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A violência não pode ter a última palavra | FEVEREIRO


A Campanha da Fraternidade deste ano convida todas as pessoas e o conjunto da sociedade a se mobilizarem a fim de vencer a passividade diante da violência e construir mecanismos de paz e solidariedade

A paz é possível? É a pergunta que a humanidade se põe a partir do assassinato de Abel pelo irmão Caim. A História, como era e continua sendo narrada, aparece como uma longa série de guerras intercaladas por breves períodos de paz, utilizados para preparar um conflito sucessivo. As ruas e as praças das cidades são muitas vezes dedicadas a imperadores, generais, tanto mais famosos quanto mais vítimas ceifaram em suas batalhas.
Hoje, basta ligar a TV ou o rádio e abrir os jornais, e notícias e imagens de guerras, terrorismo, genocídios, chacinas... poluem nossos olhos e ouvidos.
Reza-se pela paz. Mas com que esperança? Já o fizemos muitas vezes como antes da guerra do Golfo ou do Iraque.Com que resultado? Parece que Deus não escutou o grito dos seus filhos.
Diante das batalhas da guerra, a batalha pela paz parece perdida. E a conseqüência é que não vale a pena lançar-se numa luta sem saída num mundo onde a violência domina incontestada e os "maus" prevalecem sobre os "bons". Melhor ficar em casa e assistir na TV às cenas das guerras longe de nós, esperando que alguma bomba perdida não caia sobre o nosso telhado.
Mas é difícil crer que Deus tenha "jogado a toalha", em algo tão essencial para ele como a paz. Não foi por acaso que ele colocou sob o marco da paz os dois acontecimentos que abrem e encerram a aventura terrena se seu Filho: o Natal (" Paz na terra aos homens...") e a Ressurreição ( " A paz esteja com vocês...").

Eu e o outro
A pior coisa que uma pessoa violenta pode fazer conosco é nos transformar em alguém igual a si mesma". É uma afirmação profunda e sábia no número 24 do Texto-Base (TB) da Campanha da Fraternidade 2005, que neste ano é ecumênica e tem como tema: Solidariedade e paz. A vingança é o fracasso da humanidade em nós, porque o homem que responde ao mal com o mal se demonstra incapaz de novidade, de criar algo diferente daquilo que o outro fez contra ele, de não ter outra maneira de pensar os relacionamentos senão aquela que o "inimigo" usou.
A lógica da violência reforça a mentalidade de que eu e os outros estamos em duas trincheiras , trocando tiros, sem nenhuma comunicação, sem a mínima tentativa de nos conhecer, de saber quem é o outro, o que pensa, de onde vem, qual a sua cultura, seus sentimentos, seus amores. Nessa perspectiva, os outros morrem não só pela nossa violência direta, mas também pela nossa indiferença, que nos torna cegos, surdos à sua situação desesperadora: cheios de preconceitos sociais, culturais, raciais e religiosos que nos separam deles; dominados por medos exagerados sem motivo.
A solidariedade nos coloca num contexto exatamente contrário: " A paz pode ser firme se todos de fato se importarem com todos" ( TB, nº 10). Isso significa sair das trincheiras, olhar o rosto do outro, perguntar seu nome, de sua família, de seus gostos. Não se trata só de conceber a paz como ausência de guerra; seria algo muito pobre, como uma casa limpa, mas vazia: não seria paz verdadeira, que é plenitude de vida, de relacionamentos, de convivência alegre e criativa. E, observando sinceramente a convivência humana, nem seria paz possível, porque uma situação deste tipo leva, mais cedo ou mais tarde, à violência e à guerra. A paz não é fruto de um "não", mas de um "sim"!

