A Campanha da Fraternidade deste ano convida todas as pessoas
e o conjunto da sociedade a se mobilizarem a fim de vencer a passividade
diante da violência e construir mecanismos de paz e solidariedade
A paz é possível? É a pergunta que a humanidade
se põe a partir do assassinato de Abel pelo irmão
Caim. A História, como era e continua sendo narrada, aparece
como uma longa série de guerras intercaladas por breves períodos
de paz, utilizados para preparar um conflito sucessivo. As ruas
e as praças das cidades são muitas vezes dedicadas
a imperadores, generais, tanto mais famosos quanto mais vítimas
ceifaram em suas batalhas.
Hoje, basta ligar a TV ou o rádio e abrir os jornais, e notícias
e imagens de guerras, terrorismo, genocídios, chacinas...
poluem nossos olhos e ouvidos.
Reza-se pela paz. Mas com que esperança? Já o fizemos
muitas vezes como antes da guerra do Golfo ou do Iraque.Com que
resultado? Parece que Deus não escutou o grito dos seus filhos.
Diante das batalhas da guerra, a batalha pela paz parece perdida.
E a conseqüência é que não vale a pena
lançar-se numa luta sem saída num mundo onde a violência
domina incontestada e os "maus" prevalecem sobre os "bons".
Melhor ficar em casa e assistir na TV às cenas das guerras
longe de nós, esperando que alguma bomba perdida não
caia sobre o nosso telhado.
Mas é difícil crer que Deus tenha "jogado a toalha",
em algo tão essencial para ele como a paz. Não foi
por acaso que ele colocou sob o marco da paz os dois acontecimentos
que abrem e encerram a aventura terrena se seu Filho: o Natal ("
Paz na terra aos homens...") e a Ressurreição
( " A paz esteja com vocês...").
Eu e o outro
A pior coisa que uma pessoa violenta pode fazer conosco é
nos transformar em alguém igual a si mesma". É
uma afirmação profunda e sábia no número
24 do Texto-Base (TB) da Campanha da Fraternidade 2005, que neste
ano é ecumênica e tem como tema: Solidariedade e paz.
A vingança é o fracasso da humanidade em nós,
porque o homem que responde ao mal com o mal se demonstra incapaz
de novidade, de criar algo diferente daquilo que o outro fez contra
ele, de não ter outra maneira de pensar os relacionamentos
senão aquela que o "inimigo" usou.
A lógica da violência reforça a mentalidade
de que eu e os outros estamos em duas trincheiras , trocando tiros,
sem nenhuma comunicação, sem a mínima tentativa
de nos conhecer, de saber quem é o outro, o que pensa, de
onde vem, qual a sua cultura, seus sentimentos, seus amores. Nessa
perspectiva, os outros morrem não só pela nossa violência
direta, mas também pela nossa indiferença, que nos
torna cegos, surdos à sua situação desesperadora:
cheios de preconceitos sociais, culturais, raciais e religiosos
que nos separam deles; dominados por medos exagerados sem motivo.
A solidariedade nos coloca num contexto exatamente contrário:
" A paz pode ser firme se todos de fato se importarem com todos"
( TB, nº 10). Isso significa sair das trincheiras, olhar o
rosto do outro, perguntar seu nome, de sua família, de seus
gostos. Não se trata só de conceber a paz como ausência
de guerra; seria algo muito pobre, como uma casa limpa, mas vazia:
não seria paz verdadeira, que é plenitude de vida,
de relacionamentos, de convivência alegre e criativa. E, observando
sinceramente a convivência humana, nem seria paz possível,
porque uma situação deste tipo leva, mais cedo ou
mais tarde, à violência e à guerra. A paz não
é fruto de um "não", mas de um "sim"!
Em nossas mãos
A paz é possível à medida que nós a
tornamos possível, por meio da solidariedade. "Quando
falamos sobre a paz, precisamos pensar em dois aspectos: um é
que ela deve viver em nós, e o outro é que devemos
ser seus agentes, trazendo-a para nossa sociedade" ( TB n.89).
