ressurreição,
e anuncia que a Vida vence a morte. Não podemos curvar-nos
à tristeza diante da realidade injusta dos povos indígenas,
em busca de uma terra sem males para o Brasil.
É preciso contribuir com um gesto, por menor que seja, para
o esforço de mudança. Vencer a dor da desesperança
e propor para todos nós um pacto de fraternidade com nossos
irmãos indígenas.
Inspirados na Paixão de Cristo, caminharemos juntos, cada um
a seu modo, na defesa dos direitos dos índios, combatendo os
preconceitos que marginalizam o cidadão indígena, a
fim de que os seus povos possam ser aceitos por nós, respeitando
sua cultura, suas crenças e tradições. Só
assim se fará ecoar o lema da Campanha da Fraternidade ; "
Por uma terra sem males".
E o roxo-róseo da quaresmeira em flor se tornará então
o símbolo da esperança que alimenta a luta de uma sociedade
mais justa e mais feliz.
Adelaide Maria Coelho Baeta
Do Jornal " Opinião" adaptado para "O Mensageiro" |