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Vamos conhecer a Bíblia |FEVEREIRO

Introdução ao Novo Testamento

Sinóticos
As semelhanças entre Marcos, Mateus e Lucas são tantas que se podem transcrever em três colunas paralelas, permitindo assim uma visão de conjunto, com um só olhar, ou Sinopse (syn= conjunto, hopsis = visão) quer das semelhanças, quer das diferenças entre eles. Por este aspecto, convencionou-se chamá-los Evangelhos Sinóticos.
Um levantamento aproximado do número de versículos pode ser assim resumido:

Mt Mc Lc
Comum aos três 330 330 330
Comum a Mt / Mc 178 178
Comum a Mt / Lc 230 230
Comum a Mc / Lc 100 100
Próprio de cada um 330 53 500

Nos Sinóticos, os fatos e atos de Jesus e seus ensinamentos às multidões através da Galiléia, Judéia e Jerusalém representam perto de ¾ dos sinóticos e apenas a metade em João. Os últimos dias, os diálogos com os discípulos e as narrativas da Paixão ocupam ¼ dos Sinóticos e perto da metade de João.
São nas narrativas da aparição após a Ressurreição que se apresentam as maiores diferenças entre os Evangelhos: seja em relação ao calendário, aos lugares, aos modos de aparição, seja em relação à própria escolha dos episódios.
Dos sete milagres (sinais) que João conta, só dois são comuns aos outros: a multiplicação dos pães e o caminhar sobre o lago. Mas a maior diferença está nos discursos, que em João obedecem a um tema unificador, partindo de um acontecimento ou de um diálogo pessoal até alcançar uma grande profundidade doutrinal.
As diferenças de conteúdo e de estrutura são relativamente pequenas nos Sinóticos mas relativamente grandes entre estes e João, mas é sempre o mesmo Jesus e a mesma mensagem vistos de perspectivas diferentes.
Quanto às datas, não as temos de modo preciso, pois há opiniões diferentes. Para alguns o primeiro a escrever foi Mateus, em Israel e em aramaico em 50, tendo sido traduzido para o grego em 80, porque o aramaico havia entrado em desuso; o original aramaico se perdeu. Esta redação serviu de base para Marcos que teria escrito por volta de 65/70 e para Lucas que escreveu em 75. Alguns identificam o Mateus aramaico com a fonte Quelle (Q).
Para outros o primeiro escrito foi de Marcos que teria escrito pelo fim da vida de Pedro , por volta de 64-70 uma vez que não supõe a ruina de Jerusalém. Mateus e Lucas também seriam anteriores a queda da cidade, e se utilizariam de Marcos e da fonte Q. Lucas escreveu os Atos em 63 e o seu Evangelho antes, ora Marcos é anterior a Lucas, o que o levaria aos anos 60. Mateus na sua forma grega é posterior a Marcos , mas anterior a 70, ano da queda da cidade de Jerusalém.
Dá para se perceber que o assunto é complexo e ainda está em aberto.

