Introdução ao Novo Testamento
Sinóticos
As semelhanças entre Marcos, Mateus e Lucas são tantas
que se podem transcrever em três colunas paralelas, permitindo
assim uma visão de conjunto, com um só olhar, ou Sinopse
(syn= conjunto, hopsis = visão) quer das semelhanças,
quer das diferenças entre eles. Por este aspecto, convencionou-se
chamá-los Evangelhos Sinóticos.
Um levantamento aproximado do número de versículos pode
ser assim resumido:
Mt Mc Lc
Comum aos três 330 330 330
Comum a Mt / Mc 178 178
Comum a Mt / Lc 230 230
Comum a Mc / Lc 100 100
Próprio de cada um 330 53 500
Nos Sinóticos, os fatos e atos de Jesus e seus ensinamentos
às multidões através da Galiléia, Judéia
e Jerusalém representam perto de ¾ dos sinóticos
e apenas a metade em João. Os últimos dias, os diálogos
com os discípulos e as narrativas da Paixão ocupam
¼ dos Sinóticos e perto da metade de João.
São nas narrativas da aparição após
a Ressurreição que se apresentam as maiores diferenças
entre os Evangelhos: seja em relação ao calendário,
aos lugares, aos modos de aparição, seja em relação
à própria escolha dos episódios.
Dos sete milagres (sinais) que João conta, só dois
são comuns aos outros: a multiplicação dos
pães e o caminhar sobre o lago. Mas a maior diferença
está nos discursos, que em João obedecem a um tema
unificador, partindo de um acontecimento ou de um diálogo
pessoal até alcançar uma grande profundidade doutrinal.
As diferenças de conteúdo e de estrutura são
relativamente pequenas nos Sinóticos mas relativamente grandes
entre estes e João, mas é sempre o mesmo Jesus e a
mesma mensagem vistos de perspectivas diferentes.
Quanto às datas, não as temos de modo preciso, pois
há opiniões diferentes. Para alguns o primeiro a escrever
foi Mateus, em Israel e em aramaico em 50, tendo sido traduzido
para o grego em 80, porque o aramaico havia entrado em desuso; o
original aramaico se perdeu. Esta redação serviu de
base para Marcos que teria escrito por volta de 65/70 e para Lucas
que escreveu em 75. Alguns identificam o Mateus aramaico com a fonte
Quelle (Q).
Para outros o primeiro escrito foi de Marcos que teria escrito pelo
fim da vida de Pedro , por volta de 64-70 uma vez que não
supõe a ruina de Jerusalém. Mateus e Lucas também
seriam anteriores a queda da cidade, e se utilizariam de Marcos
e da fonte Q. Lucas escreveu os Atos em 63 e o seu Evangelho antes,
ora Marcos é anterior a Lucas, o que o levaria aos anos 60.
Mateus na sua forma grega é posterior a Marcos , mas anterior
a 70, ano da queda da cidade de Jerusalém.
Dá para se perceber que o assunto é complexo e ainda
está em aberto.
Etapas do Evangelho
Podemos observar três etapas na divulgação dos
Evangelhos:
1 de Jesus aos apóstolos através de sua vida e de
sua palavra. É a base sólida dos quatro Evangelhos.
Antes da Páscoa, a compreensão dos ouvintes era lenta;
depois de Pentecostes os apóstolos, guiados pelo Espírito
Santo, passaram a entender mais claramente a divindade de Jesus
e o profundo sentido de sua mensagem de salvação.
2 dos apóstolos às comunidades a primeira pregação
kerigma e a catequese dos apóstolos e colaboradores tem como
núcleo a vitória de Jesus sobre o pecado e a morte.
A este núcleo se acrescentam, principalmente, as narrações
de milagres que comprovam o poder de Jesus e as parábolas
que manifestam a doutrina de Jesus sob a forma de catequese. Esta
etapa influenciou decisivamente a forma que o Evangelho escrito
viria a tomar. Na pregação havia uma adaptação
aos diversos ambientes nos quais ela se realizava, de acordo com
a necessidade, a fim de se tornar mais viva e significativa.
A catequese (didakhe) era para a formação dos convertidos
para um maior esclarecimento da fé visando uma vivência
cristã mais perfeita e para poderem dar as razões
da sua esperança (1Pd 3,15). Os primeiros cristãos
tinham um grande desejo de conhecer em pormenores a vida do Senhor,
sobretudo as suas palavras, os seus milagres, a sua pessoa, particularmente
o que se referia à sua Paixão, Morte e Ressurreição.
