Meus amados irmãos, nesta nova etapa da nossa
vida, comecemos totalmente renovados, tanto nos pensamentos, como nas ações,
agradando o coração amoroso de Deus que tem cuidado de nós
com amor eterno. Não é possível para nenhum de nós
deixar passar desapercebidamente o que tem acontecido em nossa sociedade nos últimos
tempos. Foi e é com muita indignação e frustração
que lemos nos jornais e vimos as cenas na TV que têm nos mostrado as conseqüências
do pecado, não apenas no nosso Rio de Janeiro, mas no mundo inteiro. Pior
ainda é ver que a classe política e muitos de nós cidadãos
de uma maneira geral, nos tornarmos insensíveis a tudo isso que tem acontecido
em nossa sociedade. Parece até que perdemos a capacidade de nos indignar
contra este tipo de coisa. Esta barbaridade, se tornou tão comum em nosso
meio, a televisão banalizou de tal forma a violência, que para a
grande maioria, torna-se mais uma dentre as muitas formas variadas que acontecem
todos os dias no Brasil.
Irmãos, queremos assumir e viver o ano
novo da graça que Deus não nos oferece, mas nos dá, para
isso precisamos fazer algumas reflexões, repensarmos algumas atitudes e
não cedermos às pressões exteriores, em especial àquelas
que se mascaram em forma de felicidade, mas que é na verdade uma grande
violência contra a nossa vida e uma afronta ao nosso Deus. Podemos pensar
no carnaval que está às portas, onde tantas e tantas violências
acontecem e isso não é de hoje, que já nem mexem mais com
nossa sensibilidade ou nossa capacidade de ficarmos indignados. Diante dessa gigantesca
onda fictícia de felicidade em que todos nós estamos imersos, parece-nos
que uma das alternativas que encontramos é ser indiferentes a esse tipo
de realidade que nos cerca e continuar a nossa existência, fingindo que
tudo isso não nos afeta. Enclausurados em nossos castelos e ilhas de prosperidade,
cercados por todos os lados de prostituição, uso exacerbado de álcool
e drogas, estamos seguros. Ainda, um outro sentimento que talvez permeie as nossas
mentes, nessas horas seja o da impotência, de não poder fazer nada,
de não poder mudar nada, de não poder levantar a voz e ficar quietos,
porque afinal de contas quem somos nós para mudar alguma coisa? Qual deve
ser a postura do cristão em meio a toda essa violência que nos cerca?
Qual a postura que a comunidade cristã deve assumir diante de tudo isso?
Como podemos nos fazer ouvir e tentar pelo menos fazer conhecidos os valores do
Reino de Deus nestes casos? Em primeiro lugar, creio que como cristãos,
indistintamente devemos levantar a nossa voz e orar pela ordem e pela paz da cidade.
Procuremos invocar, como servos que somos, como está ordenado no Livro
de Jeremias, no Antigo Testamento, quando este convoca os judeus cativos da Babilônia,
dizendo: "Tomai a peito o bem da cidade e rogai por ela ao Senhor, porque
só tereis de lucrar com a sua prosperidade" (Jer 29, 7). A violência
afeta a todos, e orar é algo que todos nós, enquanto comunidade
cristã podemos fazer. Em segundo lugar, cremos que devemos recuperar a
voz profética que foi tão característica dos homens e mulheres
de Deus em meio a uma sociedade corrompida e cheia de injustiça e violência.
Foi assim com Habacuque, num outro livro do Antigo Testamento, que vendo a iniqüidade
e a opressão ao seu redor, clama por respostas, diante de Deus. Qual o
porquê de tanta violência? "Até quando, Senhor implorarei
sem que escuteis? Até quando vos clamarei: "Violência!"
sem que venhais em socorro?" (Hab 1, 2). A lição que aprendemos
com Habacuque é de que o Senhor, reto juiz, trará juízo no
seu próprio tempo e ele nos chama para anunciar esta verdade sobre os perversos,
soberbos, violentos, corruptos, profanos e aqueles cujo poder é o seu deus.
Em terceiro lugar, cremos que precisamos resgatar o espírito dos ensinamentos
de Jesus. Talvez, até quem sabe, fazer uma nova leitura deles, recapitulando
bem devagar, especialmente neste caso de Mateus 5, 9. Diante de situações
como as que vivemos dia a dia, quando o Senhor nos fala que são "bem
aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus."
Todo cristão, de acordo com esta palavra de Jesus, deve ser um pacificador,
tanto na Igreja como na sociedade, ou melhor, precisamos ser a Paz do Senhor onde
quer que estejamos e fazer com que ela se propague.
Meus amados irmãos,
não pensemos que agindo assim seremos radicais, muito pelo contrário,
somos ou não batizados? Somos filhos de Deus? Somos filhos da Luz? Se somos,
não podemos viver neste mundo inoperantes como pagãos diante de
tanta violência, em especial neste tempo do carnaval, onde muitos dizem:
Ah! É só uma brincadeira, é bom para extravasar os dias de
trabalho, entre muitos comentários. Quantos irmãos entram nessa
e em nenhum instante durante este período lembram sequer do nome de Jesus.
E aí se divertem, bebem, brincam, dançam, aprontam, contam vantagens,
curtem sua praia, fazem seus churrascos, viram noites, e Jesus onde está
nestes momentos? E então na quarta-feira de cinzas, ficam comovidos com
a Liturgia da Missa e pedem perdão a Deus, para então voltar às
atividades. Queridos, não nos enganemos e não sejamos contaminados
pelas perfídias de satanás, estejamos alertas para uma questão
que muitas vezes não nos damos conta e que podemos, através da ação
individual, transformar esse tipo de realidade. Como? Orando, buscando nas Escrituras
as orientações, dizendo "não" à toda violência
e às alegrias passageiras que geralmente culminam no afastamento da verdadeira
vida, pedindo discernimento e através do exercício da nossa cidadania,
colocando em prática valores como dignidade humana, justiça, paz,
amor, respeito ao próximo e acima de tudo consciência crítica
diante deste contexto gerador de morte. Desde já, fazendo uma alusão
a este ano de eleições, fica a responsabilidade que cada um de nós
cidadãos cristãos, de fazer uso, por exemplo da força do
nosso voto, para que as estruturas geradoras de morte possam com a nossa intervenção
social, serem vencidas. E isso só acontecerá quando nos conscientizarmos
da necessidade que temos de nos voltarmos para Deus e os valores do seu Reino
e termos consciência que ele é o Senhor da Vida, da História,
da Verdadeira Paz e da nossa Felicidade.
Um forte abraço em todos
e até uma próxima oportunidade. Deus nos abençoe!
Ricardo
da Liturgia das 10h ricardomoyses@globo.com |