Etapas do Evangelho
Podemos observar três etapas na divulgação dos Evangelhos:
1 de Jesus aos apóstolos através de sua vida e de sua palavra. É a base sólida dos quatro Evangelhos. Antes da Páscoa, a compreensão dos ouvintes era lenta; depois de Pentecostes os apóstolos, guiados pelo Espírito Santo, passaram a entender mais claramente a divindade de Jesus e o profundo sentido de sua mensagem de salvação.
2 dos apóstolos às comunidades a primeira pregação kerigma e a catequese dos apóstolos e colaboradores tem como núcleo a vitória de Jesus sobre o pecado e a morte. A este núcleo se acrescentam, principalmente, as narrações de milagres que comprovam o poder de Jesus e as parábolas que manifestam a doutrina de Jesus sob a forma de catequese. Esta etapa influenciou decisivamente a forma que o Evangelho escrito viria a tomar. Na pregação havia uma adaptação aos diversos ambientes nos quais ela se realizava, de acordo com a necessidade, a fim de se tornar mais viva e significativa.
A catequese (didakhe) era para a formação dos convertidos para um maior esclarecimento da fé visando uma vivência cristã mais perfeita e para poderem dar as razões da sua esperança (1Pd 3,15). Os primeiros cristãos tinham um grande desejo de conhecer em pormenores a vida do Senhor, sobretudo as suas palavras, os seus milagres, a sua pessoa, particularmente o que se referia à sua Paixão, Morte e Ressurreição.
Um aspecto importante a se ter em conta é a preponderância e a autoridade dos apóstolos, principalmente o papel de Pedro, colocado pelo Senhor à frente do Colégio Apostólico (Mt 16,13-19; Lc 22,32 e Jo 21,15-17 ). Podemos observar que o Evangelho de Marcos, de certa maneira, é o "Evangelho de Pedro", de quem Marcos o ouviu diretamente e serviu de fonte para os outros evangelistas, e também o fato de Pedro ter pregado em Jerusalém e Antioquia, comunidades onde surgiram os Evangelhos de Mateus e Lucas.
3 das comunidades cristãs aos evangelistas à medida que iam pregando o Evangelho, os apóstolos experimentaram a necessidade de deixar por escrito ao menos algumas partes do mesmo: palavras, milagres e ditos de Jesus a fim de facilitar a aprendizagem dos discípulos.
Durante quarenta anos formaram-se tradições orais que conservavam e transmitiam, por meio da pregação, da liturgia e da catequese, todas a matérias com que nos deparamos nos Evangelhos.
A partir do momento em que os testemunhos da primeira hora começaram a desaparecer surgiu a preocupação de conservar por escrito os diversos ensinamentos, sistematizando os diversos fragmentos da pregação evangélica. Lucas (1,1) afirma que muitos se propuseram a escrever antes dele. Das diversas compilações, quatro foram reconhecidas pela Igreja como inspiradas por Deus.
Os autores serviram-se da pregação apostólica, do material escrito anteriormente mas não como meros compiladores e sim como autores, imprimindo um cunho pessoal, uma ordem e uma redação apropriados aos seus leitores imediatos, de acordo com a necessidade deles. Em função disto, os Evangelhos revelam uma determinada visão teológica própria e uma particular preocupação doutrinal. Eles selecionaram o que lhes pareceu mais importante, resumiram e agruparam elementos discursivos e narrativos à volta de um tema ou de um lugar. Em todo este trabalho foram guiados e iluminados pelo Espírito Santo sem lhes alterar a personalidade ou seus cunhos pessoais de escritores.

Credibilidade
Inicialmente é bom lembrar que os evangelistas escreveram para um público de fiéis. Portanto, o que mais interessava era o sentido e não a historicidade das palavras e atos de Jesus. Isto não implica em que os eventos históricos não sejam importantes. Há uma relação entre os fatos e os personagens. Exemplo: Augusto, Tibério, Poncio Pilatos, Herodes, Anãs e Caifás, etc. E também dados geográficos: Tiberíades, Cafarnaúm, Cesaréia, Belém; assim como costumes (túnicas, sandálias) e o quadro religioso (a Lei e os Profetas).
Os Evangelhos manifestam um claro interesse pela atividade terrena de Jesus sem, contudo, atribuir-lhe uma cronologia ou topografia precisa. Exemplo: naquele tempo, depois, em seguida, em casa, sobre a montanha, etc.
A imagem de Jesus não foi desfigurada nem alterada. Os Evangelhos começaram a ser redigidos apenas uns trinta anos depois da vida terrena de Jesus, quando ainda viviam muitas testemunhas oculares.
A mensagem de Jesus se propagou com o acompanhamento dos apóstolos. Exemplo: Pedro e João vão à Samaria, Barnabé vai à Antioquia, conforme vemos nos Atos dos Apóstolos, e Paulo mantinha correspondência com as diversas comunidades por ele fundadas.
Paulo faz referências a fábulas, mitos e erros, dizendo que cuidou para que não se misturassem com a doutrina autêntica os muitos erros e desvios ocorridos. Eles foram recolhidos na literatura apócrifa, cujo estilo é, evidentemente, imaginoso e fictício.
A Igreja teve a assistência do Espírito Santo para discernir claramente a autenticidade ou não das doutrinas propostas aos cristãos. No século II a Igreja chega à consciência de que os Evangelhos, como documentos escritos, contém de fato, de modo garantido, o Evangelho, a Boa Nova de Cristo como Palavra de Deus. Os Evangelhos são uma pregação da fé em Jesus. Deve-se ter em conta que a fé não contamina os fatos mas, antes, ilumina-os no seu verdadeiro significado. Podemos afirmar que o Jesus da história é o Cristo da fé.
Que o estudo dos Evangelhos nos leve a, cada vez mais, conhecer, amar e louvar Jesus.

Jane do Tércio

 
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