A parábola do filho pródigo é sem dúvida
uma das mais belas da bíblia, talvez a que melhor reflete a
nossa relação com Deus. Nos filhos podemos visualizar
claramente a natureza humana que se manifesta, pela tendência
ao pecado. No mais novo isto é mais explícito, ele abandona
a casa do Pai e vai em busca dos prazeres do mundo. Quem de nós
nunca desejou, por um momento sequer, esquecer da fé, do amor
ao próximo e dos outros princípios que devem reger a
vida do cristão, para poder agir pura e simplesmente em busca
do que é melhor para si ou do que lhe traz mais prazer? O filho
mais novo é a expressão deste sentimento, aquele que
aposta toda sua vida numa direção que muitos de nós
já pensamos, ou até mesmo desejamos seguir. É
a face daquele que se deixa seduzir e passa a acreditar que viver
pelo mundo é melhor do que viver pelo Pai.
O filho mais velho, por outro lado, vive pelo Pai mas alimenta um
profundo, talvez mesmo subconsciente, desejo de viver pelo mundo.
Se ressente a toda hora do que poderia estar fazendo e ganhando se
não tivesse de se manter sob as normas e a serviço do
Pai.
Justamente como acontece conosco, enquanto cristãos e enquanto
Igreja, e em especial comigo. Tento viver pelos princípios
de nossa fé, e mesmo falhando muito, já enfrento dificuldades
tremendas. Ouço o mundo a minha volta que diz que devo me preocupar
com o meu futuro, aproveitar ao máximo os prazeres de minha
juventude e buscar o que é melhor para mim, pois todos fazem
o mesmo. E ouço o Senhor que me diz que não preciso
me preocupar com o futuro, pois Ele o garantirá se me preocupar
com a construção de seu reino, me diz que a juventude
passa e que devo buscar prazeres maiores na entrega ao amor verdadeiro,
afirma que devo procurar o que é melhor para o próximo,
pois estou aqui para lhe servir.
São vozes conflitantes, que me chamam a direções
opostas, o que seguir? A quem ouvir? Tenho buscado seguir ao Senhor
que com sua presença me dá forças para seguir
firme na esperança de que Ele conduz os caminhos da vida. Mas
também tenho observado muitos de meus irmãos, amigos,
que optaram seguir pela outra direção. E muitas vezes,
como o filho mais velho, sinto uma grande inveja dos que fizeram uma
opção diferente e seguem livres buscando somente seus
interesses e seu prazer. Podem fazer tantas coisas que eu não
me permito fazer, se beneficiam tantas vezes das oportunidades que
deixo passar por me ocupar dos interesses da construção
do reino, se sentem felizes, ou pelo menos o demonstram, e eu fico
a pensar até onde vale a pena.
É neste momento que uma grande tentação se apodera
de todo aquele que nutre estes sentimentos: a tentação
de condenar. Por me sentir intimamente atraído por aquilo que
não faço, condeno abertamente quem o faz e acho que
deva ser punido por ter se comportado desta forma e principalmente
por ter obtido as vantagens que eu ambicionava e não pude obter.
Quero castigo e não perdão. A atitude do filho mais
velho agora é minha: desejo que meu irmão que não
seguiu os caminhos do Pai seja punido e não acolhido. Este
sentimento de rancor, é uma das piores tentações
que afligem o cristão, sou pego por sentimentos que nunca desejaria
sentir. Se não segui pelo mesmo caminho que estes meus irmãos,
foi simplesmente porque o Pai tem me segurado e cercado de cuidados
e advertências que me impedem de fugir de sua graça.
Nada do que faço ou deixo de fazer é por meu mérito,
mas sim pela graça do Senhor. Por mim, me entregaria ao mundo,
mas o amor que o Pai me dedica me impede.
E é este mesmo amor que o Pai deseja dedicar ao meu irmão
que segue hoje os caminhos do mundo. Ao menor sinal de sua volta o
Pai se alegra e vai em sua direção para lhe dar um abraço
cheio da sua misericórdia. E sei que o Pai me convida a ser
este abraço para meu irmão que vive pelo mundo, um abraço
de aceitação, compreensão, amor e perdão.
Deseja ardentemente que toda a Igreja seja portadora deste abraço
de acolhida aos pecadores. Mas nossos sentimentos, os meus ao menos,
nos levam a condenar, a criticar e afastar, ao invés de acolher.
Devo buscar servir ao Senhor com mais afinco, e me desapegar mais
do que o mundo me oferece, pois só me ressinto de meus irmãos
porque estou apegado ao que eles podem estar obtendo. Quando for capaz
de entregar a busca da minha felicidade por completo nas mãos
do Senhor para que ele cuide dela, então serei capaz de dar
um abraço como o do Pai para meus irmãos que vivem em
outros caminhos.
Esta é minha busca, o objetivo que tento alcançar, e
como a mudança na Igreja começa comigo e com cada um
de vocês, acredito que em breve, poderemos todos abraçar
o mundo com a misericórdia do Senhor.
Fabio Miranda (fabio@sinergiaonline.com.br) - PJ |