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A Ilusão da Clonagem |FEVEREIRO

O tema "clonagem" voltou à ordem do dia, depois do recente anúncio da primeira clonagem humana, realizada nos Estados Unidos. Reacendem-se os debates, focalizando principalmente a questão ética: mesmo sendo cientificamente possível, será que esse procedimento é certo? Será que é lícito?

As opiniões se dividem. As pessoas mais ligadas à área científica tendem a ver apenas o lado "técnico" da questão, os aspectos biológicos, mostrando certa dificuldade para acreditar que aquele "amontoado de células" possa ser considerado uma pessoa humana. Alguns saem pela tangente, considerando lícita apenas a chamada "clonagem terapêutica", que não visa a reprodução de um ser humano, mas apenas a produção de órgãos ou tecidos para fins terapêuticos.

De modo geral, quase ninguém questiona a dignidade da pessoa humana e seus direitos fundamentais (como o direito à vida), embora nem todos os respeitem. O difícil, hoje em dia, é definir quem é que tem o direito de ser considerado "pessoa humana". Pode-se afirmar, com certeza, que um embrião especialmente quando produzido por uma técnica artificial como a clonagem é já um ser humano?

A Igreja, que continua a condenar firmemente qualquer tipo de procedimento envolvendo a produção artificial, seleção e eliminação de embriões humanos, é muitas vezes acusada de intrometer-se em assuntos que não são de sua competência.
Na verdade, porém, é o contrário que acontece: são os cientistas que estão extrapolando o âmbito específico de sua área. À ciência cabe dizer e eventualmente demonstrar - que determinada técnica é possível. Mas não lhe cabe dizer se esse procedimento é moralmente lícito, ou definir em que momento exato o embrião recebe uma alma espiritual, tornando-se então uma pessoa humana com os mesmos direitos de qualquer outra. A ciência simplesmente não tem condições de chegar a essas definições, que abrangem o campo da ética, da filosofia, da teologia. E é dentro desse campo que é o seu que a Igreja se tem posicionado e defendido seu ponto de vista: a destruição de uma vida inocente é sempre ilícita, mesmo que seja para salvar outras vidas.

Ela sustenta também que já existe uma pessoa humana desde o momento da fecundação, e isso com base em dados científicos. Para a ciência, já não existe hoje nenhuma dúvida de que, na célula-ovo que se forma no ato da fecundação, já estão contidas todas as informações genéticas necessárias à constituição de um novo ser humano, independente de seus pais, faltando apenas o desenvolvimento, da mesma forma que uma criança pequena também não tem ainda todos os seus órgãos plenamente desenvolvidos, nem virá a ter, se não receber alimentação e condições de vida adequadas, mas nem por isso é menos "gente" que um adulto.

O fato de que, num embrião, as características "humanas" são menos evidentes, torna a questão mais difícil, mesmo do ponto de vista ético. Não se pode "provar" a presença da alma num embrião, e por isso as opiniões se dividem.

Mas a Igreja, como sempre, tem demonstrado notável lucidez e clareza na análise da questão. Chamaram-me a atenção, de modo especial, três colocações lidas recentemente no jornal "O Lutador".

Na primeira delas, o Pe. Paschoal Rangel levanta este argumento digno de Salomão: se não se pode provar que o embrião é um ser humano, também não se pode provar que não o seja... e, se existe dúvida, a própria dúvida já constitui um impedimento ético. Por exemplo, se um caçador está em dúvida se o vulto que vislumbra atrás de uma moita é o animal procurado ou o seu companheiro de caçada, terá o direito de atirar "esperando" que se trate do animal? É claro que não! Da mesma forma, a simples possibilidade mesmo que não seja certeza de estar atingindo seres humanos já basta para tornar anti-éticos os experimentos com embriões.

O segundo argumento (em artigo de Antonio Carlos Santini) é de caráter científico: "Pouca gente comenta que a ovelha Dolly já apresenta sintomas de envelhecimento precoce, pois geneticamente o animal tem a idade da célula de onde provém, e não apenas o tempo contado a partir do seu nascimento..."
Se é assim, trata-se de uma circunstância que torna inviável a clonagem, ao menos enquanto método reprodutivo. Seria mais ou menos o que acontece num filme cujo nome agora me escapa, estrelado por Mel Gibson, no qual o herói aceita ser congelado vivo, e "ressuscita" 50 anos depois. A princípio, apresenta-se com a mesma aparência que tinha ao ser congelado, mas logo se verifica um acelerado processo de envelhecimento. Em poucos meses, o personagem atinge exatamente a idade real que teria se não tivesse sido congelado. São "pequenos" obstáculos que a ciência não faz questão de divulgar...

O terceiro argumento (no mesmo artigo de Santini), aponta uma dificuldade de ordem técnica, lembrada pela pesquisadora genética francesa Marie-Odille Réthoré: para criar a ovelha Dolly, foram necessárias 275 tentativas. Para cada clonagem humana bem-sucedida (mesmo para fins terapêuticos), terão sido necessárias centenas de óvulos. Sendo que cada mulher libera apenas um óvulo por mês durante a fase fértil de sua vida, onde conseguir tantos óvulos? Seria necessário submeter um imenso número de mulheres a tratamentos hormonais para produzir mais óvulos, um pouco como as galinhas... e isso para dar origem a um ser humano que, ainda por cima, teria unicamente o código genético de seu pai, sendo a mulher doadora do óvulo um mero instrumento nesse processo.

Tudo isso mostra que as coisas não são tão simples quanto alguns apregoam. O preço a pagar pelo progresso pode ser muito alto. O homem está longe de ser tão auto-suficiente quanto gostaria...

Margarida Hulshof - Janeiro/2002
via e-mail: margarida@holnet.com.br
 
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