"A família e a política
Em
outubro do ano passado, ao final de uma palestra para um grupo de casais sobre
"Vida cristã e cidadania ativa", um senhor me perguntou sobre
as possibilidades para que ele pudesse se engajar nessa proposta muito interessante
de participação popular. Falou-me, muito entristecido, que ele tinha
muito pouco tempo para esse projeto visto que além da sua intensa vida
profissional, ele tinha quatro filhos e temia se sentir ainda mais culpado por
um possível aumento da sua (já tão alta) "ausência"
na criação destes. Aliás, é exatamente sobre esta
"ausência" que eu gostaria de aprofundar a coluna deste mês.
Antes
de começar eu gostaria de deixar claro que não sou nenhum especialista
na difícil arte de educar e criar os filhos. Acredito em algumas teorias
e práticas que tenho visto algumas pessoas terem sucesso e, muito curiosamente,
elas tem tudo a ver com o que venho abordando nos últimos três anos
neste espaço.
Muitos de nós acreditamos que a melhor forma
de ensinarmos algo a nossos filhos é através das famosas conversas.
Até acredito, e aproveito para reforçar, que o diálogo entre
pais e filhos é um dos grandes instrumentos de formação da
personalidade e do caráter dos nossos jovens. Nada troca a conversa cotidiana,
franca e íntima dos pais com os filhos. Entretanto, o meu foco é
sobre a prática que contradiz o discurso. As crianças aprendem o
que vivenciam e não somente o que ouvem. Os dicursos precisam encontrar
embasamento na prática cotidiana da família seja ela onde for: em
casa, na rua, no trabalho, nas festas e etc. Por diversas vezes precisamos redobrar
a nossa atenção para não soltarmos uma palavra atravessada,
uma atitude de agressão para quem quer que seja ou até mesmo revermos
algumas práticas cotidianas principalmente quando estamos perto das crianças.
É muito complicado exigirmos dos nossos filhos que eles evitem o fumo ou
a bebida quando não hesitamos em beber ou fumar até mesmo na frente
deles. O "depois" é simplesmente consequência.
Todas
essas colocações acima não podem jamais ficarem restritas
às questões educacionais individuais (boas notas na escola, bom
comportamento em casa e etc), mas principalmente nas questões ligadas à
cidadania e à coletividade. Se quisermos realmente mudar o nosso país
precisamos começar em casa. Já escutei diversos profissionais da
área psicopedagógica ressaltarem a importância de, por exemplo,
voltar ao supermercado para devolver o troco dado a mais por engano, por menor
que ele seja, apenas para servir de exemplo ao filho que acompanha os pais nas
compras de mês. Esse tipo de gesto ensina muito mais do que mil palavras
e discursos. Outro ponto importante e muito ressaltado por estes profissionais
é o cuidado no incentivo (consciente ou não) ao consumo desenfreado.
Como já disse antes, nada, ou melhor, nenhum bem material substitui a presença
dos pais em casa participando no cotidiano dos filhos. Tenho perfeito conhecimento
de que esse tipo de atitude implicará em algumas escolhas, bem difíceis
por sinal, para os pais. A velha pergunta virá a tona: "A carreira
ou os filhos"? Ao mesmo tempo em que não me sinto melhor do que absolutamente
ninguém para julgar as escolhas dos outros, percebo-me responsável
por não esconder a verdade: Seja qual for a sua escolha, amigo leitor,
lembre-se que nada substituirá o papel de pai e mãe como membros
efetivos de uma família em conjunto com os filhos. Além disso, independentemente
desta escolha, ela se refletirá, sem sombra de dúvidas, no comportamento
futuro das crianças.
Cabe aqui também ressaltar um aspecto
fundamental e que muitos especialistas da área trabalham com grande dificuldade
na cabeça dos pais da sociedade moderna: A escola, apesar de ser um importante
instrumento na formação educacional, não substitui, em hipótese
alguma, a educação familiar. Jamais devemos pensar que ela, a escola,
bastará para suprir alguma necessidade deste tipo em nossos filhos.
Para
concluir, eu gostaria de parabenizar os pais que têm a coragem de educar
os filhos para uma cidadania coletiva. Faço isso porque ouço com
freqüência, particularmente em algumas palestras sobre cidadania que
tenho dado em escolas, as afirmações de que esse tipo de educação
formará adultos "bobos ou facilmente devorados pelo competitivo mundo
capitalista". Infelizmente, para esse tipo de argumento eu só
tenho duas respostas, ou melhor, duas perguntas: "Qual seria a atitude de
Cristo para a educação e a formação das nossas crianças"?
E, como construiremos um país mais justo e menos desigual se não
semearmos a solidariedade e a partilha dentro de casa com os membros do nosso
"país do futuro"?
Um forte abraço a todos e a Paz
de Cristo!
Robson Campos Leite Email : feepolitica@terra.com.br
::>
Matérias anteriores |