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Genesis 15 |FEVEREIRO

A fé de Abrão que, desde o início da sua vocação se transformou em atos de obediência, faz com que Deus lide de forma familiar com ele (coisa que Deus teria gostado de fazer sempre desde o primeiro adão). Em visão, Deus ensina a Abrão o que acontece quando ele confia: Deus se torna para o homem escudo e recompensa (v. 1). Quando o povo de Israel chegar a conhecer o auge da sua história, falar-se-á de muralhas e torres: isto será Deus para o seu povo! (Is 26,1). E o profeta Zacarias, falando da Jerusalém messiânica, chegará a dizer que o próprio Deus será "uma muralha de fogo ao redor e glória dela" (Zc 2,9). Abrão é chamado a crer, mais uma vez, porque essa é a condição para ter a Deus como seu escudo e recompensa. O dom de Deus será a Descendência: uma realidade exclusiva de Deus, todavia, obtida através da cooperação humana, pela fé. Nesse caso, a figura de Abrão ilustra a maternidade de Maria: a concepção de Jesus é obra exclusiva de Deus, obtida através da cooperação humana, pela fé. O Autor sagrado, no caso de Abrão, utiliza uma situação hipotética para sublinhar que se houve uma descendência pela qual Deus leva em frente a realização da promessa de Gn 3,15, ela é mero fruto da atuação de Deus sem nenhum mérito da parte do homem. Quando Mateus e Lucas acentuam a condição virginal de Maria, visam mais sublinhar a gratuidade da Descendência do que atrair nossa atenção sobre a concepção virginal. Se Abrão era velho e Sara já não podia mais ter filhos, Isaac é tão fruto de Deus quanto Jesus em Maria. Como Deus possa realizar o que é inimaginável para o homem não é um mistério, uma vez que Ele é o onipotente Criador. A forma com que é apresentado o nascimento de Isaac e o de Jesus quer sobretudo sublinhar que a Redenção dos homens deu-se, exclusivamente, por uma vontade divina que operou ao longo de toda a história da humanidade. De fato, Israel tem clara consciência de ser fruto de uma ação providencial de Deus, perfeitamente ilustrada por essa Descendência que sai de Abrão por intervenção divina, em virtude da fé: "Acreditou em Deus que lho imputou a justiça" (v. 6). No caso de Maria, a fé dela ao anúncio do anjo proporcionou a ação de Deus que a tornou mãe, antes que coabitasse com José (Mt 1,18). Isso só pode ser pela Potência criadora do Altíssimo (Lc 1,35). Não se trata mais de um caso hipotético, todavia, porque seja Mateus como Lucas fazem questão de apresentar a condição virginal de Maria como uma realidade histórica (Mt 1,18) de uma virgem de Nazaré "e o nome da virgem era Maria" (Lc 1,27). No caso de Maria devemos unir os dois sentidos que a sua maternidade virginal inclui: 1o) a gratuidade da Descendência, obra exclusiva de Iahweh; 2o) o nascimento de Jesus, Filho de Deus, de uma virgem, para que resulte inconfundível a condição divina daquele que ao assumir a condição humana daria origem à nova estirpe dos filhos de Deus.
A partir do v. 7 estamos diante de uma interpretação teológica que Israel faz da sua história. Simulando uma profecia, dentro de um contexto de uma aliança entre Deus e Abrão atuada mediante um juramento imprecatório, pelo qual quem faltasse aos compromissos se tornava merecedor da sorte indicada por animais partidos ao meio, o Autor sagrado analisa tudo o que aconteceu a partir do seu ancestral, Abrão, até o seu tempo: Israel se tornou um povo porque esta foi a vontade de Deus que se manifestou na extraordinariedade da libertação da escravidão do Egito e da conquista da Palestina. Esse artifício literário será
utilizado de forma mais ampla pelo profeta Daniel ao fazer a análise teológica da história de Israel, a partir da deportação para Babilônia até o seu tempo (sec. II A.C.). Outro aspecto teológico aqui presente é a definição de quando Deus castiga os povos (v.14): é quando a iniqüidade atinge o seu cúmulo (v. 16). É o critério que o Apocalipse assume para justificar a rejeição de Jerusalém por parte do Cordeiro: "porque seus pecados se amontoaram até os céus" (Ap. 17,5).

Pe. Fernando Capra
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