Em nossas mãos
A paz é possível à medida que nós a tornamos possível, por meio da solidariedade. "Quando falamos sobre a paz, precisamos pensar em dois aspectos: um é que ela deve viver em nós, e o outro é que devemos ser seus agentes, trazendo-a para nossa sociedade" ( TB n.89). Existe uma maneira de pensar que nos afasta disso: consideramos a paz como um problema mundial, que está nas mãos dos responsáveis pela política, sobre os quais não podemos ter nenhuma influência. E não percebemos que a paz está em nossas mãos, na nossa casa, entre nossos amigos e colegas, na rua, no trabalho. Ela é possível, se aqui e agora a tornamos possível. Não é necessário que nos sentemos a uma mesa de negociações diplomáticas, basta que façamos de cada mesa, onde nos colocamos, um lugar de diálogo e reconciliação.
O primeiro passo, portanto, é acreditar em nós, ter consciência de que somos chamados a ser construtores de paz ( felizes os que promovem a paz)". : é o lema da CF 2005), a viver a solidariedade não "como uma obrigação penosa, mas como um caminho que leva à alegria, um modo inteligente de viver, mais gratificante para todos" (TB n.12). Isso não se reduz a ações isoladas no tempo e no espaço, mas a uma atitude constante, a uma maneira de viver, a uma cultura. Ou somos homens de paz sempre, ou não o somos. Construtor de paz é aquele que colabora no lançamento de pontes entre os diferentes.

Injeção de solidariedade
Muitas vezes, a paz é ameaçada ou destruída por falta de solidariedade: quando povos passam fome, não são respeitados em seus direitos humanos fundamentais; quando as armas roubam o lugar do pão; quando as leis do mercado substituem as leis da justa distribuição dos bens; quando a terra é concentrada nas mãos de poucos; quando a droga faz morrer a esperança nos jovens; quando o medo se torna uma indústria.
O remédio, então, é injetar nas veias da humanidade uma transfusão de solidariedade. E isso já é feito quando nos povos cresce a consciência de que os conflitos não se resolvem por meio da guerra, mas com o diálogo; quando os jovens recusam ir à guerra, para não matar os irmãos; quando povos ricos perdoam as dívidas dos povos pobres; quando pessoas doam voluntariamente sua vida em projetos em favor dos pobres, crianças doentes, quando Igrejas se aproximam superando antigos preconceitos.
Um passo importante é difundir o bem; descobrir o que já está sendo feito para valorizar os protagonistas das ações de paz e espalhar o otimismo e a esperança através da divulgação do positivo que existe . A opinião pública pode fazer pressão sobre a mídia, para que seja dado mais espaço á solidariedade, não como " boa opção" ou " pensamento de boa-noite" (veja certas notícias finais de jornais da TV), mas como um estilo de vida diferente que constrói uma cultura da paz.
Costanzo Donegana
Da revista Cidade Nova

Desigualdades que geram violência
"No mundo, a cada sete minutos morre uma criança de fome. Calcula-se que, a cada dia, 100 mil pessoas morrem de fome ou de suas conseqüências e que o número de seres humanos com carências alimentares chega a 840 milhões (TB da CL 2005, nº 48).
Para cada dólar que a ONU gasta em missões de paz, o mundo investe 2.000 dólares em guerra (...). Em 2003, o total mundial de gastos militares chegou a 960 bilhões de dólares, o que representa mais de 30 mil dólares ( cerca de 100 mil reais por segundo) ( TB, nº 51).
No Brasil, " na faixa etária de jovens de sexo masculino a principal causa de morte está em fatores não naturais. De 1993 a 2002, o número de jovens assassinados ( de 15 a 24 anos) cresceu 88,6%. Em 2005, a taxa de homicídios do Brasil foi a Quinta do mundo: 54,5 assassinatos por 100 mil jovens" ( TB,nº52.
No Brasil, "5000 famílias (0,01% do total) detêm sozinhas um patrimônio equivalente a 700 bilhões de reais (uma média de 140 milhões de reais por família) ( TB, nº60)

 
 
VEJA NO MÊS DE FEVEREIRO/2005:

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