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Por que doar o dízimo?|FEVEREIRO


"Quem produz algo o faz porque o Senhor o permite. Revela-se assim o dízimo como um gesto de gratidão para com aquele a quem tudo devemos".

A palavra "dízimo" significa décima parte. Presente em outras tradições e culturas, chegou-nos através de inúmeras citações do Antigo Testamento, que atestam sua prática entre os israelitas. No tempo das doze tribos de Israel, a tribo de Levi servia ao altar e era pobre, desprovida de rebanho e campos para cultivar. Devia ser sustentada pelas outras onze tribos, que separavam uma parte de suas colheitas e de seu rebanho e entregavam aos levitas, bem como aos estrangeiros, aos órfãos e às viúvas. O livro do Deuteronômio refere-se a dois tipos de dízimo (Cf. Dt 14,22-28); um anual e outro trienal. Ano a ano, a décima parte devia ser tomada dos produtos agrícolas e trazido ao Templo para o banquete sagrado. A cada três anos era deixada nas portas para alimentar os pobres.

"Pagar ou não pagar" o dízimo é questão que aflige a uma parcela considerável de católicos. Alguns resistem a participar da Pastoral do Dízimo em suas comunidades alegando, entre outras coisas, a legendária "riqueza" da Igreja. São católicos até participantes. Têm, contudo, uma idéia antiga de Igreja, considerando-a mera provedora de bens espirituais, não precisando, portanto, de recursos para se manter. O dízimo perdeu a sua força na Igreja Católica no Brasil porque, até a proclamação da República, era cobrado pelo Estado, e este o repassava à Igreja. Como era um imposto e tinha uma administração falha, perdeu a sua credibilidade e gerou um certo preconceito no meio católico, que perdura até os dias atuais.

A entrega do dízimo não é pagamento. Nenhum cristão "deve" dízimo à igreja. Ao trazer mensalmente seu dízimo, o fiel não está pagando pelo serviço religioso do qual usufrui. Nem o faz com interesses pessoais, para ganhar bênçãos e, assim, multiplicar sua renda. A idéia de que Deus recompensa nosso dízimo com riquezas é uma afronta à Palavra de Deus. Quem dá esmolas para ficar rico não dá nada: está fazendo comércio. Quem doa não espera nada em troca.

Há uma mística a se resgatar no gesto da entrega do dízimo:
Deus é generoso e clemente. Tudo lhe pertence. Em sua misericórdia, criou o mundo e tudo que existe para o bem do ser humano. Ele concede dons, talentos, inspiração, capacidade de criar e trabalhar a todos os viventes. Quem produz algo o faz porque o Senhor o permite. Revela-se assim o dízimo como um gesto de gratidão para com aquele a quem tudo devemos.

Partilha e solidariedade

O dinheiro oferecido de acordo com as posses e consciência de cada um é humilde reconhecimento de que sem Deus nada se é, nada se tem. Mas Deus não precisa de dinheiro, poder-se-ia contra-argumentar. Mas os pobres, seus ministros e a comunidade necessitam manter-se. Vê-se aí o dízimo numa dimensão de partilha e solidariedade. Deus se identifica com as necessidades dos pobres e da comunidade.

A subsistência da Igreja sempre dependeu da colaboração dos fiéis. No entanto, ela não obriga seus fiéis a contribuir com o dízimo. Também não os obriga a doar o valor que corresponde ao sentido próprio da palavra: décima parte. São Paulo esclarece em sua Segunda carta aos cristãos de Corinto: Cada um que se dispõe a oferecer o dízimo o faça conforme suas posses e de acordo com seu coração (2 Co 9,7). Há os que doam mais que a décima parte e os que doam bem menos. A quantia em si mesma não importa. Entregar o dízimo não é garantia de salvação. Quem entrega o dízimo não pode se considerar melhor cristão. Por outro lado, embora a palavra dízimo signifique "dez por cento", "décima parte", São Paulo nos ensina que a nossa contribuição não necessita se basear num percentual rígido. O critério para definir o valor do dízimo é o impulso do nosso coração. Devemos contribuir com o máximo que o nosso orçamento pode suportar.
Assim, quem pode dar 10% não contribui com menos. Quem puder dar 5% não dê 4, quem puder dar 3% não dê 2: Dê cada um conforme o impulso de seu coração, sem tristeza nem constrangimento, pois Deus ama a quem dá com alegria" (II Co 9,7).

Exploração financeira

Proliferam atualmente seitas cujo único objetivo parece ser explorar a boa-fé de pessoas carentes e desesperadas.

Com promessas de cura e de progresso material, realizam campanhas alardeando libertação para todos os tipos de males.
Usam o nome de Deus em vão a todo o momento. "Em nome do Senhor Jesus" é a senha pela qual encantam os que buscam soluções imediatas para seus problemas. Os métodos usados nesses empreendimentos religiosos são refinados e bem articulados. Não atacam diretamente as contas bancárias dos fiéis, mas cuidam de seduzi-los aos poucos. As pessoas se entusiasmam com o horizonte de prosperidade que lhes é anunciado. Muitas vezes se privam do essencial para não deixar de contribuir com o funcionamento dessas novas seitas. Essa constatação, contudo não macula o sentido e a importância do dízimo e suas raízes bíblicas, teológicas e eclesiais. Não podemos confundir, portando, a oferta espontânea do dízimo com exploração financeira.

Padre Antônio Damásio Rêgo Filho
pároco da Paróquia Santa Teresinha do Menino Jesus da Santa Face - Arquidiocese de Belo Horizonte

 
 
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