|
O
Natal já se foi, as luzes começam a se apagar. Os
comerciantes que antes do natal estavam doidinhos para aumentar
os preços a todo custo, agora estão doidos em abaixar
os preços para vender de qualquer jeito. Bem que eu tinha
razão em dizer aos meus cinco leitores que não gastassem
o décimo terceiro para comprar panetones, mas esperassem
que o preço abaixasse e depois do natal e do ano novo, comprassem
panetones com menos da metade do preço. Eu fiz isto e garanto
que o gosto não mudou, era o mesmo. Devemos ser do "contra",
ter a coragem de dizer não onde todos dizem sim por conveniência
ou por status. O ser diferente quando é bem colocado chama
a atenção e pode tornar-se grito profético
na selva do consumismo selvagem que quer arrancar do povo tudo o
que ele não tem.
Mas eu não sou comerciante, por isso convidava também
o povo a dar presente diferente. Numa sociedade em que se preza
o bem-estar físico das pessoas devemos zelar para que os
nossos presentes não se tornem meios de prejuízo para
a saúde. Não dê chocolate porque engorda, nem
cigarro que faz mal aos pulmões e gera câncer e todas
outras doenças terríveis que matam. Nem bebida que
cria dependência... dê um livro, uma bíblia seja
quem for o amigo... A bíblia, um livro, são amigos
tão fiéis que estão ao nosso lado e servem
quando nós os pegamos nas mãos e ficam silenciosos
quando os colocamos na estante à espera de um momento oportuno.
Mas o que queria falar não era disto. É que estou
muito preocupado. Jesus veio, passou entre nós, foi recebido
com festa, com tanta festa, tantos fogos de artifícios e
tantas luzes todos estavam olhando na direção do oriente
de onde viria o Salvador. Mas não conseguiram enxergar nada.
Até que a um certo momento alguém gritou no meio da
multidão: "mas então vem ou não vem o
messias? Será que Jesus este ano vai atrasar e não
vem como sempre? Não conseguimos ver nada que possa anunciar
sua visita."
Na verdade Jesus veio, mas nós estávamos muito preocupados
com tantas coisas que não o vimos. Preocupações
de todo tipo: roupa nova, garrafas de champanhes que pudessem ser
de marca bem qualificada, sapatos de grife feitos em Franca mas
comprados na Sétima Avenida de Nova York... É assim
que os homens do terceiro milênio estão preocupados
com a vinda de Jesus. Todos que estavam à espera de Jesus
mostravam uma certa inquietação: será que ele
conseguiu de novo vir numa forma tão escondida que passou
despercebida para todos? Será que Jesus continua a pegar
de surpresa e suas palavras não se desmentem? Será
que é necessário, no III milênio, continuar
a nascer numa gruta, quando há tantos hotéis de uma
estrela, bons e que nem pedem carteira de identidade e nem passaportes,
todos são recebidos?
É necessário que Deus se adapte aos tempos modernos,
ele não pode continuar a dizer as mesmas coisas na mesma
forma, não ter presente que o mundo mudou. Este discurso
estava presente nos círculos de boca pequena e conversa de
barzinhos. Até que alguém corajosamente gritou: "mas
será que nós necessitamos de Jesus ainda? Ele também
é superado. Não somos capazes de fazer as coisas sozinhos
e de prover as nossas necessidades? Religião é ópio
do povo."
Mas tudo isto não é outra coisa que revolta e fracasso
por não ter reconhecido Jesus, o seu amor e não ter
sentido a nossa fragilidade. Precisamos de Deus se queremos reencontrar
o verdadeiro caminho da felicidade e da harmonia interior, rompida
pelo nosso egoísmo e pecado. O Natal não pode mudar,
é vida. Não importa se não percebemos que Jesus
veio e não o vimos. É só assumir novas atitudes,
colocar nos olhos o colírio novo que é fornecido pelo
Apocalipse e pela palavra de Deus que, tirando as escamas dos nossos
olhos, nos permite ver Jesus.
Eu tenho certeza que ele vem tão pobre e simples que todos
podemos correr o risco de não reconhecê-lo. Ele, antes
de tudo, quer vir dentro de nós, mas não pode nascer
no centro do nosso coração porque está tão
ocupado de tantas coisas que parece um bazar turco. É obrigado
a nascer na periferia do nosso coração, onde há
frio, desinteresse, desamor. Mas ele nasce, ele continua a nascer
nos pobres que, embora sintam falta de tudo, há nos seus
olhos e nos seus lábios um sorriso sofrido mas sincero.
Eu também não vi Jesus passar, mas agora que a ressaca
passou das festas e que as luzes se apagam, tomo de novo o caminho
e vou pelas ruelas sujas e mau cheirosas, ou me encontro timidamente
nas portas dos ricos palácios e vou a todos perguntando se
viram Jesus. Tenho certeza que vou encontrar cristãos que
não o viram, mas vou encontrar gente do povo pobre, sem letras,
que o viram e sabem me indicar onde o posso encontrar. Ele vem pobre,
mas não muda de endereço: Jesus estará sempre
no coração de toda pessoa, é a nós que
cabe reconhecê-lo.
Frei Patrício Sciadini, ocd.
Recebido via email: lferrarez@yahoo.com.br
|