O tema "clonagem" voltou à ordem do dia, depois do
recente anúncio da primeira clonagem humana, realizada nos
Estados Unidos. Reacendem-se os debates, focalizando principalmente
a questão ética: mesmo sendo cientificamente possível,
será que esse procedimento é certo? Será que
é lícito?
As opiniões se dividem. As pessoas mais ligadas à área
científica tendem a ver apenas o lado "técnico"
da questão, os aspectos biológicos, mostrando certa
dificuldade para acreditar que aquele "amontoado de células"
possa ser considerado uma pessoa humana. Alguns saem pela tangente,
considerando lícita apenas a chamada "clonagem terapêutica",
que não visa a reprodução de um ser humano, mas
apenas a produção de órgãos ou tecidos
para fins terapêuticos.
De modo geral, quase ninguém questiona a dignidade da pessoa
humana e seus direitos fundamentais (como o direito à vida),
embora nem todos os respeitem. O difícil, hoje em dia, é
definir quem é que tem o direito de ser considerado "pessoa
humana". Pode-se afirmar, com certeza, que um embrião
especialmente quando produzido por uma técnica artificial como
a clonagem é já um ser humano?
A Igreja, que continua a condenar firmemente qualquer tipo de procedimento
envolvendo a produção artificial, seleção
e eliminação de embriões humanos, é muitas
vezes acusada de intrometer-se em assuntos que não são
de sua competência.
Na verdade, porém, é o contrário que acontece:
são os cientistas que estão extrapolando o âmbito
específico de sua área. À ciência cabe
dizer e eventualmente demonstrar - que determinada técnica
é possível. Mas não lhe cabe dizer se esse procedimento
é moralmente lícito, ou definir em que momento exato
o embrião recebe uma alma espiritual, tornando-se então
uma pessoa humana com os mesmos direitos de qualquer outra. A ciência
simplesmente não tem condições de chegar a essas
definições, que abrangem o campo da ética, da
filosofia, da teologia. E é dentro desse campo que é
o seu que a Igreja se tem posicionado e defendido seu ponto de vista:
a destruição de uma vida inocente é sempre ilícita,
mesmo que seja para salvar outras vidas.
Ela sustenta também que já existe uma pessoa humana
desde o momento da fecundação, e isso com base em dados
científicos. Para a ciência, já não existe
hoje nenhuma dúvida de que, na célula-ovo que se forma
no ato da fecundação, já estão contidas
todas as informações genéticas necessárias
à constituição de um novo ser humano, independente
de seus pais, faltando apenas o desenvolvimento, da mesma forma que
uma criança pequena também não tem ainda todos
os seus órgãos plenamente desenvolvidos, nem virá
a ter, se não receber alimentação e condições
de vida adequadas, mas nem por isso é menos "gente"
que um adulto.
O fato de que, num embrião, as características "humanas"
são menos evidentes, torna a questão mais difícil,
mesmo do ponto de vista ético. Não se pode "provar"
a presença da alma num embrião, e por isso as opiniões
se dividem.
Mas a Igreja, como sempre, tem demonstrado notável lucidez
e clareza na análise da questão. Chamaram-me a atenção,
de modo especial, três colocações lidas recentemente
no jornal "O Lutador".
Na primeira delas, o Pe. Paschoal Rangel levanta este argumento digno
de Salomão: se não se pode provar que o embrião
é um ser humano, também não se pode provar que
não o seja... e, se existe dúvida, a própria
dúvida já constitui um impedimento ético. Por
exemplo, se um caçador está em dúvida se o vulto
que vislumbra atrás de uma moita é o animal procurado
ou o seu companheiro de caçada, terá o direito de atirar
"esperando" que se trate do animal? É claro que não!
Da mesma forma, a simples possibilidade mesmo que não seja
certeza de estar atingindo seres humanos já basta para tornar
anti-éticos os experimentos com embriões.
O segundo argumento (em artigo de Antonio Carlos Santini) é
de caráter científico: "Pouca gente comenta que
a ovelha Dolly já apresenta sintomas de envelhecimento precoce,
pois geneticamente o animal tem a idade da célula de onde provém,
e não apenas o tempo contado a partir do seu nascimento..."
Se é assim, trata-se de uma circunstância que torna inviável
a clonagem, ao menos enquanto método reprodutivo. Seria mais
ou menos o que acontece num filme cujo nome agora me escapa, estrelado
por Mel Gibson, no qual o herói aceita ser congelado vivo,
e "ressuscita" 50 anos depois. A princípio, apresenta-se
com a mesma aparência que tinha ao ser congelado, mas logo se
verifica um acelerado processo de envelhecimento. Em poucos meses,
o personagem atinge exatamente a idade real que teria se não
tivesse sido congelado. São "pequenos" obstáculos
que a ciência não faz questão de divulgar...
O terceiro argumento (no mesmo artigo de Santini), aponta uma dificuldade
de ordem técnica, lembrada pela pesquisadora genética
francesa Marie-Odille Réthoré: para criar a ovelha Dolly,
foram necessárias 275 tentativas. Para cada clonagem humana
bem-sucedida (mesmo para fins terapêuticos), terão sido
necessárias centenas de óvulos. Sendo que cada mulher
libera apenas um óvulo por mês durante a fase fértil
de sua vida, onde conseguir tantos óvulos? Seria necessário
submeter um imenso número de mulheres a tratamentos hormonais
para produzir mais óvulos, um pouco como as galinhas... e isso
para dar origem a um ser humano que, ainda por cima, teria unicamente
o código genético de seu pai, sendo a mulher doadora
do óvulo um mero instrumento nesse processo.
Tudo isso mostra que as coisas não são tão simples
quanto alguns apregoam. O preço a pagar pelo progresso pode
ser muito alto. O homem está longe de ser tão auto-suficiente
quanto gostaria...
Margarida Hulshof - Janeiro/2002
via e-mail: margarida@holnet.com.br |