No dia da posse do novo presidente não estive em Brasília.
Ao contrário, andei em sentido inverso, em vôo rasante
na direção das diferentes realidades vividas pelo povo
brasileiro. Como faziam os índios, também encostei o
ouvido ao chão para auscultar o ruído dos passos e discernir
o que estava para acontecer.
Em todo lugar por onde passava, era evidente a convergência
de expectativas em torno do novo presidente que ia tomar posse. Pairava
no ar uma certeza central: a vinculação do presidente
com o povo. Desta vez, a posse mexia com os sentimentos. O povo se
sentia envolvido e identificado com o novo presidente, e tinha a sensação
especial de chegar com ele ao comando do governo para retomar em suas
mãos os rumos do país.
Entre tantos depoimentos colhidos nessas andanças de transição
do ano e de governo, um me surpreendeu. Fiquei escutando a história
que me contou a Sra. Vally Grendene Pungan. Ela já tem a sua
idade, e lembra bem de Getúlio Vargas, que ela conheceu de
pequena, e nunca mais esqueceu o episódio que teve o privilégio
de viver.
Foi quando Getúlio, ainda no seu primeiro mandato, passou por
Charrua, no Rio Grande do Sul. Estava visitando os municípios,
como presidente do Brasil. Pois bem, chegando em Charrua, Getúlio
foi se hospedar na casa humilde dos pais da Vally.
Em sua narrativa, Vally falava de Getúlio e pensava em Lula.
Intuío que ela queria dizer: ela espera que Lula seja para
o Brasil o que foi Getúlio em sua época. Para nutrir
esta esperança, assinalava algumas semelhanças e colocava
algumas apreensões.
Em primeiro lugar, Getúlio era homem simples. Vestia roupa
comum, dizia ela. Foi se hospedar na casa de pobres.
Conversava sobre os problemas que o povo vivia. Ficou sabendo, por
exemplo, que a mãe da Vally, professora da escola, estava com
seu salário atrasado um ano inteiro. Getúlio lhe garantiu
que o pagamento chegaria logo, e com um pequeno aumento, o que de
fato se verificou poucos dias depois.
Deste fato, a Vally não tem dúvidas em recomendar ao
Lula: "que se pague a cada um o que é justo". Fiquei
pensando nesta insistência sobre o justo pagamento. Há
uma linha divisória escandalosa neste país, para cima
e para baixo. Onde está a injustiça maior: nos que recebem
pouco demais, ou nos que ganham acima do justo? Onde deve atuar o
novo presidente, para que se faça justiça neste país?
Por onde deve começar, por exemplo, a reforma da previdência?
O povo brasileiro, junto com o novo governo, terá a coragem
de iniciar o desmonte daquilo que, legalmente, são "direitos
adquiridos", mas que na verdade são "injustiças
institucionalizadas"?
Outra preocupação da Vally é com a "fome
zero". Pensando em sua mãe, e olhando sua própria
vida, ela não tem dúvida de que o caminho certo é
dar trabalho a todos, para que todos tenham possibilidade de prover
ao seu necessário. Caso contrário, se perpetua a miséria,
com a inconveniência de viciar o povo.
Mas o que mais entusiasmava Vally em sua recordação
pessoal do Getúlio era outro episódio, mais simbólico
e mais carregado de energia vital. Quando Getúlio se hospedou
em sua casa, lembra muito bem, ela sentou no colo do presidente! Bastou
isto para motivá-la, em definitivo, para sentir-se identificada
com as causas do país, e empenhar-se com seriedade em contribuir
com seu trabalho. Nunca procurou favores do presidente. Ao contrário,
sentiu que o país precisava da participação dela.
A partir deste episódio, entendi melhor o que estava acontecendo
no dia da posse do Lula. Ele sentava na cadeira de presidente. E o
povo sentava em seu colo. A diferença começa daqui para
a frente. Os que fazem como a Vally, partem animados para o seu trabalho
e para as suas responsabilidades cívicas. Os que permanecem
no colo, atrapalham o presidente e prejudicam o país.
Valeu, Vally!
D. Demétrio Valentini - Bispo de Jales, acompanha há
muitos anos o setor de pastoral social da CNBB, juntamente com outros
bispos da CNBB. É membro da plenária nacional da campanha
sobre a ALCA
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