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CARTAS DE PAULO 5
Teologia Paulina
Na Bíblia Sagrada, editada pela Universidade de Navarra,
há uma introdução à Teologia de São
Paulo muito detalhada e importante. A seguir a apresento resumidamente.
As Epístolas paulinas podem apresentar ao cristão
médio algumas dificuldades de compreensão. A Segunda
Epístola de São Pedro (2 Pd 3,15-16) adverte acerca
de tal dificuldade " ... Nelas há algumas coisas difíceis
de entender, que as pessoas sem instrução e sem firmeza
deturpam, como fazem também às outras Escrituras,
para a sua própria perdição". As cartas
de Paulo já supõem a primeira instrução
evangélica, falam-nos, em muitíssimas ocasiões,
numa linguagem muito mais difícil que a de Jesus.
Serão apresentadas noções básicas que
estão subjacentes na doutrina revelada de Paulo e podem constituir
certa chave para uma melhor compreensão das suas Epístolas.
Essas noções estão divididas em cinco temas:
I- A existência humana sem Cristo; II- A salvação
em Cristo; III- A conversão do homem; IV- A existência
cristã em Cristo e V- A Igreja.
I - A Existência humana sem Cristo
Deus fez ver a Paulo com especial clareza a tragédia do homem
que vive à margem de Cristo.
1- O pecado = um ponto de partida fundamental no legado de Paulo
é que a obra de Cristo, o cristianismo, é redenção
do pecado. Para Paulo o pecado é uma realidade patente e
que consiste, sobretudo, em desobediência, em rebelião
contra a majestade divina, contra a Sua vontade, contra a Sua Lei
moral; rebelião que produziu o estado de inimizade com Deus,
de desgraça do homem, de destino à morte eterna.
A consideração da situação do mundo,
da história humana, e a contemplação da Sagrada
Escritura (o Antigo Testamento), põem em evidência
que, tanto gentios como judeus,"todos pecaram e carecem da
glória de Deus" ( Rm 3,23). O pecado é uma força
que tiraniza o homem e está por cima dele desde o pecado
de Adão, (Rm 5,12.21) levando-o a uma situação
irremediável para o próprio homem, na qual é
impotente e se encontra escravizado, e de cujas malhas não
pode sair, mesmo contando com o livre arbítrio, com a inteligência
e a vontade ( RM 7,7-25) .
2- A carne = Paulo faz uso do termo carne com o mesmo significado
do Antigo Testamento que se refere geralmente a todo o corpo e mesmo
todo o ser inferior do homem, compreendidos os sentidos, os instintos,
os sentimentos, as paixões, tudo o que é material
e que contrasta com as faculdades superiores do espírito
humano.( Rm 8,3s ; Gl 5,16-21.24)
3- A morte = o pecado, com a cumplicidade da carne, arrasta todo
o homem para a inimizade com Deus, para a desgraça, para
a doença, em última analise para a morte: "Da
mesma maneira que um só homem (Adão) entrou no mundo
e pelo pecado a morte, e assim a morte penetrou em todos os homens,
por isso que todos pecaram" (Rm 5,12) A morte é o castigo
do pecado (Rm 6,23). Em suma, o homem sem Cristo é um escravo
do pecado, atraiçoado pela carne, e destinado inexoravelmente
à morte, pois "quando estávamos na carne, as
paixões pecaminosas despertadas pela Lei atuavam em nossos
membros, a fim de produzirem frutos para a morte" (Rm 7,5).
4- A Lei = A Lei torna-se aliada do pecado, excitando o homem a
ações pecaminosas mesmo sendo boa e santa em si. Isto
ocorre porque embora indique o bem, não contém a graça
para evitar o mal, deixando o homem na sua situação
carnal. A Lei dá o conhecimento do pecado, mas nada mais.
Os judeus vangloriavam-se de cumprir a Lei, mas só cumpriam
com atos externos e rituais, enquanto o seu coração
permanecia alheio à caridade e à misericórdia.
Pensavam que Deus, relegado para o papel de um mero árbitro,
estava obrigado a reconhecer e retribuir as ações
justas que eles realizavam pelos próprios meios: eles, e
não Deus, eram os seus próprios libertadores, julgando
que era a Lei mosaica o que os salvava, queriam impor tal concepção
a outros procedentes do paganismo. Paulo viu que isto não
era correto, pois segundo essa concepção era o homem
que se tornava bom e justo a si mesmo, de tal modo que a obra redentora
de Cristo ficava esvaziada de todo o valor e realidade; não
tinham compreendido o fundamental da fé cristã. Não
podemos esquecer que somos salvos não pelas nossas próprias
forças, mas pela graça que Cristo nos mereceu, à
qual aderimos pela fé; só depois desta Redenção
de Cristo podemos dar frutos para a vida eterna.
5- A humanidade não redimida = o homem por si só,
sem Cristo, está radicalmente incapacitado para se libertar
do estado miserável em que caiu depois do pecado original.
Este, aumentado pelos pecados pessoais, tem o homem subjugado. Paulo
não nega a liberdade humana, nem as faculdades da inteligência
e da vontade, mas adverte sem rodeios a situação real
do homem, inclusivamente depois de receber os frutos da Redenção:
"Pois não é o que eu quero que pratico, mas aquilo
que odeio é que faço" (Rm 7,15-19).
(Continua no próximo número)
Jane do Térsio
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