Carta 9
Guastaíla, 10 de junho de 1539 J + C
Prezada Angélica, Paula Antônia
Minha querida filha em Cristo e todas as outras.
Amanhã é a festa do companheiro do apóstolo São Paulo São Barnabé. Não posso, portanto, deixar de agir com vocês do mesmo modo que ele agiu em relação a Paulo, que desejaria ser pessoalmente e de maneira transparente um exemplo vivo do Cristo Crucificado.
Você sabe que Paulo, quando foi pela primeira vez a Jerusalém, logo depois da sua conversão, procurava um jeito para inserir-se entre os outros cristãos e de entrosar-se com eles, para ser reconhecido por todos, como cristão. Mas, eles, tendo medo de que Paulo ainda fosse o que era antes, não tinham coragem de andar com ele. Barnabé, então, pegou-o pela mão e o levou aos Apóstolos e disse: Eis aquêle que era.. etc. e depois Cristo lhe apareceu... etc. e fez e disse... etc.(At.9,26-27) e assim, na presença deles, tornou-o conhecido de todos. Enquanto Paulo permanecia quase escondido, muito satisfeito da vida, sem medo de ser dominado pelo orgulho, Barnabé o apresentou a todos os cristãos como uma coluna e como aquele que quase tinha chegado a ser o primeiro entre os Apóstolos.
Ora, minha irmã, se me permite, desejaria ter com você a mesma liberdade que têm os grandes santos e também manifestar-lhe que aquilo que, por causa da grande perfeição que eles têm, é neles uma experiência e um sinal certo de sua santidade madura, seria para nós, ocasião de clara e verdadeira ruína ou então, um sinal evidente de não termos ainda abandonado os nossos hábitos antigos e envelhecidos. Você se lembra do que se diz daquele santo citado por São João Clímaco, que, tendo certeza de ter superado a gula, ofereceu ao demônio um cacho de uvas, para ver se ele era capaz de tentá-lo com isso? A mesma coisa: uma pessoa que quer saber se não existe mais uma paixão em si e nos outros ou, até que ponto está controlada: ela procura reavivá-la com palavras e atitudes ou de qualquer outro modo, enquanto, interna e externamente vai acompanhando tudo, para ver no que vai dar e, dai, vai tendo uma visão clara da sua situação interior e também dos outros.
Não vou falar das coisas que só você pode compreender, mas das que todas as Angélicas compreendem, deixando por sua conta meditar sobre o resto.
Barnabé diz: Saulo, ou seja, o rosto do nosso primeiro homem e a imagem das nossas primeiras inclinações: as nossas paixões. Olha só a conversa fiada dessa pessoa! Fala mais que um papagaio!
Nunca está na oração com as outras, está sempre ocupada com as coisas de fora, fica na cama dormindo à toa! Será que não é esse o rosto de Saulo ou, em outras palavras, a figura do nosso primeiro homem velho?
Mas isso não é nada! O fato de exigir ser bem servida, de querer luxo no quarto, de falar sempre repreendendo os outros, de nunca dizer uma palavra boa aos outros, de não mostrar estima para ninguém: o que seria isso, a não ser as características dos nossos costumes antigos? E mais ainda: o fato de não estar satisfeita nunca, sempre aberta para as tentações, tendo idéias duvidosas e pouco claras: isso prova que ela ainda é a mesma que era antes de entrar na vida religiosa ou, pelo menos, que é imperfeita e que mudou muito pouco.
O fato de ter um estômago que só quer comida fina e sofisticada mostra que a gula ainda está forte. O fato de não saber esperar nem um pouco sem mostrar impaciência, de não poder ficar de joelhos sem ter um banco onde se apoiar, de reagir diante de qualquer coisa de cara fechada, o que significa isso, senão uma personalidade cheia de não-me-toques?
Vejam se isso fica bem: mal uma pessoa se mexe e já está cansada, mal se senta para conversar com os outros aumenta esta dor. Isso pode ser tudo, menos uma perfeição amadurecida! Essas situações e outras parecidas são o Saulo, isto é, mostram a figura do homem imperfeito.
(Continua no próximo número)
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