A sacralidade dos números não é coisa de hoje, mas de sempre.
Os números dizem tudo e não dizem nada. São símbolos que é preciso saber interpretar e ir além da sua simbologia para poder acolher o conteúdo que querem nos transmitir. Hoje em dia a simbologia dos números vem lentamente reassumindo um significado sagrado e os numerólogos se divertem em tentar decifrar o seu sentido e eles mesmos, depois, são devorados pelos mesmos números que anunciam. Mas não é da numerologia que quero tratar neste artigo.
Estamos dentro da Quaresma, que é marcada pelo número de 40 dias, este tempo sagrado de estadia no deserto, no monte, na noite. É símbolo de um caminho que é necessário percorrer para poder chegar à liberdade plena de todos os nossos pecados e faltas. Não se pode aproximar de Deus sem passar um longo "período de quarentena", para contemplar o rosto de Deus luminoso. Até hoje, quando chegam pessoas suspeitas de doenças infecciosas num país e vêm de outro país que pode ser infectado, elas são colocadas em quarentena, para se constatar se está infectada ou não. Assim, os leprosos, depois da cura, segundo a Bíblia, deviam passar um largo período separados dos demais, para comprovar que estavam curados de verdade.
O número quarenta recorre com bastante freqüência na literatura bíblica do Antigo e do Novo Testamento. Esse número nos passa a idéia de preparação para algo de importante que deve acontecer, pessoalmente para o povo.
Assim, os quarenta anos que o povo passou no deserto significa o tempo de preparação necessário para ser introduzido na terra prometida. São anos difíceis de prova, nos quais o Senhor prova o seu amor para o povo, e o povo deve provar, para com os mandamentos de Deus, a sua fidelidade e adesão completa e total. Os quarenta dias de jejum de Moisés e Elias preparam esses grandes profetas que, no meio do povo de Israel, têm uma missão particular para se encontrarem de rosto descoberto com o Senhor, o Deus amável e terrível, o Deus da luz e das trevas, da vida e da morte.
Os quarenta dias que Jesus passou no deserto, onde o Espírito o levou para ser tentado, significa o tempo necessário para que ele, o filho de Deus, fosse provado e saísse vitorioso da tentação, e fosse consagrado assim para começar o seu ministério de proclamador da boa nova. A esta se chega através da penitência e da conversão. "Convertei-vos e crede no evangelho", grita também pelo deserto o profeta João Batista. A Quaresma é também uma preparação; são quarenta dias de preparação, de conversão e penitência, para se preparar para a "passagem do pecado para a vida", para entrar numa forma nova na água purificadora da Páscoa, para que o Deus da vida se faça presente com sua novidade e com seu amor restaurador.
O povo foi obrigado a passar mais de quatrocentos anos no Egito como escravo, pelo espaço de 10 gerações e mais para ser readmitido novamente no convívio de Deus. Os padres da Igreja vêem no número 40 os anos da travessia terrestre de cada um para chegar à terra prometida, que é o paraíso, meta de todos os que acreditam em Cristo. Não é de se esquecer que o mesmo Zaqueu, na sua conversão, dirá: "Se defraudei alguém, vou devolver o quádruplo dos meus bens". E Davi dirá a mesma coisa diante do profeta Natã: "Quem fez isto, roubou e matou a ovelhinha de Urias, devolverá quatro vezes mais"...
Há uma página belíssima de Santo Agostinho, que gostava de divagar sobre os números bíblicos, sobre o número quarenta. "O número quarenta encerra um mistério. Creio que é figura do mundo pelo qual passamos, sendo arrastados e arrastando nós mesmos pelo pesos dos anos, pelas instabilidades das coisas do mundo e pelas situações em que nos encontramos. Devemos, portanto, nos abster das coisas e da cobiça através do jejum, que é configurado pelos quarenta dias que todos chamam de Quaresma. Esse nome é inspirado em Moisés e no profeta Elias, porque eles jejuaram por quarenta dias. E em Jesus, que vemos no evangelho jejuar no deserto por quarenta dias".
A Quaresma é um tempo de graça, um sacramento, quando somos chamados a viver para a nossa purificação. Deus nos convida ao deserto, onde devemos experimentar a nossa fragilidade humana e sentirmo-nos tentados por tantas realidades que nos afastam de Deus. E preciso voltar ao deserto para poder defrontar-nos com o diabo, que nos arrasta nas três tentações fundamentais: do prazer, do poder e do ter. Vencida a raiz do mal, poderemos voltar a anunciar a boa nova, como Jesus.
Estamos prontos a assumir o caminho do jejum para que ele nos purifique de todos os sentimentos que, como uma terrível indigestão, nos tomam obesos no espírito e insensíveis ao bem.
Frei Patrício Sciadini, ocd/SP
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