Um aspecto importante a se ter em conta é a preponderância
e a autoridade dos apóstolos, principalmente o papel de Pedro,
colocado pelo Senhor à frente do Colégio Apostólico
(Mt 16,13-19; Lc 22,32 e Jo 21,15-17 ). Podemos observar que o Evangelho
de Marcos, de certa maneira, é o "Evangelho de Pedro",
de quem Marcos o ouviu diretamente e serviu de fonte para os outros
evangelistas, e também o fato de Pedro ter pregado em Jerusalém
e Antioquia, comunidades onde surgiram os Evangelhos de Mateus e
Lucas.
3 das comunidades cristãs aos evangelistas à medida
que iam pregando o Evangelho, os apóstolos experimentaram
a necessidade de deixar por escrito ao menos algumas partes do mesmo:
palavras, milagres e ditos de Jesus a fim de facilitar a aprendizagem
dos discípulos.
Durante quarenta anos formaram-se tradições orais
que conservavam e transmitiam, por meio da pregação,
da liturgia e da catequese, todas a matérias com que nos
deparamos nos Evangelhos.
A partir do momento em que os testemunhos da primeira hora começaram
a desaparecer surgiu a preocupação de conservar por
escrito os diversos ensinamentos, sistematizando os diversos fragmentos
da pregação evangélica. Lucas (1,1) afirma
que muitos se propuseram a escrever antes dele. Das diversas compilações,
quatro foram reconhecidas pela Igreja como inspiradas por Deus.
Os autores serviram-se da pregação apostólica,
do material escrito anteriormente mas não como meros compiladores
e sim como autores, imprimindo um cunho pessoal, uma ordem e uma
redação apropriados aos seus leitores imediatos, de
acordo com a necessidade deles. Em função disto, os
Evangelhos revelam uma determinada visão teológica
própria e uma particular preocupação doutrinal.
Eles selecionaram o que lhes pareceu mais importante, resumiram
e agruparam elementos discursivos e narrativos à volta de
um tema ou de um lugar. Em todo este trabalho foram guiados e iluminados
pelo Espírito Santo sem lhes alterar a personalidade ou seus
cunhos pessoais de escritores.
Credibilidade
Inicialmente é bom lembrar que os evangelistas escreveram
para um público de fiéis. Portanto, o que mais interessava
era o sentido e não a historicidade das palavras e atos de
Jesus. Isto não implica em que os eventos históricos
não sejam importantes. Há uma relação
entre os fatos e os personagens. Exemplo: Augusto, Tibério,
Poncio Pilatos, Herodes, Anãs e Caifás, etc. E também
dados geográficos: Tiberíades, Cafarnaúm, Cesaréia,
Belém; assim como costumes (túnicas, sandálias)
e o quadro religioso (a Lei e os Profetas).
Os Evangelhos manifestam um claro interesse pela atividade terrena
de Jesus sem, contudo, atribuir-lhe uma cronologia ou topografia
precisa. Exemplo: naquele tempo, depois, em seguida, em casa, sobre
a montanha, etc.
A imagem de Jesus não foi desfigurada nem alterada. Os Evangelhos
começaram a ser redigidos apenas uns trinta anos depois da
vida terrena de Jesus, quando ainda viviam muitas testemunhas oculares.
A mensagem de Jesus se propagou com o acompanhamento dos apóstolos.
Exemplo: Pedro e João vão à Samaria, Barnabé
vai à Antioquia, conforme vemos nos Atos dos Apóstolos,
e Paulo mantinha correspondência com as diversas comunidades
por ele fundadas.
Paulo faz referências a fábulas, mitos e erros, dizendo
que cuidou para que não se misturassem com a doutrina autêntica
os muitos erros e desvios ocorridos. Eles foram recolhidos na literatura
apócrifa, cujo estilo é, evidentemente, imaginoso
e fictício.
A Igreja teve a assistência do Espírito Santo para
discernir claramente a autenticidade ou não das doutrinas
propostas aos cristãos. No século II a Igreja chega
à consciência de que os Evangelhos, como documentos
escritos, contém de fato, de modo garantido, o Evangelho,
a Boa Nova de Cristo como Palavra de Deus. Os Evangelhos são
uma pregação da fé em Jesus. Deve-se ter em
conta que a fé não contamina os fatos mas, antes,
ilumina-os no seu verdadeiro significado. Podemos afirmar que o
Jesus da história é o Cristo da fé.
Que o estudo dos Evangelhos nos leve a, cada vez mais, conhecer,
amar e louvar Jesus.
Jane do Tércio
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