- Carta aos Romanos (10) “Tenhamos paz com Deus” (Rm 5)
Depois de ter argumentado sobre a fé como único meio para a justificação (1,18-4,25), Paulo exorta os fiéis de Roma a ter paz com Deus, isto é, “a guardar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz” (Ef 4,3), através da ação do Senhor da Igreja, que é capaz de realizar em nós a plenitude da graça, para que cheguemos a cooperar na edificação da Igreja, seu Corpo, e alcançar a vida eterna. Por Ele obtivemos a reconciliação. Pela presença da Glória de Deus em nós, portanto, esperamos a manifestação da mesma. Procuremos, então, nos diz o Apóstolo, passar de uma condição de glória, que é a presença em nós do Espírito que nos foi doado, merecido pela justificação, para uma condição ainda mais perfeita, qual fundamentada numa esperança que não poderá ser confundida, nos associando a Cristo na sua Paixão para que em nós desponte a Vida no Espírito com todos os seus frutos: “amor, alegria e paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, autodomínio” (Gl 5,22s). É sobre este tema que Paulo começa a dissertar, nos lembrando, mais uma vez, a graça que Deus nos concedeu pela imolação de Cristo. Ela é fruto do seu amor que se manifestou na Morte de Cristo em favor de nós pecadores. Portanto, uma vez que fomos justificados pelo Sangue de Cristo, podemos alcançar com maior segurança a nossa salvação porque estamos na condição de reconciliados e de quem vive a vida por Ele merecida, enquanto a promovemos associando-nos aos seus sofrimentos.
Após ter-nos dado a motivação fundamental, para nos explicar a importância da graça que recebemos mediante a justificação, Paulo recorre ao paralelismo, por contraste, entre Cristo Jesus e o Adão de Gn 3, “que é o tipo daquele que devia vir” (5,14). Por causa da desobediência de Adão, o pecado entrou no mundo e, com o pecado a morte. Consequentemente, todos conheceram a morte e nela pecaram. De forma semelhante, aconteceu o mesmo quanto à graça. Merecida pela obediência do homem Cristo Jesus, ela foi estendida a todos os homens, para que reinassem na vida.
Por essa página da carta aos romanos, podemos notar o vigor do pensamento de Paulo. Ele não se limita a anunciar uma verdade.
A eviscera para nela descobrir todos os valores. Podemos também definir a forma segundo a qual procede o seu raciocínio.
Cada argumentação está ligada àquela que a precede por uma palavra gancho, que se encontra na última sentença da argumentação anterior. Em terceiro lugar, Paulo insiste sobre o tema principal até esgotar todos os seus aspectos. O que, de fato, dificulta a nossa compreensão é a forma técnica com que Paulo utiliza os termos. As traduções nos desencaminham porque utilizam as variantes que os sinônimos oferecem. Com isso, nos escapa o sentido doutrinal preciso que Paulo, de fato, quer nos apresentar, enquanto devaneamos em interpretações às quais nos induzem os sinônimos utilizados pelo tradutor.
É com Rm 5 que Paulo entra, de forma definitiva, na reflexão sobre o Evangelho, a Palavra da Verdade que deve habitar em nós abundantemente (Cl 3,16), a fim de colher o fruto de um dom espiritual pelo qual a sua e a fé dos fiéis de Roma seja fortalecida (Rm 1,12). Quando fala das tribulações que devem ser suportadas na constância, parece de estarmos escutando aquele que acabou de escrever a 2 Cor, no fim do ano 57, na qual, por extenso, explica a beleza da vida cristã que, pelos sofrimentos, se abre à esperança da vida eterna (2Cor 4-5). A reflexão de Rm 5 é o começo de um pensamento teológico que se estenderá até o fim de Rm 8 e que apresenta a vida cristã em toda a sua dignidade e beleza, no intuito de nos motivarmos a vivê-la com toda convicção.
Perguntas para uma reflexão:
1ª) Qual é o sentido de “Justificados pela fé, tenhamos paz com Deus” (Rm 5,1)?
2ª) De que forma podemos desenvolver a vida divina recebida pela nossa fé em Cristo?
3ª) Em que sentido o Adão pecador é figura de Cristo?
Pe. Fernando Capra/CRSP |