Breve histórico
Outro modelo bastante interessante de lucernário é o da Festa da Apresentação do Senhor, celebrada entre nós, cristãos latinos, no dia 02 de fevereiro. A festa de origem oriental, Hypapante ou "Encontro", encontra os testemunhos mais antigos nos relatos de Egéria (século IV): "Efetivamente, nesse dia, vai-se processionalmente à Anastasis (Igreja da Ressurreição), com a participação de todos no ato. Tudo se desenvolve em grande festa, como na Páscoa. Todos os sacerdotes pregam, inclusive o bispo, comentando sempre aquela passagem evangélica que descreve como, aos quarenta dias, José e Maria levaram o Senhor ao Templo e como Simeão e a profetisa Ana, filha de Fanuel, encontraram-se com ele, recordando as palavras que pronunciaram ao ver o Senhor, assim como a oferenda que seus pais fizeram. Depois de ter cumprido, conforme o ritual, as cerimónias de costume, celebram-se os Mistérios (a sagrada liturgia) e tem lugar a despedida". Essa festa foi introduzida em Roma pelo Papa Sérgio (séculos VII-VIII).
O simbolismo do luz
A introdução das velas na procissão, que valeu à festa o título de Festa de Nossa Senhora das Candeias, foi sugestão de uma senhora romana chamada Ikelia, entre 450-457. Mas é mais firme o testemunho deixado por Cirilo de Alexandria (século V), que, no dia da festa, exortava assim os fiéis: "Festejemos, de maneira esplendorosa, com lâmpadas brillhates, o mistério deste dia".
Sabe-se que já nessa época eram utilizadas luzes e tochas.
Entre os romanos, tal festa encontrou na festa pagã das lupercais um terreno fértil para a inculturação da fé. Assunto que já tratamos anteriormente. O comentário do atual Missal Romano esclarece que a simbologia da luz é própria da Gália "com a solene bênção e procissão das velas, popularmente conhecida como a 'candelária'", recebendo, em Roma, um aspecto mais penitenciai.
Do Natal à Páscoa
A apresentação do Senhor, que originalmente se localizava quarenta dias após a solenidade da epifania, marca o final das comemorações natalinas e aponta para as festas pascais. Não é impossível deduzir essa sugestão nos textos litúrgicos da Igreja latina. No convite antes da procissão, o padre diz: "Irmãos e irmãs, há quarenta dias celebrávamos, com alegria, o Natal do Senhor [...] Também nós, reunidos pelo Espírito Santo, vamos nos dirigir à casa de Deus, ao encontro de Cristo. Nós o encontraremos e reconheceremos na fração do pão, enquanto esperamos sua vinda na glória". As orações de bênção das velas sutilmente também sugerem o mesmo: "Ó Deus, luz verdadeira, fonte e princípio da luz eterna, fazei brilhar no coração de vossos fiéis a luz que não se extingue, para que, iluminados por estas velas, no vosso templo santo, cheguemos ao esplendor da vossa glória".
Ao encontro do Senhor
A procissão que tem início propõe o cântico de Simeão, com a seguinte antífona do próprio cântico: "uma luz que brilhará para os gentios e para a glória de Israel, o vosso povo". O rumar para a igreja, no início da celebração, entoando o cântico do velho profeta que, no fim dos seus dias, pediu paz, por ter visto a salvação, nos alegra e encaminha para a liturgia. Para o Cristo rumamos, nele encontramos nossa paz. Nele, que é nossa luz e salvação, temos nosso repouso. Em alegre caminhar, durante a noite, de velas acesas, proclamamos ritualmente que já vimos a salvação e que em nossa vida inteira ansiamos a paz prometida.
Padre Danilo César dos Santos Lima - Do Jornal Opinião |