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A Violência sob a ótica pastoral da Igreja|FEVEREIRO

Meus amados irmãos, nesta nova etapa da nossa vida, comecemos totalmente renovados, tanto nos pensamentos, como nas ações, agradando o coração amoroso de Deus que tem cuidado de nós com amor eterno. Não é possível para nenhum de nós deixar passar desapercebidamente o que tem acontecido em nossa sociedade nos últimos tempos. Foi e é com muita indignação e frustração que lemos nos jornais e vimos as cenas na TV que têm nos mostrado as conseqüências do pecado, não apenas no nosso Rio de Janeiro, mas no mundo inteiro. Pior ainda é ver que a classe política e muitos de nós cidadãos de uma maneira geral, nos tornarmos insensíveis a tudo isso que tem acontecido em nossa sociedade. Parece até que perdemos a capacidade de nos indignar contra este tipo de coisa. Esta barbaridade, se tornou tão comum em nosso meio, a televisão banalizou de tal forma a violência, que para a grande maioria, torna-se mais uma dentre as muitas formas variadas que acontecem todos os dias no Brasil.

Irmãos, queremos assumir e viver o ano novo da graça que Deus não nos oferece, mas nos dá, para isso precisamos fazer algumas reflexões, repensarmos algumas atitudes e não cedermos às pressões exteriores, em especial àquelas que se mascaram em forma de felicidade, mas que é na verdade uma grande violência contra a nossa vida e uma afronta ao nosso Deus. Podemos pensar no carnaval que está às portas, onde tantas e tantas violências acontecem e isso não é de hoje, que já nem mexem mais com nossa sensibilidade ou nossa capacidade de ficarmos indignados. Diante dessa gigantesca onda fictícia de felicidade em que todos nós estamos imersos, parece-nos que uma das alternativas que encontramos é ser indiferentes a esse tipo de realidade que nos cerca e continuar a nossa existência, fingindo que tudo isso não nos afeta. Enclausurados em nossos castelos e ilhas de prosperidade, cercados por todos os lados de prostituição, uso exacerbado de álcool e drogas, estamos seguros. Ainda, um outro sentimento que talvez permeie as nossas mentes, nessas horas seja o da impotência, de não poder fazer nada, de não poder mudar nada, de não poder levantar a voz e ficar quietos, porque afinal de contas quem somos nós para mudar alguma coisa? Qual deve ser a postura do cristão em meio a toda essa violência que nos cerca? Qual a postura que a comunidade cristã deve assumir diante de tudo isso? Como podemos nos fazer ouvir e tentar pelo menos fazer conhecidos os valores do Reino de Deus nestes casos? Em primeiro lugar, creio que como cristãos, indistintamente devemos levantar a nossa voz e orar pela ordem e pela paz da cidade. Procuremos invocar, como servos que somos, como está ordenado no Livro de Jeremias, no Antigo Testamento, quando este convoca os judeus cativos da Babilônia, dizendo: "Tomai a peito o bem da cidade e rogai por ela ao Senhor, porque só tereis de lucrar com a sua prosperidade" (Jer 29, 7). A violência afeta a todos, e orar é algo que todos nós, enquanto comunidade cristã podemos fazer. Em segundo lugar, cremos que devemos recuperar a voz profética que foi tão característica dos homens e mulheres de Deus em meio a uma sociedade corrompida e cheia de injustiça e violência. Foi assim com Habacuque, num outro livro do Antigo Testamento, que vendo a iniqüidade e a opressão ao seu redor, clama por respostas, diante de Deus. Qual o porquê de tanta violência? "Até quando, Senhor implorarei sem que escuteis? Até quando vos clamarei: "Violência!" sem que venhais em socorro?" (Hab 1, 2). A lição que aprendemos com Habacuque é de que o Senhor, reto juiz, trará juízo no seu próprio tempo e ele nos chama para anunciar esta verdade sobre os perversos, soberbos, violentos, corruptos, profanos e aqueles cujo poder é o seu deus. Em terceiro lugar, cremos que precisamos resgatar o espírito dos ensinamentos de Jesus. Talvez, até quem sabe, fazer uma nova leitura deles, recapitulando bem devagar, especialmente neste caso de Mateus 5, 9. Diante de situações como as que vivemos dia a dia, quando o Senhor nos fala que são "bem aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus." Todo cristão, de acordo com esta palavra de Jesus, deve ser um pacificador, tanto na Igreja como na sociedade, ou melhor, precisamos ser a Paz do Senhor onde quer que estejamos e fazer com que ela se propague.

Meus amados irmãos, não pensemos que agindo assim seremos radicais, muito pelo contrário, somos ou não batizados? Somos filhos de Deus? Somos filhos da Luz? Se somos, não podemos viver neste mundo inoperantes como pagãos diante de tanta violência, em especial neste tempo do carnaval, onde muitos dizem: Ah! É só uma brincadeira, é bom para extravasar os dias de trabalho, entre muitos comentários. Quantos irmãos entram nessa e em nenhum instante durante este período lembram sequer do nome de Jesus. E aí se divertem, bebem, brincam, dançam, aprontam, contam vantagens, curtem sua praia, fazem seus churrascos, viram noites, e Jesus onde está nestes momentos? E então na quarta-feira de cinzas, ficam comovidos com a Liturgia da Missa e pedem perdão a Deus, para então voltar às atividades. Queridos, não nos enganemos e não sejamos contaminados pelas perfídias de satanás, estejamos alertas para uma questão que muitas vezes não nos damos conta e que podemos, através da ação individual, transformar esse tipo de realidade. Como? Orando, buscando nas Escrituras as orientações, dizendo "não" à toda violência e às alegrias passageiras que geralmente culminam no afastamento da verdadeira vida, pedindo discernimento e através do exercício da nossa cidadania, colocando em prática valores como dignidade humana, justiça, paz, amor, respeito ao próximo e acima de tudo consciência crítica diante deste contexto gerador de morte.
Desde já, fazendo uma alusão a este ano de eleições, fica a responsabilidade que cada um de nós cidadãos cristãos, de fazer uso, por exemplo da força do nosso voto, para que as estruturas geradoras de morte possam com a nossa intervenção social, serem vencidas. E isso só acontecerá quando nos conscientizarmos da necessidade que temos de nos voltarmos para Deus e os valores do seu Reino e termos consciência que ele é o Senhor da Vida, da História, da Verdadeira Paz e da nossa Felicidade.

Um forte abraço em todos e até uma próxima oportunidade. Deus nos abençoe!

Ricardo da Liturgia das 10h
ricardomoyses@globo.com
 
 
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