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De Getúlio a Lula | FEVEREIRO

No dia da posse do novo presidente não estive em Brasília. Ao contrário, andei em sentido inverso, em vôo rasante na direção das diferentes realidades vividas pelo povo brasileiro. Como faziam os índios, também encostei o ouvido ao chão para auscultar o ruído dos passos e discernir o que estava para acontecer.

Em todo lugar por onde passava, era evidente a convergência de expectativas em torno do novo presidente que ia tomar posse. Pairava no ar uma certeza central: a vinculação do presidente com o povo. Desta vez, a posse mexia com os sentimentos. O povo se sentia envolvido e identificado com o novo presidente, e tinha a sensação especial de chegar com ele ao comando do governo para retomar em suas mãos os rumos do país.

Entre tantos depoimentos colhidos nessas andanças de transição do ano e de governo, um me surpreendeu. Fiquei escutando a história que me contou a Sra. Vally Grendene Pungan. Ela já tem a sua idade, e lembra bem de Getúlio Vargas, que ela conheceu de pequena, e nunca mais esqueceu o episódio que teve o privilégio de viver.

Foi quando Getúlio, ainda no seu primeiro mandato, passou por Charrua, no Rio Grande do Sul. Estava visitando os municípios, como presidente do Brasil. Pois bem, chegando em Charrua, Getúlio foi se hospedar na casa humilde dos pais da Vally.

Em sua narrativa, Vally falava de Getúlio e pensava em Lula. Intuío que ela queria dizer: ela espera que Lula seja para o Brasil o que foi Getúlio em sua época. Para nutrir esta esperança, assinalava algumas semelhanças e colocava algumas apreensões.
Em primeiro lugar, Getúlio era homem simples. Vestia roupa comum, dizia ela. Foi se hospedar na casa de pobres.

Conversava sobre os problemas que o povo vivia. Ficou sabendo, por exemplo, que a mãe da Vally, professora da escola, estava com seu salário atrasado um ano inteiro. Getúlio lhe garantiu que o pagamento chegaria logo, e com um pequeno aumento, o que de fato se verificou poucos dias depois.

Deste fato, a Vally não tem dúvidas em recomendar ao Lula: "que se pague a cada um o que é justo". Fiquei pensando nesta insistência sobre o justo pagamento. Há uma linha divisória escandalosa neste país, para cima e para baixo. Onde está a injustiça maior: nos que recebem pouco demais, ou nos que ganham acima do justo? Onde deve atuar o novo presidente, para que se faça justiça neste país? Por onde deve começar, por exemplo, a reforma da previdência? O povo brasileiro, junto com o novo governo, terá a coragem de iniciar o desmonte daquilo que, legalmente, são "direitos adquiridos", mas que na verdade são "injustiças institucionalizadas"?

Outra preocupação da Vally é com a "fome zero". Pensando em sua mãe, e olhando sua própria vida, ela não tem dúvida de que o caminho certo é dar trabalho a todos, para que todos tenham possibilidade de prover ao seu necessário. Caso contrário, se perpetua a miséria, com a inconveniência de viciar o povo.

Mas o que mais entusiasmava Vally em sua recordação pessoal do Getúlio era outro episódio, mais simbólico e mais carregado de energia vital. Quando Getúlio se hospedou em sua casa, lembra muito bem, ela sentou no colo do presidente! Bastou isto para motivá-la, em definitivo, para sentir-se identificada com as causas do país, e empenhar-se com seriedade em contribuir com seu trabalho. Nunca procurou favores do presidente. Ao contrário, sentiu que o país precisava da participação dela.

A partir deste episódio, entendi melhor o que estava acontecendo no dia da posse do Lula. Ele sentava na cadeira de presidente. E o povo sentava em seu colo. A diferença começa daqui para a frente. Os que fazem como a Vally, partem animados para o seu trabalho e para as suas responsabilidades cívicas. Os que permanecem no colo, atrapalham o presidente e prejudicam o país.

Valeu, Vally!

D. Demétrio Valentini - Bispo de Jales, acompanha há muitos anos o setor de pastoral social da CNBB, juntamente com outros bispos da CNBB. É membro da plenária nacional da campanha sobre a ALCA
Recebido via e-mail Católica-Net
 
 
VEJA NO MÊS DE FEVEREIRO/2003:

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