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Vamos conhecer a Bíblia |FEVEREIRO


- Apocalipse I

Introdução

O Apocalipse fecha a coleção dos livros da Sagrada Escritura e é o único dentro do Novo Testamento de caráter profético. A Igreja recorreu a ele com freqüência, sobretudo na Liturgia, para cantar o triunfo de Cristo ressuscitado e o esplendor da Jerusalém celestial símbolo da Igreja no seu estado glorioso.

Estamos diante de um livro, considerado pela maioria dos leitores como o mais difícil de compreender e o mais misterioso de toda a Bíblia. Ele é, com efeito, bastante enigmático e profundo, mas sua interpretação pode tornar-se mais clara, se se levar em conta, de um lado, o gênero literário utilizado pelo autor e, de outro, a circunstancia em que a obra foi escrita.

É um livro difícil e profundo, mas ao mesmo tempo as suas palavras iluminam intensamente a figura de Cristo glorioso e despertam a esperança da vida eterna. É o livro da consolação e da esperança dos cristãos. Lemos em 1,3: “ Feliz aquele que lê e ouve as palavras desta profecia”.

Autenticidade e Canonicidade

O autor do Apocalipse chama a si mesmo João e apresenta-se como profeta. Ele devia ser um homem superior e bem conhecido dos destinatários do livro e gozar de uma excepcional autoridade.
Tanto poderia ser o Apóstolo João ou um dos discípulos pertencentes à sua escola e neste caso ficaria o Apóstolo como fonte inspiradora.

O Apocalipse pertence ao grupo dos livros deuterocanônicos, isto é, daqueles escritos que durante certo tempo não foram recebidos como sagrados por todas as comunidades cristãs. Não obstante, os testemunhos mais antigos, que se remontam ao século II, são unânimes em reconhecer o Apóstolo João como autor do livro. Também em fins do século II, o Cânon de Muratori o inclui na sua lista de livros sagrados. Reconhecemos que a Igreja incluiu esse escrito na Escritura porque ele realmente contém uma visão autêntica e importante
O Magistério, em diversas ocasiões, pronunciou-se a favor da autenticidade e canonicidade do Apocalipse. Assim acontece nos Concílios de Hipona (393), Cartago (397) e Toledo (633).
Posteriormente reafirmaram esta doutrina os Concílios ecumênicos de Florença e de Trento. Reconhecemos que a Igreja incluiu esse escrito na Escritura porque ele realmente contém uma visão autêntica e importante da fé cristã.

Mas enquanto a Igreja definiu dogmaticamente a canonicidade, não se pronunciou com a mesma força sobre quem foi o seu autor ou como se redigiu. Por enquanto será melhor aguardar os resultados de pesquisas mais detalhadas e profundas.

Contexto Histórico e Data

É indispensável, para bem compreender o Apocalipse, recolocá-lo no ambiente histórico que lhe deu origem: um período de perturbações e de violentas perseguições contra a Igreja nascente.

A penetração cristã na Ásia Menor tinha começado muito cedo, talvez por meio daqueles judeus procedentes da Ásia que estavam presentes no dia de Pentecostes em Jerusalém.

As comunidades cristãs da Ásia Menor viviam naquela época uma situação de dupla crise, muito perigosa. A crise religiosa interna devia-se ao fato de que a segunda geração cristã mostrava-se muito menos propensa ao entusiasmo original por Cristo, em comparação com a “geração da conversão” que a havia precedido. Assim, difundia-se nas comunidades um sensível sentido de indiferença. Essa situação de congelamento da primavera religiosa encontra expressão, entre outras coisas, na carta à Igreja de Éfeso, que afirma: “Devo reprovar-te, contudo, por teres abandonado teu primeiro amor. Recorda-te, pois, de onde caíste, converte-te e retoma a conduta de outrora” (Ap 2,4-5). A crise interna da Igreja foi agravada ainda mais por fenômenos de divisão e de movimentos de grupos fanáticos.

Os primeiros cristãos viviam numa ansiosa expectativa do retorno de Cristo, expectativa ainda não realizada 60 anos depois de sua morte. A Parusia esperada se faz esperar, e o prolongamento da espera suscita, em alguns, meios termos e tibieza, em outros desencorajamento, hesitação ou impaciência. Era natural que alguns vacilassem.

