A fé de Abrão que, desde o início da sua vocação
se transformou em atos de obediência, faz com que Deus lide
de forma familiar com ele (coisa que Deus teria gostado de fazer sempre
desde o primeiro adão). Em visão, Deus ensina a Abrão
o que acontece quando ele confia: Deus se torna para o homem escudo
e recompensa (v. 1). Quando o povo de Israel chegar a conhecer o auge
da sua história, falar-se-á de muralhas e torres: isto
será Deus para o seu povo! (Is 26,1). E o profeta Zacarias,
falando da Jerusalém messiânica, chegará a dizer
que o próprio Deus será "uma muralha de fogo ao
redor e glória dela" (Zc 2,9). Abrão é chamado
a crer, mais uma vez, porque essa é a condição
para ter a Deus como seu escudo e recompensa. O dom de Deus será
a Descendência: uma realidade exclusiva de Deus, todavia, obtida
através da cooperação humana, pela fé.
Nesse caso, a figura de Abrão ilustra a maternidade de Maria:
a concepção de Jesus é obra exclusiva de Deus,
obtida através da cooperação humana, pela fé.
O Autor sagrado, no caso de Abrão, utiliza uma situação
hipotética para sublinhar que se houve uma descendência
pela qual Deus leva em frente a realização da promessa
de Gn 3,15, ela é mero fruto da atuação de Deus
sem nenhum mérito da parte do homem. Quando Mateus e Lucas
acentuam a condição virginal de Maria, visam mais sublinhar
a gratuidade da Descendência do que atrair nossa atenção
sobre a concepção virginal. Se Abrão era velho
e Sara já não podia mais ter filhos, Isaac é
tão fruto de Deus quanto Jesus em Maria. Como Deus possa realizar
o que é inimaginável para o homem não é
um mistério, uma vez que Ele é o onipotente Criador.
A forma com que é apresentado o nascimento de Isaac e o de
Jesus quer sobretudo sublinhar que a Redenção dos homens
deu-se, exclusivamente, por uma vontade divina que operou ao longo
de toda a história da humanidade. De fato, Israel tem clara
consciência de ser fruto de uma ação providencial
de Deus, perfeitamente ilustrada por essa Descendência que sai
de Abrão por intervenção divina, em virtude da
fé: "Acreditou em Deus que lho imputou a justiça"
(v. 6). No caso de Maria, a fé dela ao anúncio do anjo
proporcionou a ação de Deus que a tornou mãe,
antes que coabitasse com José (Mt 1,18). Isso só pode
ser pela Potência criadora do Altíssimo (Lc 1,35). Não
se trata mais de um caso hipotético, todavia, porque seja Mateus
como Lucas fazem questão de apresentar a condição
virginal de Maria como uma realidade histórica (Mt 1,18) de
uma virgem de Nazaré "e o nome da virgem era Maria"
(Lc 1,27). No caso de Maria devemos unir os dois sentidos que a sua
maternidade virginal inclui: 1o) a gratuidade da Descendência,
obra exclusiva de Iahweh; 2o) o nascimento de Jesus, Filho de Deus,
de uma virgem, para que resulte inconfundível a condição
divina daquele que ao assumir a condição humana daria
origem à nova estirpe dos filhos de Deus.
A partir do v. 7 estamos diante de uma interpretação
teológica que Israel faz da sua história. Simulando
uma profecia, dentro de um contexto de uma aliança entre Deus
e Abrão atuada mediante um juramento imprecatório, pelo
qual quem faltasse aos compromissos se tornava merecedor da sorte
indicada por animais partidos ao meio, o Autor sagrado analisa tudo
o que aconteceu a partir do seu ancestral, Abrão, até
o seu tempo: Israel se tornou um povo porque esta foi a vontade de
Deus que se manifestou na extraordinariedade da libertação
da escravidão do Egito e da conquista da Palestina. Esse artifício
literário será
utilizado de forma mais ampla pelo profeta Daniel ao fazer a análise
teológica da história de Israel, a partir da deportação
para Babilônia até o seu tempo (sec. II A.C.). Outro
aspecto teológico aqui presente é a definição
de quando Deus castiga os povos (v.14): é quando a iniqüidade
atinge o seu cúmulo (v. 16). É o critério que
o Apocalipse assume para justificar a rejeição de Jerusalém
por parte do Cordeiro: "porque seus pecados se amontoaram até
os céus" (Ap. 17,5).
Pe. Fernando Capra |