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Tanta tragédia, tanto sofrimento, de um lado e outro do mundo.
Vidas ceifadas, orfandade, desespero. Tsunamis na Ásia, explosões
em boates e casas noturnas na Argentina, a usual mas nunca menos
ameaçadora violência urbana, a guerra no Iraque.
Tantos fatores intranqüilizantes no encerramento do ano que
passou. E, no entanto, a mensagem do Papa volta a bater na tecla
evangélica que propõe um salto tão alto que
parece impossível de cumprir: vencer o mal com o bem. No
dia mundial da Paz, é esta a mensagem que a Igreja tem a
dar urbi et orbi. Não só os fiéis católicos,
mas a toda a humanidade, é proposto o caminho da não
violência, da mansidão e da reconciliação
como única via para que a verdadeira paz aconteça.
Ao fundo, as palavras do apóstolo São Paulo: "
Não te deixes vencer pelo mal. Vence antes o mal com o bem".
A antitética proposta do grande místico e apóstolo
que foi Paulo de Tarso, anunciando o evangelho de Jesus, ressoou
nos albores do cristianismo e ressoa novamente agora no despertar
do ano novo: para quebrar o círculo vicioso e pernicioso
da violência não são úteis ou eficazes
refinadas estratégias ou armas mais potentes que as do outro.
Só uma coisa vence o mal: a prática do bem. Só
uma atitude é capaz de quebrar a espiral diabólica
da violência e do mal: o amor e o bem praticados em favor
de todos. E todos os que ouvem esta frase e a põem em prática
são chamados a fazê-lo com radicalidade.
A prática do bem capaz de fazer brotar a paz como fruto maduro
é, na verdade, uma atitude ética que inclui até
mesmo o inimigo. Em palavras do mesmo Paulo: " Se o teu inimigo
tem fome, dá-lhe de comer, se tem sede, dá-lhe de
beber" ( Rm 12,20). Dizendo isto, Paulo segue à risca
o ensinamento do Sermão da Montanha, carta Magna do Reino
de Deus, promulgada e proclamada por Jesus, propondo além
de uma atitude passiva e não vingativa ou agressiva, uma
conduta ativa: mais além de tudo suportar sem imitar ou revidar
violentamente as ofensas recebidas, é preciso ainda amar
dinamicamente o ser humano, inclusive aquele do qual o mal provém
e por quem é praticado.
O princípio é passar além do amor ao próximo
que, segundo a lei mosaica, conserva um sentimento restritivo (como
a si mesmo) e a menção do inimigo faz a frase ainda
mais forte e contundente: " Amai os vossos inimigos".
Porém de que tipo de amor se trata? Certamente não
tem nada de uma ternura espontânea, feita de afinidade, a
qual seria aliás impossível. Pois a proposta do caminho
para a paz significa mais do que uma arte de viver neste mundo:
trata-se de uma obrigação positiva, um ministério
do amor universal. Neste sentido vai muito além do próprio
dever do perdão: apesar de incluí-lo, a exigência
de amar os inimigos e vencer o mal com o bem vai mais longe, rejeitando
o que ainda possa subsistir de condescendência mesmo no perdão.
Trata-se simplesmente de amar, sem jogadas estratégicas de
manutenção da paz nas fronteiras do mundo ou da Igreja,
nem de propaganda para conversão.
Para conseguir o bem da paz é necessário afirmar,
com consciente lucidez, que a violência é um mal inaceitável
e que nunca resolve os problemas e as angústias humanas.
A violência é uma mentira, porque se opõe à
verdade de nossa fé, à verdade da nossa humanidade.
Na verdade, a violência destrói o que ambiciona a defender:
a dignidade, a vida e a liberdade dos seres humanos. Portanto, nunca
é um caminho válido, nem justo, pois semeia destruição
e morte por onde passa. Com sua sabedoria que ultrapassa a todas,
Jesus de Nazaré pronunciou as luminosas palavras que há
20 séculos inspiram gerações de homens e mulheres
que vão construindo a paz por onde passam.
Na sua esteira, Paulo de Tarso escreveu aos cristãos de Roma,
que se debatiam com o sofrimento da perseguição e
da violência: "Vencei o mal com o bem". E depois
de Paulo, muitos outros houve e há, cristãos ou não,
que marcaram a história da humanidade praticando esse princípio
de diferentes maneiras, invocando ou não para isto o nome
de Jesus Cristo. Referimo-nos a Mahatama Gandhi, Martin Luther King,
Nelson Mandela, Edith Stein e tantos outros e outras.
A maneira de viverem, amar , sofrer, morrer ou agir nos prova que
vencer o mal com o bem é o verdadeiro caminho para a paz.
E mais: prova que, se é um caminho difícil, não
é impossível nem desumano. O convite do Papa, neste
início do ano, tem endereço certo: nós mesmos,
todos e cada um de nós, convidados a vencer o mal que tanto
penaliza a humanidade com o bem, único valor que pode trazer
a paz tão desejada.
Maria Clara Luchetti Bingemer - Teóloga (Do Jornal do
Brasil)
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