A crise devida a motivos externos de ordem política, abrangendo também profundas perturbações e incertezas de caráter religioso, remontava à experiência de impotência das comunidades cristãs diante das perseguições e sobretudo diante da pretensão do imperador romano de ser adorado como “Senhor (Kyrios) e Deus”. Muitos cristãos, cuja fé já era vacilante, viram-se colocados diante da interrogação existencial se Jesus Cristo era efetivamente tão poderoso como haviam proclamado e glorificado. Os duros fatos da perseguição e do superpoder do imperador romano não depunham contra a verdade de fé de que só Jesus Cristo era Senhor do mundo e garantia da paz e do futuro?

Para conhecer o contexto histórico da época, há que considerar as perseguições de Roma contra o cristianismo. Em 64 o imperador Nero declarou ilícito o nome de cristão, desencadeando então forte perseguição aos discípulos de Cristo. Os judeus por sua vez, hostilizavam-nos.

À medida que foi adquirindo força o culto divino aos imperadores, os cristãos iam encontrando mais dificuldades para serem fiéis à sua fé. Quando o imperador Domiciano subiu ao trono, além de mover nova perseguição aos cristãos, as circunstâncias adversas pioraram, pois este déspota exigia honras divinas sob pena capital. E isto se tornou o teste da lealdade política: todo bom cidadão devia dele participar. Os cristãos professavam a existência de um só Deus e um só Senhor e recusavam esta nova forma de idolatria que é o culto imperial e a não obediência os levaria ao martírio. Para bem compreender o Apocalipse, é preciso que esta situação seja lembrada.

Das sete Igrejas às quais João escreve, só de duas temos notícias de que se prestasse então culto ao imperador: Tiatira e Laodicéia. Mas Éfeso, além do seu importante culto imperial, tinha um templo famoso dedicado à deusa Ártemis.

No momento em que João escreve, a Igreja, o novo povo eleito, acaba de ser dizimada por uma sangrenta perseguição (Ap 13; 6,10-11; 16,6; 17,6), desencadeada por Roma e pelo império romano (a Besta), mas por instigação de Satanás (Ap 12;13,2-4), o Adversário por excelência de Cristo e do seu povo.

Por isso, as cartas dirigidas às Igrejas e todo o livro procuravam encorajá-las a perseverar. Deus continua soberano, não obstante as aparências. É Cristo o Senhor da história, não o imperador, ele tem em mãos a chave do destino e virá para julgar. Um futuro glorioso e fantástico espera o crente fiel e em particular os que dão a vida por Cristo. Este mundo e tudo o que nele passa está nas mãos de Deus, que ama seu povo e dele cuida.

À medida que passava o tempo, o cristianismo difundia-se, mas simultaneamente crescia a aversão e a violência contra os cristãos. João sofre diante dessa situação, e iluminado pelo Espírito Santo, trata de fazer compreender aos fiéis que, no fim, Jesus Cristo, o Cordeiro de Deus, triunfará para sempre sobre os seus inimigos. Entretanto, trava-se a grande luta, em que os cristãos de todos os tempos estão implicados. Nessa guerra com freqüência torna-se vencedor o inimigo, mas o seu triunfo é transitório, aparente. Na realidade acontece tudo ao contrário: naquilo em que o cristão parece ser abatido, no seu martírio e sofrimento, nisso mesmo vence e triunfa.

No início do livro do Apocalipse encontramos as circunstancias em que o autor recebe a revelação divina: “Eu, João... encontrava-me na ilha de Patmos, por causa da palavra de Deus e do testemunho de Jesus. Num domingo, caindo em êxtase, ouvi atrás de mim uma voz forte...” (Ap 1,9-10). Com efeito, foi a partir do ano 71 que o primeiro dia da semana cristã começou a chamar-se “Dies Domini”, “Dia do Senhor” ou “Domingo”. A vida das comunidades da Ásia Menor, refletida na Apocalipse, supõe um maior desenvolvimento que o das igrejas de que falam outro escritos do Novo Testamento de época anterior . Por tudo isso, a data de composição aproximada do ano 95, assinalada pela tradição, é verosímil e aceitável.

Continua

Jane do Tércio

 
 
 

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