O medo nos espanta. É difícil ver uma criança chorar, mas é pior ainda vê-la a tremer. Nossa reação é espontânea: chegar perto, dar a mão, falar com tranqüilidade e doçura. Quando o medo passa, a criança se acalma e, talvez, até durma. Somos poderosos ante o medo infantil.
Em Jesus, temos um aliado contra o medo adulto. A mula-sem-cabeça não existe, mas a morte e a doença sim; quem vai tirar de nós essa angústia? Não pensemos que estamos condenados a esse sofrimento ante o desconhecido. O mesmo Pai que nos criou pessoas livres, capazes de errar e optar pelo mal, nos deu também uma poderosa arma contra esse sentimento de impotência: a fé.
Não uma vez, mas muitas, Jesus nos diz nos evangelhos para não temermos. é diante do perigo autêntico e, além de real, ainda agravado pelo imaginário do povo hebreu do mar revolto, que Jesus chega até nós e nos acalma: "Sou eu. Não tenham medo!" (cf. Jo 6, 16-21). Às vezes, como aconteceu quando Jesus estava num barco, juntamente com os discípulos, e o mar estava revolto, ele "acorda" e se assusta com nossa falta de fé, o que nos causa temor. Ele nos provoca a vivermos em abandono e confiança, seguros em Deus.
A vida não pode ser vista apenas como uma fonte de perigos, terreno inseguro, território desconhecido, chão movediço. A vida é tudo isso, é presente de Deus. A fé nos apresenta a vida como uma grande esplanada cheia de sol e graça. Deus se derrama dia a dia, espantando tudo o que nos espanta, inundando com água fertilizante cada metro de nosso chão, cada minuto de nosso tempo.
Temos a responsabilidade e a capacidade dessa beleza que Deus fez possível em nós, e que chamamos de virtudes. A fé é a virtude da paz. Geralmente, pensamos que o contrário do medo é a coragem, mas não. Coragem pode ser confundida com imprudência, insensatez, desconhecimento e até soberba. Só quem já sentiu verdadeiro medo sabe como é quase impossível lutar contra nós mesmos. Um milagre. Milagre que só é possível a Deus. Milagre que só é possível pela fé.
No lago agitado, os discípulos tremeram diante das ondas.
Nenhum deles foi capaz de conduzir a barca aproveitando a força do vento ou da água.
A tempestade que ameaçava sua vida só acabou pela presença segura e tranqüilizadora de Jesus. A fé nos deita na mão de Deus. A fé acalmou o temporal e levou os discípulos "ao lugar aonde iam" (Jo 6,21). Nas mãos de Jesus, chegaremos ao lugar aonde vamos. Sonhando com Jesus, nosso objetivo não pode estar errado, mas estará no ponto de visão de Deus, no horizonte dele. E ele nos levará até lá pela fé.
Não é fácil aprender isso. Não existem palavras, existe só ação abandonada e ativa na sua mão, na sua história em nós. Como nossa presença espanta fantasmas e resgata de terríveis pesadelos, a presença de Deus nos agarra pela mão e os seus passos nos conduzem a lugar seguro. O mundo já não é mais uma ameaça, mas lugar do projeto de Deus. O temporal é o espaço para a manifestação de Deus; o fracasso e o temor são a possibilidade dele agir em nós. Temer o quê?
Queridos, no temporal, eu estive, na vossa vida, eu estou. Desfiz o perigo e conduzi a lugar seguro. Junto a mim não há perigo possível, tudo pode ser transformado por um olhar confiante no meu Pai.
Não tenhais mais medo! Essa é minha boa notícia; não há o que temer.
Jesus os ama!
Eloisa Braceras Gago
|