“A Prefeitura e os Pré-Comunitários”
Como todos vocês devem saber, eu atuo há 10 anos em um Pré-vestibular comunitário para negros e carentes aqui em Jacarepaguá. Esse projeto, que no nosso caso sempre contou com alguns voluntários da nossa paróquia, já deu um sentido para a vida de muitos jovens no nosso Estado. São mais de 120 núcleos em toda a cidade do Rio de Janeiro que atendem prioritariamente a jovens pobres, negros e excluídos da nossa sociedade. Só aqui no núcleo Anil temos mais de 700 jovens que deixaram a exclusão social e ingressaram em uma universidade. Um projeto lindo, uma bandeira honrosa que deu um sentido na vida de muita gente. Inclusive, ao escrever sobre esse projeto me vem a mente uma linda história de uma ex-aluna que tivemos logo nas primeiras turmas. Moradora de uma favela próxima a uma das escolas municipais onde funcionamos, ela tinha muitas dificuldades. Chegou com grandes deficiências no aprendizado em função da falta de qualidade nos ensinos médio e fundamental.
Para se ter uma idéia, ela, assim como muitos outros que passaram por nossas mãos, não sabiam somar frações. Mas, assim mesmo ela seguiu em frente. Ao final do ano, infelizmente, foi reprovada no vestibular. Entretanto, ela tinha um defeito que acabou se tornando a chave para o seu sucesso: era teimosa.
Optou por acreditar nos professores que insistiam que ela era uma vencedora. Que poderia chegar lá. Tentou por mais duas vezes. Fez praticamente todo o ensino médio de novo ao cursar por três vezes o pré-vestibular. Mas o seu esforço foi recompensado: passou no vestibular. Conseguiu a grande oportunidade de sua vida. Hoje, essa moça não mora mais em um barraco de 10 m2 em uma favela. Tem um bom emprego e cursa uma pós-graduação reconhecida no mercado de trabalho.
Porém, por mais incrível que possa parecer, nem todos estão felizes com os resultados deste projeto. A Prefeitura da nossa cidade, através de uma circular da secretaria de educação, proibiu que todos os pré-vestibulares comunitários continuassem esse trabalho de semeadura de sonhos e esperanças nas escolas públicas municipais. Eles alegam, conforme nos foi dito em uma reunião com a subsecretária de educação, que as despesas com água e luz aumentaram muito com a utilização das escolas pelos pré-comunitários. Um argumento tão triste quanto a própria decisão em si, uma vez que acreditamos que não geramos despesas, mas economias aos cofres públicos, pois fazemos um papel que deveria ser feito pelo estado. Aliás, conforme sempre dizemos em nossas aulas, devemos trabalhar firmemente para que um dia não precisem existir mais pré-vestibulares comunitários. E que isso ocorra em função da melhora da educação pública de qualidade e não pela triste proibição como essa que, além de estar muito longe do que se espera do espírito público do primeiro mandatário de nossa cidade, contraria a própria Lei Orgânica do município que diz em seu artigo 324, inciso IV:
Art. 324 - O Município promoverá:
(...)
IV - ocupação dos prédios escolares em horários ociosos, para serem utilizados em palestras, cursos e outras atividades de interesse da comunidade local.
Assim como a pessoa do relato acima, temos muitos outros alunos que passaram por nossas mãos e hoje estão na universidade construindo o seu sonho e, ao mesmo tempo, a cidadania. Aliás, é essa construção que inspira a nossa utopia. A utopia de todos os militantes que sonham conosco e transformam, no dia-a-dia das nossas aulas, esse sonho em realidade.
Antes de terminar, eu não posso deixar de agradecer a nossa Igreja pela imensa ajuda que tem nos dados nesta batalha para reaver os espaços junto à Prefeitura. À nossa arquidiocese e a todos os demais sacerdotes, diáconos e leigos que têm se mostrados solidários ao se colocarem ao nosso lado abrindo espaços e divulgando as nossas manifestações e atividades para mudar esse cenário. É um sinal importante que dá força e motivação a todos nós. Além disso, nos enche de alegria e esperança ao ver o firme compromisso da nossa Igreja na defesa da prioridade do Cristo para a construção da civilização do Amor: a opção preferencial pelo irmão excluído.
Um forte abraço a todos e a Paz de Cristo!
Robson Campos Leite
feepolitica@terra.com.br
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