Existe uma maneira de pensar que nos afasta disso: consideramos
a paz como um problema mundial, que está nas mãos
dos responsáveis pela política, sobre os quais não
podemos ter nenhuma influência. E não percebemos que
a paz está em nossas mãos, na nossa casa, entre nossos
amigos e colegas, na rua, no trabalho. Ela é possível,
se aqui e agora a tornamos possível. Não é
necessário que nos sentemos a uma mesa de negociações
diplomáticas, basta que façamos de cada mesa, onde
nos colocamos, um lugar de diálogo e reconciliação.
O primeiro passo, portanto, é acreditar em nós, ter
consciência de que somos chamados a ser construtores de paz
( felizes os que promovem a paz)". : é o lema da CF
2005), a viver a solidariedade não "como uma obrigação
penosa, mas como um caminho que leva à alegria, um modo inteligente
de viver, mais gratificante para todos" (TB n.12). Isso não
se reduz a ações isoladas no tempo e no espaço,
mas a uma atitude constante, a uma maneira de viver, a uma cultura.
Ou somos homens de paz sempre, ou não o somos. Construtor
de paz é aquele que colabora no lançamento de pontes
entre os diferentes.
Injeção de solidariedade
Muitas vezes, a paz é ameaçada ou destruída
por falta de solidariedade: quando povos passam fome, não
são respeitados em seus direitos humanos fundamentais; quando
as armas roubam o lugar do pão; quando as leis do mercado
substituem as leis da justa distribuição dos bens;
quando a terra é concentrada nas mãos de poucos; quando
a droga faz morrer a esperança nos jovens; quando o medo
se torna uma indústria.
O remédio, então, é injetar nas veias da humanidade
uma transfusão de solidariedade. E isso já é
feito quando nos povos cresce a consciência de que os conflitos
não se resolvem por meio da guerra, mas com o diálogo;
quando os jovens recusam ir à guerra, para não matar
os irmãos; quando povos ricos perdoam as dívidas dos
povos pobres; quando pessoas doam voluntariamente sua vida em projetos
em favor dos pobres, crianças doentes, quando Igrejas se
aproximam superando antigos preconceitos.
Um passo importante é difundir o bem; descobrir o que já
está sendo feito para valorizar os protagonistas das ações
de paz e espalhar o otimismo e a esperança através
da divulgação do positivo que existe . A opinião
pública pode fazer pressão sobre a mídia, para
que seja dado mais espaço á solidariedade, não
como " boa opção" ou " pensamento de
boa-noite" (veja certas notícias finais de jornais da
TV), mas como um estilo de vida diferente que constrói uma
cultura da paz.
Costanzo Donegana
Da revista Cidade Nova
Desigualdades que geram violência
"No mundo, a cada sete minutos morre uma criança de
fome. Calcula-se que, a cada dia, 100 mil pessoas morrem de fome
ou de suas conseqüências e que o número de seres
humanos com carências alimentares chega a 840 milhões
(TB da CL 2005, nº 48).
Para cada dólar que a ONU gasta em missões de paz,
o mundo investe 2.000 dólares em guerra (...). Em 2003, o
total mundial de gastos militares chegou a 960 bilhões de
dólares, o que representa mais de 30 mil dólares (
cerca de 100 mil reais por segundo) ( TB, nº 51).
No Brasil, " na faixa etária de jovens de sexo masculino
a principal causa de morte está em fatores não naturais.
De 1993 a 2002, o número de jovens assassinados ( de 15 a
24 anos) cresceu 88,6%. Em 2005, a taxa de homicídios do
Brasil foi a Quinta do mundo: 54,5 assassinatos por 100 mil jovens"
( TB,nº52.
No Brasil, "5000 famílias (0,01% do total) detêm
sozinhas um patrimônio equivalente a 700 bilhões de
reais (uma média de 140 milhões de reais por família)
( TB, nº60)
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