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Jesus veio ... você viu? | FEVEREIRO


O Natal já se foi, as luzes começam a se apagar. Os comerciantes que antes do natal estavam doidinhos para aumentar os preços a todo custo, agora estão doidos em abaixar os preços para vender de qualquer jeito. Bem que eu tinha razão em dizer aos meus cinco leitores que não gastassem o décimo terceiro para comprar panetones, mas esperassem que o preço abaixasse e depois do natal e do ano novo, comprassem panetones com menos da metade do preço. Eu fiz isto e garanto que o gosto não mudou, era o mesmo. Devemos ser do "contra", ter a coragem de dizer não onde todos dizem sim por conveniência ou por status. O ser diferente quando é bem colocado chama a atenção e pode tornar-se grito profético na selva do consumismo selvagem que quer arrancar do povo tudo o que ele não tem.

Mas eu não sou comerciante, por isso convidava também o povo a dar presente diferente. Numa sociedade em que se preza o bem-estar físico das pessoas devemos zelar para que os nossos presentes não se tornem meios de prejuízo para a saúde. Não dê chocolate porque engorda, nem cigarro que faz mal aos pulmões e gera câncer e todas outras doenças terríveis que matam. Nem bebida que cria dependência... dê um livro, uma bíblia seja quem for o amigo... A bíblia, um livro, são amigos tão fiéis que estão ao nosso lado e servem quando nós os pegamos nas mãos e ficam silenciosos quando os colocamos na estante à espera de um momento oportuno.

Mas o que queria falar não era disto. É que estou muito preocupado. Jesus veio, passou entre nós, foi recebido com festa, com tanta festa, tantos fogos de artifícios e tantas luzes todos estavam olhando na direção do oriente de onde viria o Salvador. Mas não conseguiram enxergar nada. Até que a um certo momento alguém gritou no meio da multidão: "mas então vem ou não vem o messias? Será que Jesus este ano vai atrasar e não vem como sempre? Não conseguimos ver nada que possa anunciar sua visita."

Na verdade Jesus veio, mas nós estávamos muito preocupados com tantas coisas que não o vimos. Preocupações de todo tipo: roupa nova, garrafas de champanhes que pudessem ser de marca bem qualificada, sapatos de grife feitos em Franca mas comprados na Sétima Avenida de Nova York... É assim que os homens do terceiro milênio estão preocupados com a vinda de Jesus. Todos que estavam à espera de Jesus mostravam uma certa inquietação: será que ele conseguiu de novo vir numa forma tão escondida que passou despercebida para todos? Será que Jesus continua a pegar de surpresa e suas palavras não se desmentem? Será que é necessário, no III milênio, continuar a nascer numa gruta, quando há tantos hotéis de uma estrela, bons e que nem pedem carteira de identidade e nem passaportes, todos são recebidos?

É necessário que Deus se adapte aos tempos modernos, ele não pode continuar a dizer as mesmas coisas na mesma forma, não ter presente que o mundo mudou. Este discurso estava presente nos círculos de boca pequena e conversa de barzinhos. Até que alguém corajosamente gritou: "mas será que nós necessitamos de Jesus ainda? Ele também é superado. Não somos capazes de fazer as coisas sozinhos e de prover as nossas necessidades? Religião é ópio do povo."

Mas tudo isto não é outra coisa que revolta e fracasso por não ter reconhecido Jesus, o seu amor e não ter sentido a nossa fragilidade. Precisamos de Deus se queremos reencontrar o verdadeiro caminho da felicidade e da harmonia interior, rompida pelo nosso egoísmo e pecado. O Natal não pode mudar, é vida. Não importa se não percebemos que Jesus veio e não o vimos. É só assumir novas atitudes, colocar nos olhos o colírio novo que é fornecido pelo Apocalipse e pela palavra de Deus que, tirando as escamas dos nossos olhos, nos permite ver Jesus.

Eu tenho certeza que ele vem tão pobre e simples que todos podemos correr o risco de não reconhecê-lo. Ele, antes de tudo, quer vir dentro de nós, mas não pode nascer no centro do nosso coração porque está tão ocupado de tantas coisas que parece um bazar turco. É obrigado a nascer na periferia do nosso coração, onde há frio, desinteresse, desamor. Mas ele nasce, ele continua a nascer nos pobres que, embora sintam falta de tudo, há nos seus olhos e nos seus lábios um sorriso sofrido mas sincero.

Eu também não vi Jesus passar, mas agora que a ressaca passou das festas e que as luzes se apagam, tomo de novo o caminho e vou pelas ruelas sujas e mau cheirosas, ou me encontro timidamente nas portas dos ricos palácios e vou a todos perguntando se viram Jesus. Tenho certeza que vou encontrar cristãos que não o viram, mas vou encontrar gente do povo pobre, sem letras, que o viram e sabem me indicar onde o posso encontrar. Ele vem pobre, mas não muda de endereço: Jesus estará sempre no coração de toda pessoa, é a nós que cabe reconhecê-lo.

Frei Patrício Sciadini, ocd.
Recebido via email: lferrarez@yahoo.com.br

 
 
VEJA NO MÊS DE FEVEREIRO/2005:

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